Opinião: A Alvorada dos Deuses, de Filipe Faria

A Alvorada dos Deuses Filipe Faria Editora : Editorial Presença Sinopse : No inverno de 1477, Berardo de Varatojo, padre franci...

Filipe Faria

Editora: Editorial Presença

Sinopse: No inverno de 1477, Berardo de Varatojo, padre franciscano estigmatizado, viaja para a distante Thule (Islândia) em busca de respostas para a sua crise de fé. Contudo, acaba raptado por desconhecidos antes de as conseguir encontrar, e os seus captores afirmam ser deuses, os sete destinados a sobreviver a um Crepúsculo dos Deuses de que nunca ouvira falar. Aqueles que Berardo toma por feiticeiros pagãos confessam-se numa encruzilhada, culpando o Deus cristão pelo seu dilema, e, segundo eles, o franciscano é precisamente a chave para a sua salvação, embora ele não consiga sequer conceber como.


Opinião: Acompanho o Filipe há quase tantos anos como aqueles que leio romances. Acompanhei As Crónicas de Allaryia, que são um marco na literatura fantástica (e não fantástica) portuguesa, fiquei apaixonada pelos livros Felizes Viveram Uma Vez (em que obviamente não houve consenso com os restantes leitores já que os livros não tiveram nem de perto o sucesso das Crónicas), e é agora com tremendo orgulho que vejo este A Alvorada dos Deuses a ser publicado. Basta trocar meia dúzia de palavras com o Filipe (e eu só falo com ele praticamente a cada Feira do Livro, e não fui à última, imaginem o que está por colocar em dia!) e seguir o seu blogue para percebermos que o seu universo literário vai muito para além das Crónicas. Essa versatilidade, que poucos lhe (re)conhecem, parece não estar a ter entrada fácil no mercado literário português, mas penso que isso se deve a alguma preguiça. A escrita do Filipe exige, é verdade, principalmente nas primeiras leituras, uma atenção acrescida ao habitual. O seu vocabulário é diversificado e a prosa composta, requer alguma atenção, mas está longe de ser um bicho demasiado coloquial e presunçoso. Onde é que eu quero chegar com isto? Bem, quero chegar que sendo este o terceiro tipo de romance que leio do Filipe Faria, continuo a afirmar que estamos perante um grande escritor português.

A Alvorada dos Deuses é um romance que dentro do género fantástico quase poderia ser também considerado histórico. Eu que sou uma devoradora ávida de mitologias e até um pouco da religião cristã, vi-me deliciada ao longo destas quase duas centenas de páginas. Vá, é verdade, a leitura não é muito fluída caso a nossa cabeça não esteja devidamente comprometida com a leitura, mas tal é resolvido quando a narrativa atinge uma imagética forte constante. Os cenários estão, como já tão bem nos habituou ao final de nove livros, sendo este o décimo, muito bem descritos. Parece-me claro que foi necessária uma boa dose de pesquisa para a dose de rigor mitológica e religiosa que nos é apresentada. Isso foi o que mais me agradou na obra. Não tanto os protagonistas em si, o franciscano e os quatro deuses que o acompanham na viagem, mas toda a composição paralela que nos vai sendo apresentada através das visões. Para quem nunca leu sobre mitologia nórdica, este não pode ser considerado uma enciclopédia, mas antes um compêndio da mesma, onde o essencial sobre a natureza de alguns dos deuses mais conhecidos passa a ser conhecido. 

Depois existem todas as questões ligadas à fé ou à transição que houve entre o paganismo e o monoteísmo cristão. Costuma-se dizer que uma coisa só ganha força se acreditarmos nela e ao longo dos tempos assim se tem confirmado também com as crenças. O confronto entre aqueles seres primevos e o franciscano é interessante por diversas razões, sendo que esta é para mim essencial no que toca à derivação das religiões consoante os séculos vão passando. Não poucas vezes fiz paralelismo aqui entre as crenças pagãs e as cristãs, principalmente em alturas festivas como o Natal ou a Páscoa. Em Alvorada dos Deuses vai-se um pouco mais longe no que ao paralelismo de personalidades diz respeito. É um livro de literatura fantástica, a 100%, não vos estou a tentar fazer passar uma mensagem diferente disso, mas ainda assim tem a capacidade de para além de entreter, dar que pensar. Da minha parte, recomendado. 

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