Opinião: Razões para viver, de Matt Haig

Razões Para Viver Matt Haig Editora : Porto Editora Sinopse : Aos 24 anos, o mundo de Matt Haig desabou: Durante algum tempo,...

Razões Para Viver
Matt Haig

Editora: Porto Editora

Sinopse: Aos 24 anos, o mundo de Matt Haig desabou:
Durante algum tempo, fiquei parado junto ao abismo. Primeiro, a ganhar coragem para morrer; depois, a ganhar coragem para viver. Este é um relato na primeira pessoa sobre a forma como Matt mergulhou numa crise profunda, triunfou sobre uma doença que quase o matou e reaprendeu a viver.
Quando se está deprimido, sentimos que estamos sozinhos e que mais ninguém está a passar exatamente por aquilo que nos está a acontecer. Temos tanto medo de que os outros nos achem loucos que acabamos por interiorizar tudo. Temos tanto medo de que as pessoas nos ostracizem ainda mais, que acabamos por nos fechar numa concha. E não falamos sobre o que se passa connosco, o que é uma pena, pois ajuda se falarmos sobre o assunto.


Opinião: Depressão. Esse bicho de sete cabeças que ainda é alvo de um estigma imenso por ser considerada uma doença do foro mental. Os julgamentos, as incompreensões, o cepticismo e até alguma discriminação são lugares comuns quando se conversa sobre depressão ou se comenta que fulano X ou Y está deprimido. E muitas vezes esta expressão do "estar deprimido" tem um espectro tão enorme de intensidade que duas pessoas que se dizem sentir deprimidas podem estar a sentir abismos completamente diferentes. Já falei aqui no blogue algumas vezes sobre depressão, inclusive convidei um músico conhecido a falar sobre a mesma, enquanto alguém que sofre dessa doença e pode dar um testemunho pessoal e em discurso directo, e ao pegar neste livro voltei a confirmar que é necessário, cada vez mais, tentar falar deste doença como se fala de uma gripe ou de uma enxaqueca. 

O cérebro humano é extraordinariamente fascinante. O seu potencial é assombroso, mas impossível de prever com confiança. E essa imprevisibilidade acontece também quando algo não está bem. Às vezes sabemos a causa, uma lesão cerebral proveniente de algum incidente, por exemplo, mas na maioria dos casos os desequilíbrios parecem surgir de surpresa. É como acordar num dia normal, mas de repente ver tudo de maneira diferente. Mais sufocante, mais escuro, menos suportável. Matt Haig, de forma descontraída e num discurso franco e directo, coloca-nos na sua pele ao longo daquelas páginas provando que cada caso é um caso e que não há tal coisa como "só acontece aos outros". O primeiro passo, mais importante e que demora muito tempo até que aconteça, é a pessoa aceitar que está doente, que não é pior pessoa por isso, que não é uma questão de ser fraco ou menos do que os restantes mortais, mas antes pegar em tudo e enfrentar, passo a passo, cada medo e fobia que surge. 

Não há dúvida que os amigos e a família são um elemento fundamental na vida de qualquer ser humano. Existe esta necessidade básica de dar e receber amor que acaba por ser a salvação em muitos casos. Com Matt não foi muito diferente e ele conta-nos como ao princípio os pais também o viam daquela maneira e ao mesmo tempo não sabiam bem o que fazer e como Andrea, a sua companheira, de uma maneira extraordinariamente forte, persistente e paciente, o fez sair da sua concha claustrofóbica. Fosse por exigência da vida, fosse porque realmente às vezes são necessárias pequenas provocações para que os pequenos passos comecem a ser dados. Mais, não nos podemos esquecer que a depressão não é propriamente uma doença que tenha cura, mas mais que se atenua e com a qual se aprende a viver. É uma doença que deixa marcas e que exige o esforço do seu portador de não se deixar sugar novamente para o vórtice obscuro. 

Gostei muito desta leitura. Não o considero uma verdade universal, porque por já ter testemunhado outros casos de depressão sei que para outras pessoas as consequências foram diferentes, mas admiro a forma como ele deixa isso em aberto e admite a cada momento que tudo o que ali diz tem a ver com o seu caso específico. E estes testemunhos reais são cada vez mais necessários para que os complexos desapareçam, para que a depressão possa ser debatida e até melhor compreendida tanto por profissionais como por quem tem alguém próximo nessa situação. É também importante despertar toda a gente para os sintomas de forma a que haja uma identificação/admissão mais rápida seja pelo próprio, seja sendo alertado por quem o rodeia. Recomendo.

Caminhamos com a nossa cabeça a arder, e ninguém consegue ver as chamas. (...) Os psicólogos evolucionistas são capazes de ter razão: se calhar os humanos desenvolveram-se demasiado. E o preço a pagar por sermos a primeira espécie com inteligência suficiente para ter plena consciência do cosmos pode muito bem ser a capacidade de sentirmos um universo inteiro de trevas a pesar sobre nós. 

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