Entrevista aos Birds Are Indie, Banda Portuguesa, sobre “Let’s Pretend the World Has Stopped”

O Sabotage Clube, em Lisboa, faz três anos, e contrariando a tendência maioritária do rock que é habitual ouvirmos dentro daquelas portas, ...

O Sabotage Clube, em Lisboa, faz três anos, e contrariando a tendência maioritária do rock que é habitual ouvirmos dentro daquelas portas, no segundo dia de festejos vamos ter os queridos Birds Are Indie, como uma das actuações da noite. Andava aos meses, talvez já tenha feito mais de um ano, para estar com eles e entrevistá-los, mas a distância e uns quantos imprevistos andavam a fazer com que tardasse este cruzamento, agora possível e também muito apreciado. Serviu também de mote à conversa o lançamento do novo disco - “Let’s Pretend the World Has Stopped”. A edição física está lindíssima, com um cuidado estético e material raros nos dias de hoje, mas o seu valor só fica completo quando ouvimos as canções que o disco contém, com letras que falam ao coração e nos fazem identificar com elas, mesmo que individualmente com significados diferentes. Deixo-vos com a entrevista e com link para o Facebook e leitor do Spotify! O meu muito obrigada a esta banda tão querida! 


A descrição da vossa banda nas redes sociais é, possivelmente, das mais bonitas. “Once upon a time there was a girl and a boy. They fell in love. 12 years later a band was formed. Finally, an old friend came along.” A vossa história de amor foi importante para o que são hoje os Birds Are Indie? J 
Começámos a banda em 2010, só 12 anos depois do amor ter começado, em 1998… É engraçado haver pessoas que vão aos nossos concertos e que nasceram por essa altura. Por isso, sem uma coisa não haveria a outra, certamente. E a banda começou por um conjunto de coisas que passámos em conjunto, foi decisivo, mas não podia estar mais longe da nossa mente. Até porque, durante 12 anos, a Joana não cantava sequer à minha frente, quanto mais à frente de outros. 

Quando, e em que contexto, é que surge a junção do Henrique ao projecto? 
O Henrique também se tinha juntado a nós, em 1998, mas como amigo, por isso, na verdade, também esteve sempre presente. Ele foi um de muitos amigos que depois de ouvir o nosso primeiro EP disse que nos ajudava no que quiséssemos, por exemplo, a gravar o segundo, já que ele tinha material e conhecimentos (coisa que nós não). E assim foi. Gravou o segundo EP (Life is long) e depois o 1º álbum (How music fits our silence). Nessa altura convidámo-lo a tocar também connosco ao vivo, algumas músicas. E com o 2º álbum (Love is not enough) já tocava em todas e então, de forma natural, passámos a ser um trio.

Como foi entrar no universo musical? O processo de comporem canções e de as quererem fazer chegar ao público, foi fácil? 
Não sabemos bem se foi fácil ou difícil porque não temos termo de comparação. Mas praticamente tudo no nosso percurso foi natural. Um conjunto de acasos, de pessoas, de entusiasmos. À medida que as coisas foram evoluindo, tivemos de começar a planear algumas coisas mas, como não tínhamos quaisquer expectativas, ficámos sempre muito agradados com tudo o que foi acontecendo, passo a passo, sem pressas nem urgências. 

 “happy/sad pop” | “sad moments and happy days” | “Love Is Not Enough” | “Let’s Pretend the World Has Stopped” – são tudo expressões e nomes de discos que fazem parte da vossa identidade. Querem explicar-nos um bocadinho a vossa visão sobre cada um destes temas e como é que eles se ligam? 
Uma vez, em Évora, um senhor alemão disse que uma boa definição para nós seria “slow pop”. Até gostámos, mas depois colocámos isso numa plataforma de streaming e apareceram coisas como Kenny G e Michael Bolton. Mas a matriz pop, sim, parece estar sempre lá, sejam as músicas mais “happy” ou mais “sad”. Boa parte das nossas canções baseiam-se na ideia de dois polos opostos, às vezes complementares, outras opostos. Há quse sempre um elemento de “relação” entre dois lados de sentir ou ver as coisas. É uma forma de lidar com a contradição constante que é viver. Daí que, às vezes, dá vontade de que o mundo pare, nem que seja só 40 minutos, para ouvir um disco.


Sendo a vossa música daquela que pretende chegar ao coração, como é que ao vivo têm conseguido passar essa emotividade? O público tem-na sentido? 
Felizmente, temos ideia que sim. Uma boa parte do nosso concerto é a tentativa de criar, naquela hora, um momento único e irrepetível. Tentamos que as pessoas falem connosco (às vezes são tímidas), contamos histórias sobre as músicas ou sobre o que nos aconteceu nesse dia. E as canções, com as quais nos vamos apresentando, vão sendo um fio condutor para uma espécie de conversa musical. 

“Let’s Pretend the World Has Stopped” é então o vosso mais recente trabalho e confesso que fiquei surpreendida pela qualidade estética da edição física. Nota-se um cuidado e um primor que são raros hoje em dia, quando tudo parece tão electrónico e descartável. Em que é que se inspiraram? 
Muito obrigado. Desde o início que tentamos criar objectos que possam ter algum significado para quem os compra. Mesmo quando editámos os dois primeiros EPs numa netlabel, a Mimi Records, fizemos questão de ter edições físicas, feitas em casa, uma a uma, à mão. Depois juntámos esses dois EPs em cassete. Apenas há 50, editadas pela Cakes & Tapes. E fizemos mais algumas edições limitadas de 100 EPs, um com uma música de Natal, outro com gravações ao vivo. E quando o “How music fits our silence” esgotou até fizemos uma pequena edição especial em livro/cd, com um tema extra (uma versão dos The Parkinsons). Com os longa-duração, optámos sempre por capas de cartão, para fugir ao plástico. Todos os discos também têm sempre uma folha com as letras, para dar algo extra a quem compra. E este último CD, o “Let’s pretend the world has stopped”, fizemos em papel reciclado, que lhe deu um toque especial. Finalmente, muito em breve sai oficialmente o 12 polegadas (que nos chegou a casa há duas semanas e ficámos muito satisfeitos com o resultado. O disco é em vinil transparente! Já o temos levado para os concertos e estamos a fazer pré-venda através da nossa newsletter e o feedback tem sido incrível.

Sentem que este esforço é valorizado? O que é que é mais importante para vocês quando lançam estes artefactos? 
Nós também compramos discos a outras bandas, por correio ou no fim de concertos. É algo que gostamos muito de fazer porque, para além de gostarmos da música, claro, são objectos que mesmo anos depois nos transportam para locais ou para momentos. Comprar um disco é algo que valorizamos muito, é até emocionante. O que mais gostamos quando alguém nos compra um disco é imaginar que essa pessoa está a sentir a mesma emoção que nós, quando o fazemos. 

Ao contrário do título do disco, eu sinto as canções como sendo de transição. Talvez seja uma extrapolação bastante pessoal, mas a verdade é que dada a fase da minha vida que atravesso, em que as mudanças se sucedem umas atrás das outras, é fácil identificar-me com várias das vossas letras. Em que é que se inspiraram? 
Essa é uma vantagem da música, cada um pode interpretar à sua maneira, encaixá-la em cada momento da sua vida. E, às vezes, há músicas que vão mudando ou que nos vão dizendo coisas diferentes, consoante a altura ou o contexto. Na verdade, a ideia de transição ou de mudança, era-nos muito mais presente no disco anterior (Love is not enough). Este “Let’s pretend the world has stopped” expressa mais um desejo de estabilização, de desprendimento, de criação de uma espécie de bolha (não imobiliária) onde nos possamos alojar. Mas, sim, as incertezas ou inseguranças que nos fazem (querer) mudar, estão sempre lá…

A indústria musical portuguesa, se é que lhe podemos chamar assim, tem estado ao rubro com o aparecimento de muitas jovens bandas portuguesas, de géneros completamente distintos. Como é que vêem os Birds Are Indie situados neste panorama? Como é que tem sido o processo de conquistar público? 
Sim, aquilo a que se pode chamar indústria musical portuguesa já teve várias fases. Aquela que atravessa actualmente está muito suportada em projectos independentes ou que, pelo menos, nascem de forma espontânea e não “fabricados” pela tal indústria. E em termos criativos há cada vez mais bandas interessantes, há cada vez mais colaborações, há cada vez mais pessoas a seguir bandas portuguesas, há cada vez mais festivais com bandas portuguesas… É uma altura muito estimulante, como músicos e como ouvintes. Para conquistar público não seguimos nenhuma fórmula específica (sempre fomos péssimos a química). Somos fiéis ao que somos e acho que temos uma postura e uma sonoridade que nos distingue e diferencia. Talvez esse seja o bom caminho para encontrar o nosso lugar.

Hoje actuam no Sabotage Club, que está bem mais habituado a ter em palco bandas de um rock potente. Como é que se sentem ao serem escolhidos para celebração do aniversário do Sabotage, sendo um estilo tão diferente? Alguma nota em especial para esse concerto? 
Ficámos muito contentes. Sabemos que o Sabotage é mais orientado para o rock, mas também sabemos que não se fecha aí. Uma vez fomos lá de propósito, desde Coimbra, a uma terça-feira, ver o Dean Wareham. E o nosso amigo A Boy Named Sue está sempre por lá a rodar discos. Por isso, certamente que nos vamos sentir em casa. Dentro do rock que não fazemos, vai ser o nosso setlist mais “rock” de sempre. E tendo isso em conta, estamos a preparar uma ou duas surpresas… não se atrasem!


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