Opinião: Príncipe dos Espinhos, de Mark Lawrence

Príncipe dos Espinhos Mark Lawrence Editora : TOPSELLER Sinopse : Com apenas 9 anos, numa emboscada planeada pelo inimigo para erradi...

Príncipe dos Espinhos
Mark Lawrence

Editora: TOPSELLER

Sinopse: Com apenas 9 anos, numa emboscada planeada pelo inimigo para erradicar a descendência real, o príncipe Jorg Ancrath é atirado para dentro de um espinheiro, onde fica preso, com espinhos cravados na sua carne, a ver, impotente, a mãe e o irmão mais novo a serem brutalmente assassinados.
De alma destruída, sedento de sangue e de vingança, Jorg foge da sua vida luxuosa e junta-se a um bando de criminosos e mercenários, a quem passa a chamar de irmãos. Na sua mente há apenas um pensamento, matar o Conde de Renar, o responsável pelas mortes da mãe e do irmão, pelas suas cicatrizes e pela sua alma vazia.
Ao longo de quatro anos, Jorg cresce no seio de batalhas sangrentas, amadurece em guerras impiedosas, torna-se um guerreiro cruel e vai ganhando o respeito dos seus irmãos até que se torna o seu líder. Agora, um reencontro vai levá-lo de volta ao castelo onde cresceu e ao pai que abandonou. O que vai encontrar não é o mesmo sítio idílico de que se lembra, mas o príncipe que agora retorna também não é mais a inocente criança de outrora, é o Príncipe dos Espinhos.


Opinião: É um facto que a Literatura Fantástica em Portugal teve a sua época dourada durante um curto período de tempo. A moda dos vampiros passou, a febre d'A Guerra dos Tronos também acalmou e pouco espaço e curiosidade restaram para que este género continuasse a ser explorado e vendido no nosso país. O que é uma pena, porque após ter lido autores como Peter V. Brett ou Brandon Sanderson, ficou claro para mim que o género fantástico tem tanta ou mais qualidade do que muita ficção que por aí é vendida, ou que pelo menos é um género em que através de inúmeras metáforas se atingem nervos da sociedade e da psique humana que poucos têm a capacidade de o fazer noutros géneros. Quando vi que este livro tinha cotações positivas de Peter V. Brett, e sendo completamente fã dos seus livros, se havia alguma dúvida se o ia ler ou não, esta dissipou-se. E ainda bem. Príncipe dos Espinhos foi uma viagem e tanto que acabou por me surpreender de forma bastante positiva. 

Cortei do meu corpo toda a fraqueza da preocupação. O amor pelos meus mortos foi posto de parte, protegido numa arca, como objecto de estudo, numa peça fria de exposição, já sem sangrar, amputada, separada. Extingui a capacidade para sentir novo amor. Reguei-a com ácido até o chão ficar estéril e nada nascer. Até nenhuma flor ganhar raízes.

Um herdeiro ao trono, com apenas 9 anos, vê a sua mãe e o seu irmão mais novo a serem assassinados, sem poder fazer nada, enquanto preso num espinheiro que quanto mais resistência a vítima tenta, mais os espinhos se afundam na carne até ao osso. Quando o descobrem, levam-no de volta, mas todos o dão como perdido. As febres são dadas como demoníacas, que nada o poderá salvar. Mas ele sobrevive, apenas já não é o mesmo Jorg que era antes e nada como uma descida às celas dos condenados à morte para a sua vida mudar definitivamente. Existe todo um processo de evolução do protagonista que tem tanto de misterioso como de fascinante, sendo que a crueza e a crueldade são apresentados não como uma intenção maldosa, mas antes como eventos práticos que o levarão onde ele quer chegar. Quem o acompanhou não teve direito a tanto desenvolvimento, tirando Núbio, excelente personagem, mas estou com o palpite que talvez aconteça nos próximos livros.

Envolvemos o nosso mundo violento e misterioso numa aparência de compreensão. Cobrimos os vazios na nossa compreensão com ciência e religião e damos a entender que a ordem foi imposta. E a ficção funciona quase sempre. Deslizamos sobre superfícies, ignorando a profundidade que se esconde por baixo. Somos libélulas esvoaçando sobre um lago com quilómetros de profundidade, percorrendo caminhos erráticos até fins sem sentido. Até ao momento em que algo se ergue do frio desconhecido para nos engolir.
Guardamos as maiores mentiras para nós mesmos. Jogamos um jogo em que somos deuses, em que fazemos escolhas e a corrente segue o nosso rasto. Fingimos que existe um fronteira com a selvajaria. Fingimos que o controlo de um homem será profundo, que a civilização será mais do que apenas uma camada, que a razão será a nossa companhia em lugares sombrios.

Estas duas citações que coloquei aqui são devaneios de Jorg, com apenas 14 anos, após não só ter visto parte da família morrer, como após uma série de traições que destruiriam o corpo e a mente de qualquer um. Acho que o que mais me fascinou neste livro não foi tanto a história em si, o objectivo de vingança, a conquista ou as batalhas (nem sempre com uma linha de construção tão sólida), mas todos os processos adjacentes, inclusive das personagens que o vão acompanhando, seguindo, morrendo, sobrevivendo. Mark Lawrence criou personalidades e circunstâncias que conquistam, que instigam a que continuemos a leitura, que não nos deixa pousar o livro. A sua escrita é poderosa e provocadora. Confesso, fascino-me facilmente por todo e qualquer livro que apresente de forma plausível a forma como a mentalidade do ser humano se forma e se molda consoante a sua história de vida e com Jorg isso está pura e simplesmente sublime. Da minha parte, que venha o próximo, já que este é apenas o primeiro livro de uma trilogia.

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