[Crónica PAC] Super Bock Super Rock

Entrei tarde para a música, para o que se entende verdadeiramente por “gostar de música”. No secundário, só o metal me dizia respeito, ...



Entrei tarde para a música, para o que se entende verdadeiramente por “gostar de música”. No secundário, só o metal me dizia respeito, até para ter algo com que conversar entre os colegas de turma, apenas cinco no que toca ao género masculino. A faculdade, onde entrei aos 17, começou a abrir novos mundos. Mas os concertos só viriam mais tarde, e logo em dose grandiosa: a edição do Super Bock Super Rock de 2007 foi não só o primeiro festival a que fui, mas o primeiro concerto (ou concertos) a que assisti por conta própria (festas da terrinha ou os Xutos algures no Estoril não contam. E ainda bem, caramba).

Note-se bem a “armada” contratada pelo SBSR nesse ano: Metallica, Arcade Fire, Bloc Party, Klaxons, LCD Soundsystem, Jesus & Mary Chain, Interpol, Underworld. Tudo bandas com digressões à altura novas, ou discos novos, ou no pico das suas formas. Ainda hoje, e não é por qualquer filtro nostálgico mas por uma aproximação mais ou menos objectiva, tenho para mim que este cartaz é um dos melhor elaborados de toda a história de festivais em Portugal. Será mesmo o melhor depois do boom desse género de eventos; hoje em dia é difícil igualá-lo, quer porque já não se fazem bandas como antigamente (não creio nisto, by the way), quer porque as promotoras já não arriscam, em nome de um retorno seguro.

Pouco importa; houve este SBSR, bem perto desta cidade ribatejana na qual moro, cerca de dez minutos de comboio e água na mochila. Água essa que, bem, quase foi retida na entrada. Hoje sou mais esperto – vou com credencial de imprensa e escuso de prestar quaisquer declarações às autoridades policiais. Se bem que ainda me lembre de ter esta conversa com um dos senhores agentes da PSP ali destacados:

- Não pode levar a garrafa com a tampa. Então, o que é que vem ver hoje?
- Errr... Linda Martini.
- Epá, Linda Martini é muita bom. Pode seguir.

Por aqui se depreende que nunca tive muito jeito para a conversa.

Era Junho, final de, e estava um calor insuportável. O primeiro concerto ipso facto da minha vida respondeu aos apelos da minha adolescência: Men Eater, primeira banda da tarde e que ali estava antes de se ter tornado “de culto”. Escusado será dizer que as memórias desse concerto ou de todos os outros ficaram entretanto turvas, e nem sequer foi por culpa do álcool. Dessa tarde, “dia do metal” quando ainda existiam “dias do metal” (graças a Satã que essa prática acabou; é muito mais divertida a mistura entre géneros), sobram apenas mini-recordações: uma rapariga a desmaiar à minha frente assim que os Stone Sour sobem ao palco, Joe Satriani a dar um belo concerto independentemente daquilo que o Cristiano Pereira (JN) escreveu à altura (num dos melhores textos – e mais odiados – sobre festivais que já li), os Metallica a interpretar aquele glorioso tema que dá pelo nome de “Orion”.

Entre o primeiro e segundo dia de festival, interpôs-se um interlúdio (outra prática felizmente extinta) até se chegar a um dos concertos que mais queria ver: o dos Arcade Fire, que perdi no ano do rebentamento, em Coura. Tanto, que disse à minha boleia – um vizinho meu – que podia ir-se embora sem mim, aí por volta das 23h, obrigando-me posteriormente a fazer, a pé, o trajecto pela Estrada Nacional entre Sacavém e Alverca (demorei duas horas a chegar à Póvoa, desisti e fui o resto de táxi). Era o ano de Neon Bible, e ainda me lembro de começarem com um sample vídeo de uma qualquer coisa brasileira, até chegar a “(Antichrist Television Blues)”, um dos seus temas mais subvalorizados. Mas este dia não foi feito apenas de coisas boas; os Klaxons destruíram por completo o meu gosto por Myths Of The Near Future, o seu álbum de estreia, com um concerto hediondo (pior que o dos The Gift nessa mesma tarde, o que quer dizer muita coisa). Os Bloc Party foram decentes, eles que nunca conseguiram ser verdadeiramente mais que “a banda do anúncio da Vodafone”. À semelhança de tantas outras...

Eis que surge aquele que foi então (talvez continue a ser) um dos grandes concertos da vida de um moçoilo: os LCD Soundsystem, saidinhos de Sound Of Silver, segundo melhor disco da década dos zeros a seguir ao Funeral, que puseram toda a gente a saltar ao som de uma certa escumalha norte-americana, dez anos antes de Donald Trump fazer jus a esse título. A piada foi, no entanto, outra: a velha guarda que, a meu lado, passou o concerto inteiro dos Jesus & Mary Chain a pedir a “Darklands” e aconselhou os manos Reid a meter mais cavalo. Eu e o Diogo Abreu, hoje em dia um conhecidíssimo comediante, fartámo-nos de rir (e ele depois safou boleia, um senhor). E tal como no dia anterior: o descalabro pelas mãos dos Maximo Park, banda para miúdas histéricas extravasarem as suas hormonas. Praga... Interpol e Underworld salvariam o último dia, com os britânicos a fazer-me acreditar de vez no poder da música electrónica (“Born Slippy” é, ainda hoje, a minha canção preferida de sempre, eu que só recentemente vi o Trainspotting pela primeira vez), e os TV On The Radio a fazer-me acreditar que eu nunca na vida iria papar aquilo (ainda não papo, que soneira). Mas, regra geral, foi um bom festival com o qual perder a virgindade. Só voltaria a estas lides no ano seguinte, mas isso já dá outra história...

Paulo André Cecílio

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