[Diário de Bordo] Sean Riley & The Slowriders no CCBeat, com Mazgani

Os Sean Riley & The Slowriders lançaram em 2016 um dos melhores discos do ano, ano esse que trouxe consigo uma carga emocional a que...


Os Sean Riley & The Slowriders lançaram em 2016 um dos melhores discos do ano, ano esse que trouxe consigo uma carga emocional a que nenhum fã ficou indiferente. Felizmente, a banda continua de pedra e cal, sempre de corações ao alto, e prova disso foi o último concerto no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Pouco depois das 21h, as luzes baixavam, a antecipação fazia-se sentir pela sala e mal as primeiras vibrações começaram, conseguia sentir-se uma energia febril. Abrindo com Intro: Flying Back, o quarteto deixou bem claro que mantém uma força visceral, que toma vida própria libertando-se em cada um dos instrumentos que tocam. 

O ritmo continuou em crescendo revisitando Only time will tell, com Walking you home (aquelas teclas diabólicas são de um poder enormíssimo ao vivo) e acalmando um pouco com a visita a Farwell, com Harry Rivers. Terminada esta última, uma espécie de arrepio percorre a espinha quando Dili é anunciada como a próxima. Foi um tema que quando saiu em 2015 já era fortíssimo e que agora, por toda a sua essência, será sempre um hino à amizade e à devoção. Há que admirar os quatro músicos em palco e a forma como se mantêm firmes e partilham um elo de ligação que vai para lá do visível. Seguiu-se Pearly Gates, outro tema muito forte do disco, que confesso ser aquele com que me identifico mais. É como se houvesse apenas um véu muito ténue a separar uma certa negritude da libertação de fantasmas e vivências que de alguma maneira se mantiveram em plano de fundo.

Fotografia Florival Gonçalves

Voltamos então a revisitar clássicos mais antigos como House and Wives, Got to go ou This Woman. Três temas tão diferentes uns dos outros que mostram que existe um pouco de Sean Riley & The Slowriders para os vários tipos de disposição física e mental. Eis que estamos sensivelmente a meio do concerto, que teve direito a dois encores!, quando é chamado ao palco Mazgani. Este é um músico que já deveria dispensar apresentações. Com uma presença única em palco, o concerto ganhou outra candura com Distant Gardens, tema de Mazgani, e Everything Changes, tema de Sean Riley que ganhou um contributo bastante intenso e sentido pelo músico convidado. Entre a brincadeira e a seriedade, ouviu-se a provocação de que estariam dali a seis meses novamente no CCB em concerto com Mazgani. Seria bonito de se ver, espero que se concretize.

Voltamos ao disco homónimo com mais dois temas marcantes, começando em tom dançante com Gipsy Eyes e Greetings, para se viver um certo estado febril com Dark Rooms. Enquanto os dois primeiros são singles do disco, este último tema (terceiro no disco) é uma espécie de segredo bem guardado que ao vivo ganha outra dimensão, cada repercussão quase palpável. Houve ainda tempo para revisitar outros temas mais antigos, como Lights Out, B.D.D., terminando com Sweet Little Mary. Num dos encores, pudemos ainda assistir à interpretação de Afonso Rodrigues e Filipe Costa do tema Hollywood Forever Cemetery Sings, de Father John Misty 

Uma das coisas que mais gosto nos concertos de Sean Riley & The Slowriders, para além de tudo o que foi sendo mencionado por aqui, correndo o risco de me repetir, é a alegria e o companheirismo que partilham e transmitem. A própria versatilidade da banda, tanto em termos de composição e execução, mantendo a identidade mesmo quando a sonoridade varia ou trocam de instrumentos, mostra uma personalidade e carácter de alguém, neste caso enquanto conjunto, que sabe o que quer, que é livre de estigmas e de rótulos. E isso é admirável nos tempos que correm, em que parece que muita coisa se faz para se agradar a A ou a B. Foi um belo concerto, emotivo, forte, comovente, sempre com a memória bem viva e a homenagem mais que merecida. 

Fotografia Florival Gonçalves

0 comentários