[Crónica Paulo André Cecílio] Alive'08

Conheço o Gonçalo há mais de 20 anos. A memória mais distante que tenho dele é a de andarmos à pancada e eu lhe rasgar uma camisa, nos ...


Conheço o Gonçalo há mais de 20 anos. A memória mais distante que tenho dele é a de andarmos à pancada e eu lhe rasgar uma camisa, nos anos 90 em que só és amigo de um gajo se lhe partires a boca ou vice-versa. Desde então, ambos crescemos – especialmente para os lados –, ele fazendo a sua vida, eu fazendo a minha. Já não nos encontramos tantas vezes quanto isso, porque ele se mudou para a capital e eu permaneci no mesmo buraco, mas a amizade continua lá. Uma amizade que permite, por exemplo, que eu diga ao mundo inteiro que ele chorou a ver o Dancer in the Dark, sem que ele fique chateado com isso (mas na verdade vai ficar). Uma amizade que permite que eu lhe chame Constanza, não só pelas parecenças físicas e psicológicas com o gordo mais adorável das sitcoms, sem que ele se sinta melindrado (mas vai sentir, caraças). Uma amizade que permite que eu mande larachas javardas sobre a sob- ('tá calado, Paulo André).

Mas há mais que eu conheço sobre o Gonçalo. Conheço a mochila que ele levava para a escola, nos tempos do secundário, com um patch bem visível daquela que era (e quiçá continua a ser) a sua banda favorita: os Rage Against the Machine. Banda essa que motivou uma viagem até Algés, no longínquo ano de 2008, quando os norte-americanos cobraram, consta, um milhão de euros para vir espalhar a boa-nova comunista ao (então) Optimus Alive. A revolução vende, amigos. Olhem para a quantidade de t-shirts do Che adquiridas por putos idiotas por esse mundo fora. I don't know who this is, but my friends say he's cool.

Viagem essa feita a bordo no carro da mãe ou da irmã (não tenho a certeza), conduzindo ele e ficando quieto e calado eu, porque ele se lembrou de levar mais duas amigas sem sequer ter em consideração o meu autismo. O cabrão. E pensar que nessa mesma manhã eu ajudei a mãe dele a levar dois garrafões de água para o primeiro andar. Mas teve em consideração o facto de eu preferir ficar sozinho, em frente ao palco principal e sem cerveja na mão, a assistir a um bruto concerto dos Spiritualized, ainda durante a tarde e numa altura da minha vida em que eu considerava que Jason Pierce era Deus. Err, esperem: ainda considero. Isto porque ele queria ir ver Vampire Weekend – acho – ao palco secundário, sem desconfiar que eu fui, provavelmente, o primeiro português a ouvir o primeiro disco dos Vampire Weekend, após este ter leakado no 4chan na última semana de Dezembro de 2007. Haja algo de que me orgulhe.

Foi o meu primeiro Alive, festival pelo qual me apaixonei a partir do momento em que percebi que a malta da imprensa tem direito a cerveja de borla – o que não acontece em mais lado nenhum. Talvez porque a Everything Is New saiba que um bom jornalista é um jornalista feliz. Aprendam, demais promotoras. Mas dizia eu: foi o meu primeiro Alive, e dos concertos da tarde pouco mais me lembro; sei que os Kalashnikov aproveitaram a “fama” de então para dar ali um concerto, sei que houve um vulto hip-hop de seu nome Galactic a actuar pouco antes de Pierce & Camaradas. E sei que vi, ali, os National pela primeira vez, quando já eram os meninos bonitos do indie rock, com Matt Berninger a ler uma carta que lhes havia sido escrita por um fã que, se não me falha a memória, os viu no Sudoeste e estava, novamente, ali presente.

Mas essa tarde-noite não seria dos National, e sim do enorme pula-pula que se lhes seguiu: primeiro os Gogol Bordello, quando ainda era fixe gostar deles (start wearing purple, wearing purple...), depois os The Hives, quando ainda eram fixes (it's too late, it's too soon, or is it? Tick, tick, tick, tick...), e finalmente os RatM, quando já não eram mais nada que um grupo de velhos amigos a tentar fazer uns trocos à pala da juventude marxista. Quem me ler pensará que não gostei. Pelo contrário: continuo a achar o mínimo de piada às canções do quarteto, ainda que tenha deixado de prestar atenção ao Zack e passado a concentrar todos os meus sentidos na guitarra do Morello. Aliás, gostei tanto que no final até consegui sair desiludido: não tocaram a “Wake Up”. Mas fizeram um elogio a Saramago – claro... –, ergueram bem alto a bandeira Zapatista e ainda fizeram com que eu quase perdesse a minha boina no meio do mosh, sendo que não foi bem mosh e sim uma sucessão de nódoas negras nas pernas, já que à minha volta só via australianos com o triplo do tamanho e dos músculos. Foi assim que eu vivi o meu primeiro Alive e o meu primeiro contacto com a revolução operária. E também foi assim que eu jurei a mim próprio que nunca poria os pés no Avante.

Paulo André Cecílio

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