Opinião: 1933 foi um mau ano, de John Fante

1933 foi um ano mau John Fante Editora: Alfaguara Sinopse: A história de um jovem dividido entre a tradição e a liberdade, ent...


1933 foi um ano mau
John Fante

Editora: Alfaguara

Sinopse: A história de um jovem dividido entre a tradição e a liberdade, entre a família e a autodeterminação, numa sociedade ressequida por uma devastadora crise económica. Um romance cómico e comovente sobre a juventude e a sua dissolução na vida adulta.


OPINIÃO: Que a sociedade em que vivemos nos afecta, todos sabemos. O que, às vezes, não temos noção é de como a sociedade já foi tão diferente e de como, ainda assim, se mantém a eterna demanda pela liberdade e pelos sonhos. 1933 foi um ano mau é um exemplo disto, em que a realidade nos parece tão distante e impessoal, para depois sermos arrebatados com a simplicidade e a humanidade dos seus protagonistas. Neste pequeno, porém grandioso, romance conhecemos Dominic Molise, descendente de uma família de italianos (tal como o autor). Família essa que tem mais dívidas do que aquilo que consegue angariar, com um pai pedreiro que passa mais tempo a jogar do que a trabalhar e uma mãe tão religiosa que se agarra à possibilidade de um milagre, através das suas preces constantes, de que tudo melhore. Existe ainda a extraordinária avó Bettina. 

Dominic almeja no seu "sonho americano" ser jogador de baseball. Está convencido de que o seu "O Braço" é a máquina que lhe trará a devida liberdade e reconhecimento. Entre treinos e produtos que deixam um rasto olfactivo que o tornou característico, mas que servem para preservar "O Braço", tudo fará para se tentar libertar do destino malfadado que é tornar-se pedreiro como o seu pai. Pelo caminho apaixona-se, tenta trair a família, perde-se por entre fés e credos que tanto lhe dão esperança como o machucam. O drama é inevitável, a liberdade tem um preço e há que pagar por ela. As acções de Dominic levam a um sentimento de irreversibilidade e o fatalismo que o autor consegue através da sua escrita simples, directa, sem adornos, mas completamente certeira, deixa-nos compadecidos não só por Dominic como pela família, presa num ciclo difícil de quebrar.

Temos de agradecer a Bukowski por, hoje em dia, termos acesso às obras de Fante. Após este o ter descoberto numa livraria e de o ter caracterizado como "o seu Deus", tratou de cuidar que os seus escritos não ficassem esquecidos e só podemos ficar gratos. John Fante é o mestre da simplicidade e do carácter de uma narrativa mortal. Cada obra sua faz com que desçamos dos nossos pedestais e sejamos confrontados com as fragilidades inerentes à condição humana. Sejamos ricos, pobres, afortunados ou azarentos, haverá sempre uma centelha de reconhecimento em algum momento da narrativa inteligente de Fante. Afinal, somos todos humanos, todos falíveis, todos (potenciais) conquistadores. 

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