Opinião: O Ano da Dançarina, de Carla M Soares

O Ano da Dançarina Carla M Soares Editora: Marcador Sinopse : No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regr...


O Ano da Dançarina
Carla M Soares

Editora: Marcador

Sinopse: No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política. No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista. Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal. 


OPINIÃO: O primeiro livro de Carla M Soares saiu em 2012. Ainda me lembro da febre que trazia comigo naquela altura de querer conhecer novos autores portugueses e a Carla foi uma dessas promessas que se concretizou. Com este seu quarto romance, todas as dúvidas que ainda ousassem existir são obrigadas a dissiparem-se. Estamos perante uma escritora que cresce a cada obra, sendo que O Ano da Dançarina marca a entrada num novo patamar. À semelhança das obras anteriores o registo mantém-se dentro do romance histórico, mas apercebi-me, a certa altura, que quase parecia estar a ler outra autora. Não digo isto num sentido depreciativo, pelo contrário, acho que existe uma maturidade e um atrevimento que transmitem uma maior "segurança" ao leitor, no sentido de realmente sentirmos que estamos a ler uma grande escritora.

É verdade que não sou a maior especialista em romances históricos e, dependendo muito do estilo de escrita, nem sempre tenho a devida paciência para a carga de informação que muitas vezes é despejada. Nisso, a Carla M Soares destacou-se. Acho que do que mais gostei neste O Ano da Dançarina foi precisamente a forma como senti que a cada página aprendia mais um pouco, enquanto me fixava na parte mais sensível - as vidas e personalidades das várias personagens que me iam sendo apresentadas. Isso e também o facto de ter duas personagens femininas fortíssimas. A Carla vai-me desculpar por referir isto novamente, mas lembro-me que o maior entrave à sua escrita naquele primeiro romance tinha sido a minha implicação com a sua protagonista. Desde então, de livro para livro, também os protagonistas têm ganho mais textura e mais fibra, aproximando-se assim muito mais do leitor. Há também que destacar o belo trabalho que a editora fez com a capa e que a autora fez com o título. O Ano da Dançarina é um título super inteligente e que tem muito mais a dizer do que o que possa parecer à primeira vista. 

Depois desta leitura, a família Lopes Moreira fica guardada nos nossos corações de forma muito especial. Gostei muito de Nicolau, sim, mas confesso que gostaria de ter sabido mais sobre César. Eu sei, eu e a minha queda para as estrelas cadentes! A Bernarda, a irmã, é das minhas. E que bom que haja romances que reafirmem a coragem das mulheres ao longo da história. Mesmo o foco tendo sido no regresso traumático da guerra de Nicolau, achei que a tipografia teve uma importância bastante elevada também. Cecília foi um misto de emoções. E acho que quando a encontrarem na história por vezes vão ter expectativas que nem sempre são cumpridas, mas que são compreendidas. E o seu avô! Mas que senhor mais adorável! Claro que há mais personagens das quais podia falar, mas deixo isso convosco. A narrativa está a um ritmo muito bom, a acção e a descrição estão muito bem equilibradas e os diálogos são dinâmicos e oportunos. Parabéns, Carla M Soares, aqui está uma obra digna de ser lida do princípio ao fim só com pausas para o indispensável. 

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