Jazz em Agosto 2017 - Coax Orchestra: Até parece simples..., por João Morales

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Coax Orchestra: até parece simples

Uma orquestra que bebeu da fonte da improvisação, mas juntou ao cocktail diversas influências, do Funky ao Rock mais sónico. Tudo isto, filtrado por uma grande ironia.

João Morales

Domingo, 30 de Julho, terceira noite do Jazz em Agosto 2017, na Fundação Calouste Gulbenkian. O início deu-se num tom imperial, para logo dar espaço a um momento muito mais sereno. O trompete de Aymeric Avice esvoaça por cima da harpa eléctrica de Rafaëlle Rinaudo, até à entrada do teclado de Romain Clerc-Renaud. Os restantes vão alinhando.

A música da Coax Orchestra – um colectivo conduzido pelo baterista Yann Joussein (com um percurso que inclui trabalhos com Jacques Coursil, Thomas de Pourquery ou Jean François Pauvros) assenta na justaposição de sequências. Vamos avançando por blocos, umas vezes alinhados de forma sequencial, outras, agindo em simultâneo, por contraposição. Registo em disco, até agora apenas um, Lent et sexuel, lançado em 2014. 

Há inícios de temas que remetem imediatamente para a sonoridade de uns Naked City – na flexibilidade sonora, na rapidez das mudanças de registo. Há passagens onde impera uma batida Funky, quase dançável (mesmo quando sabotada internamente por uma percussão marcadamente tribal). Mas há também passagens de devoção ao Free Jazz, como os duetos protagonizados pela dupla de sopros (Avice e o saxofonista Antoine Viard).

Alguns dos melhores momentos do concerto assentam precisamente nessa fragmentação da orquestra, quando ficam em confronto apenas alguns dos seus elementos – por exemplo, Yann Joussein em dueto com Antoine Viard, ou em trio com o baixo eléctrico de Xuan Lindenmeyer e as teclas de Romain Clerc-Renaud.

Há um falso lirismo nas melodias que se insinuam, vítimas de uma ironia sub-reptícia que se destina a estraçalhá-las. Com o desenrolar dos minutos, cada tema revela-se muito mais complexo do que poderia parecer ao início. O minimalismo das bases sonoras acolhe um ambiente de quase muzak intencional (Joussein dirige-se à audiência e refere-se mesmo a música de elevador) que rapidamente desemboca em massas poderosas de som, onde a dupla de guitarras eléctricas (Simon Henocq e Julien Desprez, que já trabalhou com Mats Gustafsson, Noel Akchoté ou Louis Sclavis) desempenha um papel axial. 

Em diversos momentos sentimos a pulsão do Rock, uma espécie de Radiohead transformados pela improvisação, cruzando-se com a dimensão sónica de uns Sonic Youth (por várias vezes, um certo fantasma de Jim O'Rourke poderá ter pairado pelo jardim). Aliás, foi mesmo recorrendo a essa dimensão sónica que o concerto encerrou, com um ritmo em crescendo, vertiginoso e martelante, até se esgotar num baque súbito. 

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