[Crónica Hélder Oliveira] Sim, Fui Professor do Luís (Nice Weather For Ducks)

Sim, fui professor do Luís. Quando terminei um meu curso superior, comecei a minha atividade profissional como professor da área te...



Sim, fui professor do Luís.

Quando terminei um meu curso superior, comecei a minha atividade profissional como professor da área tecnológica de informática, num colégio a norte do concelho de Leiria. No primeiro ano, uma das minhas turmas, na área tecnológica de informática, tinha apenas cinco alunos. Um dos alunos chamou-me a atenção desde o início. Não porque ficasse na fila da frente, não porque fosse participativo ou porque demonstrasse mesmo alguma evidência de que estivesse interessado na matéria. Com uma enorme cabeleira “à Beatle”, ficava mesmo na última fila, caladinho do início ao fim da aula e com um olhar mais adormecido do que acordado.

No primeiro momento de avaliação fiquei preocupado, pois não haviam evidências de que aquele miúdo fosse fazer alguma coisa de jeito... Mais ainda, foi o primeiro a entregar, o que aumentou ainda mais a suspeita que aquela “alma” estaria entregue ao insucesso. Pois, mas o “Simpson” (assim era apelidado pelos colegas) teve a melhor nota nesse teste!

Então percebi que o Luís tinha uma inteligência e uma capacidade de absorção de conhecimento extraordinários! Os níveis de preguiça e vontade de fazer alguma coisa é que eram igualmente elevados! Ali estava... como vários outros: sem grande preocupação pelo futuro, mas porque alguém lhe dizia que era importante tirar o 12.º ano e, se possível, terminar um curso superior.

Apenas uns meses mais tarde descobri o que realmente “trazia o Luís à terra” quando pedi que desenvolvessem um pequeno website: o Luís resolveu fazer uma página sobre guitarras. Não que o Html, CSS’s ou Javascript lhe desinteressasse totalmente, mas a maior motivação estava nas tarefas relativas à seleção de conteúdos para construir a melhor galeria de guitarras. Fiquei curioso. A minha relação com a música obrigou-me a saber mais e a perceber de onde vinha todo aquele entusiasmo que lhe desconhecia até então.

Uma das guitarras da galeria era igual à do irmão, dizia-me o Luís orgulhoso e interessado em mostrar que aquele era o seu mundo. Esse irmão era o Nuno, já artisticamente conhecido por Nuno Rancho, e que, na altura, tocava nos Kyoto. Confesso que, nesse momento, não dei grande importância, pensando que se tratasse de mais uma daquelas bandas de miúdos que, num dos intervalos da escola, aprendiam uns acordes e, no intervalo seguinte, “bora lá fazer uma banda”. Obviamente que estava completamente enganado e constatei isso numa das festas da escola, quando alguém resolveu por a tocar uma das músicas do álbum “Question Mark”, acabadinho de sair. Até aqui, nunca tinha ouvido tocar ou cantar nenhum dos Jerónimos, mas lembro-me de ter perguntado várias vezes ao Luís: “Isto é mesmo o teu irmão?”. Era realmente espantoso e invulgar o que tinha acabado de ouvir...

Era apenas o inicio da descoberta dos irmãos Jerónimo. Mais tarde, já no tempo dos Team Maria (que ainda eram Timaria), conheci o Gil e o Nuno. Convidei-os para tocar comigo numa festa de Natal e eles aceitaram. Pouco depois o Nuno convidou-me para tocar nos Texas Killer Bee Queen e gravar umas pistas para um tema que andava a produzir “à distância” com um “tipo de Lisboa” (Luís Costa). Tratava-se do tema “Around Eight” dos The V-Men. Era o meu regresso à atividade musical. Em pouco mais de três anos, esta aventura trouxe-me o prazer de partilhar ensaios, palcos, festas, sessões de gravação e (muitas) amizades com estes talentosos “miúdos da Bajouca”. E, no meio disto tudo, quando outros se juntavam, havia sempre aquela pergunta: “Sabias que o Hélder foi professor do Luís?”. Pois, foi ele o ponto de partida de tudo isto. A aventura não durou tanto tempo como desejaria, mas o suficiente para dizer que valeu a pena ser professor do Luís.

Hélder Oliveira

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