Opinião: Pequenos Boémios, de Eimear McBride

Pequenos Boémios Eimear McBride Editora: Elsinore Sinopse: Uma rapariga de 18 anos, recentemente chegada a Londres para estuda...


Pequenos Boémios
Eimear McBride

Editora: Elsinore

Sinopse: Uma rapariga de 18 anos, recentemente chegada a Londres para estudar Teatro, apaixona-se por um homem mais velho, um ator estabelecido e bem-sucedido. Uma rapariga de 18 anos, ingénua e carregada de expetativas sobre a vida numa grande cidade e um homem acompanhado por fantasmas de uma vida conturbada acabam por se apaixonar. Londres vibra, aproximando-se do novo milénio. A rapariga e o homem vivem um ano que poderá acabar por consumi-los, sem hipótese de retorno. Entre o épico e o delicadamente íntimo, Pequenos Boémios é a celebração da luz e da escuridão, das ansiedades de envelhecer e da intensidade transformadora do amor.


OPINIÃO: Este livro arrasou comigo. Na verdade, a minha opinião poderia resumir-se a uma única palavra, o que é raro. IMPLACÁVEL. Se quando li Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada, romance de estreia de Eimear McBride, achei que tinha sido revirada do avesso e que algo de muito profundo tinha ali sido remexido, ao ler Pequenos Boémios houve, novamente, alturas em que tive de o pousar. Acho que o que mais me fascina na escrita desta autora é a capacidade que tem de se imiscuir no nosso psicológico assim como quem não quer a coisa, mas de repente, qual polvo com tentáculos por todo o lado. Apesar de um estilo narrativo experimental semelhante, estes dois livros acabam por tomar rumos bastante diferentes. Não consigo dizer de qual gostei mais, mas consigo dizer, sem qualquer dúvida, que Eimear McBride se tornou numa das minhas autoras preferidas e numa daquelas que vou querer ler de imediato sempre que sair um novo livro.

Em termos de romance, da história em si, Pequenos Boémios não é propriamente inovador. Temos uma rapariga de 18 anos que decide partir para Londres, para uma nova vida, e que conhece um homem mais velho, um homem danificado, cheio de história, mas também ela tem os seus danos e é através da redenção um no outro que os vamos acompanhando. A grande questão nos romances de Eimear McBride é a voz da narrativa e a forma como a autora nos faz olhar e sentir o mundo que construiu. O livro está cheio de descrições sexuais, porém nunca cai nos lugares comuns. É como se conseguíssemos sentir tudo sem ver quase nada. Estar dentro da cabeça de Eily foi, na maior parte do tempo, como oscilar entre estar deitado nas margens de um lago ou estar numa montanha russa sem fim e sem limite de velocidade. Entre a contemplação e a descoberta, entre a vertigem e o nunca se saber onde se vai parar, Pequenos Boémios é um romance genial muito devido às perspectivas interior e exterior que conhecemos de Eily e Stephan. 

A certa altura a narrativa muda. Quando se bate mesmo fundo, quando chegamos a um ponto da nossa vida em que somos apanhados numa encruzilhada em que não aguentamos manter dentro de nós todos os segredos e toda a escuridão, parece que só verbalizando com alguém se consegue aliviar o fardo. E é então que a voz de Stephan entra em cena, sendo que a narradora continua a ser Eily, ela apenas o ouve, e somos bombardeado com páginas e páginas de cenários brutais. Aqui o estilo de escrita muda, pois já não estamos em voz directa, mas ainda assim Eimear McBride vence na intimidade e na violência com que arrebata o leitor. Ao ler os seus romances somos constantemente confrontados com abusos sexuais e as consequências que isso tem na personalidade e na capacidade de acção e discernimento de quem sofreu dos mesmos. Eily ainda só tem 18 anos, mas já conta com a sua dose de perdição, enquanto que Stephan com 41 anos tem uma dose inimaginável, mas suficientemente real, de eventos com uma capacidade de destruição assustadora. 

Honestamente, por muito que me ponha aqui a escrever sobre o livro, tenho a clara noção que me faltam ferramentas para lhe fazer justiça. Mesmo com toda a negritude que muitas vezes se fez sentir, não consegui parar de ler o livro por horas e horas a fio. Tive alturas em que precisei de o pousar e ir fazer alguma coisa diferente, mas logo a adicção falava mais alto e lá voltava eu para aquele "masoquismo" que tanto me aterrorizou como fascinou. Devo avisar, por muito que eu goste tanto de Uma Rapariga É Uma Coisa Inacabada como de Pequenos Boémios, ambos são leituras com um forte teor de abuso e de violência física e psicológica. São livros capazes de invocar ecos e de fazer mergulhar em alguma escuridão. Ainda assim, não deixam de ser leituras magníficas. 

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