Opinião: Nada, de Janne Teller

Nada Janne Teller Editora: Bertrand Editora Sinopse: Pierre Anthon acha que nada vale a pena, a vida não tem sentido. Desde o m...

Nada
Janne Teller

Editora: Bertrand Editora

Sinopse: Pierre Anthon acha que nada vale a pena, a vida não tem sentido. Desde o momento em que nascemos, começamos a morrer. A vida não vale a pena! O rapaz deixa a sala de aula, sobe a uma ameixieira e lá fica. Os amigos tentam fazer de tudo para o tirar de lá, mas nada resulta. Decidem então pôr em prática um plano: fazer uma «pilha de significado». Cada um deve dar algo que tenha significado para si. Mas depressa se torna óbvio que a pessoa não pode dar aquilo que é mais importante para si, portanto começam a ser os outros a decidir. À medida que as exigências se tornam extremas, os acontecimentos precipitam-se para um final arrasador. Um livro polémico e chocante, que convida à reflexão.


OPINIÃO: A rentrée literária da Bertrand trouxe com ela este pequeno grande, e também algo estranho, livro. Nada, de Janne Teller, traz consigo um historial de polémica, proibição e agora recomendação literária. Basta pesquisar um pouco sobre o mesmo para percebermos que esta obra tem tido tudo menos uma concordância regular e, por isso mesmo, foi proibido na Dinamarca e outros países nórdicos. Hoje em dia, as opiniões dividem-se considerando-a uma obra brutal e chocante, mas também como perturbadora. São 150 páginas que obrigam o leitor a mergulhar numa série de reflexões potencialmente inesperadas. 

Um bom exercício para se prepararem para ler este livro pode ser imaginarem-se com 12 ou 13 anos e confrontarem-se com a convicção, de alguém que vos é próximo, de que NADA tem significado. E nada tem significado porque eventualmente vamos morrer e tudo o que possamos fazer perde significado pela efemeridade que é a vida. Ora, ter este tipo de pensamento e agir em conformidade, que é não agir de todo e passar os dias sentado numa árvore a gritar que nada tem significado, pode provocar algum impacto. E este impacto pode tomar muitas formas, muitas delas imprevisíveis. Como é que vocês reagiriam? Tentariam mostrar a esse/a vosso/a amigo/a que a vida tem significado? Concordariam com ele, mas mesmo assim, para validarem as vossas opções de vida, tentariam contrariá-lo? Com Pierre Anthon, foi isto que aconteceu. Os seus colegas de escola, pelas mais variadas razões, tentam provar que a vida tem significado construindo uma pilha de objectos com significado, que de alguma maneira os tenha marcado e que mostre o valor que a vida tem para cada um deles. 

Pierre não podia estar mais indiferente a esta iniciativa e é através de Agnes, a narradora da nossa história, que vamos assistindo, muitas vezes estupefactos, ao evoluir de uma iniciativa que se torna numa espécie de jogo. Quem é que está disposto a abdicar do que lhe é mais precioso, ou até íntimo, para contribuir para esta pilha? E a parte perturbadora vem, precisamente, nesta parte. Janne Teller teve a mestria de explorar o lado mais negro da crueldade adolescente, ao mesmo tempo que desconstrói o cinismo em que se pode viver desde muito cedo. O livro peca, ou vence, dependendo de cada um, pelo vazio com que se fica. Existe uma espécie de incompletude que parece nascer do horror e da incredulidade que muitas vezes se faz sentir. O desfecho deixa, portanto, um sabor agridoce.

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