[Crónica Paulo André Cecílio] Bater àquela porta

Fotografia Paulo Cunha Martins Quem me conhece sabe que, de todas as centenas de bandas que já ouvi ao longo de anos de melomania, há ...

Fotografia Paulo Cunha Martins

Quem me conhece sabe que, de todas as centenas de bandas que já ouvi ao longo de anos de melomania, há uma que guarda um lugar especial no meu coração: os Mão Morta, os sempre imprevisíveis Mão Morta, a resposta portuguesa aos The Fall – sempre diferentes, sempre os mesmos –, a banda que mais fez pelo rock (ou pela música!) em Portugal através de processos e processos de reinvenção, a que mais estudou diferentes sonoridades ao longo de uma vasta carreira, e sem sombra de dúvida a mais poética... Culpa de um Homem, Adolfo Morais de Maceo, ou Luxúria Canibal, culpa de outros tantos, guitarristas, baixistas, convidados. Não são “a melhor banda portuguesa de sempre”, porque isso era reduzi-los a um qualquer patriotismo bacoco; são, isso sim, a melhor banda da história da humanidade. Está dito.

E, no entanto, esta minha paixão pelos Mão Morta – que começou ainda na juventude, ali por volta de uns metálicos 14 anos, quando escutei “Orgia Scherzo Em Fá #” pela primeira vez e julguei estar na posse de uma qualquer loucura antropomorfizada – não se traduz em dezenas e dezenas de idas aos seus concertos. Afinal de contas, cheguei tarde a estas coisas na música ao vivo; só pelos 20 e poucos anos comecei a sair de casa. Pelo que, concertos que já vi ao vivo dos Mão Morta, consigo contá-los pelos dedos de duas mãos, não sendo isto de todo algo de que me orgulhe. Mas adiante.

Da primeira vez, que a gente nunca esquece, recordo-me sobretudo da ida à Fnac para comprar, em vinil, aquele que era à altura o álbum mais recente dos Mão Morta: Pesadelo Em Peluche. Como eu, muitos outros compraram a mágica rodela em inúmeros pontos de venda, facto comprovado pelas dúzias de sacos que eram sendo ostentados de forma mais ou menos garbosa dentro do Coliseu dos Recreios, naquela noite de Abril. Não como eu, que me limitei a olhar, embevecido, para o que se passava em palco, outros tantos preferiram as drogas, o álcool e a loucura – como o tipo que, mal começou o concerto, se atirou para as grades, tombou de cachaço e foi prontamente levado pela segurança. Rock n' roll, claro.

E não só – recordo-me de “E Se Depois”, essa canção no fio da navalha, logo à segunda; recordo-me de Fernando Ribeiro subir ao palco para interpretar “Como Um Vampiro”; recordo-me de “Vamos Fugir” e do coro do público em “Tiago Capitão”, para além dos insistentes pedidos de “Lisboa”, que não foi tocada. E recordo-me de ter pensado que, durante aquela noite, a vida valia a pena enquanto pudéssemos ter ídolos que a alumiassem. De lá para cá, já me encontrei com ALC por um par de vezes – a última das quais em Paredes de Coura, 2017, comigo a tentar não morrer de vergonha e balbuciando como uma menina de 12 anos perante os One Direction. Também faz parte desta coisa de gostar de música. Acho eu.

Paulo André Cecílio

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