[Crónica Paulo André Cecílio] Gil Scott

Olá, sou novo aqui Devo isto da escrita a toda a gente que me deu uma oportunidade, quer me apresentando às pessoas certas quer arranj...

Olá, sou novo aqui


Devo isto da escrita a toda a gente que me deu uma oportunidade, quer me apresentando às pessoas certas quer arranjando um espacinho no seu blogue ou webzine, e a todos os que nos anos seguintes foram lendo as parvoíces que vou deixando, mas a músicos só a um, de forma mais indirecta: Gil Scott-Heron. Foi sobre ele o primeiro texto que escrevi para o Bodyspace, em 2010, aquando da sua vinda à Aula Magna e ao lançamento de I'm New Here, que se veio a revelar o seu último álbum. E cujo título não podia fazer mais sentido – Gil Scott-Heron dizia ser “novo aqui”, assim como eu o fui por sua culpa.

Quando o doutorado em bluesology aterrou em Lisboa, já eu tinha passado boa parte do meu tempo a escutar os seus discos e, mais importante ainda, as suas palavras. Antes disso conhecia, naturalmente, “The Revolution Will Not Be Televised”, que se tornou frase-feita e parodiada por inúmeros grupos de pessoas ao longo dos anos. Depois, ri-me a bandeiras despregadas com “Whitey On The Moon”; pensei em “Who'll Pay Reparations On My Soul?” como um dos grandes temas negligenciados da soul; decorei “Lady Day And John Coltrane” com preciosismo – e só estou a dar alguns exemplos. Ele era pai do hip-hop, e sobretudo pai daquilo que se entende por “hip-hop inteligente” - com uma mensagem para além do bitches and bling, que quando se é novo, pretensioso e se pina pouco, é algo que passa muito ao lado.

Ter podido ver Gil Scott-Heron num período em que ainda não sabia onde a vida me iria levar foi uma bênção, e estar-lhe-ei eternamente grato por me ter entrado nos ouvidos; se eu tivesse continuado a ouvir exclusivamente o metal que ouvia na adolescência, provavelmente não estaria aqui, agora, a contar esta história neste blogue (e provavelmente nem sequer saberia da sua existência). Não teria feito os amigos que fiz ou chegado aos sítios que cheguei. Por isso, Gil, onde quer que estejas: obrigado, caraças. Obrigado pelos discos e por aquela noite na Aula Magna. E obrigado por me teres levado a escrever isto.

Paulo André Cecílio aka PAC

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