Diário de Bordo Nuno Nepomuceno #1 - O Plano

O Plano Eu tinha o plano perfeito. Ia replicar a estratégia que seguira com A Célula Adormecida , reunir a maior quantidade de infor...


O Plano

Eu tinha o plano perfeito. Ia replicar a estratégia que seguira com A Célula Adormecida, reunir a maior quantidade de informação que conseguisse, meter-me num avião e escrever afincadamente até terminar o meu novo livro. As ideias andavam a atropelar-se no interior da minha cabeça, a implorarem-me para que as colocasse na forma escrita. E foi exatamente isso que fiz. Estava na altura de pôr mãos à obra.
Munido de um casaco bem forte, um gorro e uma mochila às costas, aterrei em Londres em meados de janeiro. Via o sol a brilhar lá fora, através das janelas da aerogare, e suspeitava que a temperatura devia estar baixa, mas isso pouco me importava. A minha preocupação era apenas uma — correr. As minhas pernas tinham de ser o mais velozes possível.
Determinado, serpenteei pelos corredores cheios de passageiros, em direção ao cais do comboio. Estava na cidade por apenas um dia, com voo marcado para o início da noite, e dispunha de menos de uma hora para chegar ao centro, onde tinha uma entrevista marcada com o guia da sinagoga sefardita de Bevis Marks. Os meus olhos pestanejaram insistentemente ao ler a informação que constava do placard eletrónico que antecedia a plataforma. «Novo expresso dentro de vinte minutos». O anterior acabara de partir.
De olhos postos no meu relógio, sentado ao lado de uma rapariga que retocava a maquilhagem através de um espelho de bolso, comecei a fazer contas de cabeça assim que o novo comboio arrancou. Não ia chegar a tempo. Era impossível! Ainda teria de mudar para o metro e, já dentro da rede, mudar por duas vezes de linha. Foi então que o Nuno resolveu ser criativo... Como podem calcular, foi uma excelente ideia, não vos parece?
Mais algumas correrias, dois táxis e outros tantos mal-entendidos depois, lá cheguei à City. Homens e mulheres com aspeto executivo passavam por mim na rua, enquanto eu, de mapa na mão, olhava, frustrado, para todo o lado, até localizar o portão de entrada da mais importante sinagoga de Londres. Após uma breve troca de palavras com o segurança, foi-me permitido entrar. Animado, pensei que conseguira. Não poderia estar mais enganado. Era meio-dia e qualquer coisa, mais de três quartos de hora depois do combinado, e um homem, que supus ser o guia, despedia-se de algumas pessoas e fechava o templo judaico. A Santa Congregação dos Portões do Céu estava encerrada para mim.
Sentado no interior da sinagoga de Bevis Marks, bati os pés discretamente contra o soalho de madeira. Como penitência pelo meu atraso, o Sr. Maurice, que afinal aceitou receber-me, pediu-me que esperasse um pouco. A sala de cerimónias estava gelada e os meus pulmões inchavam com o ar frio, mas eu recusava-me a arredar pé. Tinha ido a Londres com o único intuito de conseguir aquela entrevista e nada nem ninguém poderia demover-me de a conseguir. Cerca de quarenta minutos depois, voltei a ver o cabelo louro do meu anfitrião atravessar as portas. Trocámos um breve olhar, o dele claramente desconfiado. Respirei fundo e pensei no «Plano». Peguei no bloco de notas, destapei a caneta e levantei-me, para o cumprimentar. Estava na hora de lhe fazer umas perguntas.
Os meses que se seguiram passaram muito depressa. Regressei de Londres e fiquei de cama durante quase uma semana. Contraíra uma infeção respiratória grave durante a viagem e comecei a atrasar-me. Queria chegar ao fim do mês de fevereiro com toda a pesquisa compilada, pronta a ser usada, mas não o consegui. E lá fui outra vez embarcar num avião. Daquela vez, a viagem era outra, algo mais longa, e por vários dias. Ia ao centro da fé, Jerusalém.
A ida à Terra Santa trouxe um misto de emoções. Senti-me apaixonado pelo exotismo da cidade, pelo modo como as três grandes religiões monoteístas fundiam-se nas ruas exíguas dos bairros históricos, mas ao mesmo tempo dececionado. O «Plano» ameaçava ruir. Só conseguia aproveitar Jerusalém da mesma forma que fizera no livro anterior, com Istambul. E isso não podia ser. Estava a usar a mesma estratégia, mas a obra, essa, eu queria que fosse muito diferente.
As más sensações continuaram e, para o agravar, a minha relação com a editora começou a deteriorar-se. Existiram alguns conflitos, algumas coisas que prefiro não relatar. Mas eu apresentei-lhes a sinopse e prometi-lhes 100 páginas no início de junho, ao que me responderam que «não estou a ver onde queres chegar com isto», apesar de me terem dito para continuar, que sim, que queriam publicá-lo.  A Célula Adormecida fora um sucesso comercial; o Nuno estava a «crescer». Logo, o Nuno era cada vez mais apetecível.
A primavera findou, tal como o processo de preparação para o livro. Tinha ido a Londres, visitara Jerusalém, passara quatro meses a estudar. Os dados estavam lançados. Faltava-me começar a redigi-lo. Queria que fosse um thriller psicológico e que se iniciasse com um homicídio. Uma imagem veio-me subitamente à cabeça. Envolvia um homem e um ritual macabro. E foi assim que cometi o meu primeiro pecado santo — matei um rabino.
Passei o mês de maio a escrever de modo quase febril. Os meus dedos voavam sobre o teclado enquanto enchia páginas e páginas de letras. Todas as ideias que tinha andado a reunir evadiam-se finalmente da minha cabeça, conheciam a liberdade, e o resultado eram aquelas palavras que ocupavam o processador de texto. Não sabia o que o futuro me reservava. Há dois meses que me isolara, que não falava com ninguém da parte da editora. Era apenas eu e o enredo que concetualizara.
Cinco meses depois de ter ido a Londres, terminei de escrever um parágrafo e esbocei um sorriso de través na direção do ecrã do computador. Estava contente comigo mesmo. Acabara de escrever o primeiro dos cinco livros que formam Pecados Santos, Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Sentia-me orgulhoso e, apesar das dificuldades, estava cheio de coragem para continuar em frente.
Pousado sobre a secretária ao meu lado no modo de silêncio, o meu telemóvel vibrou. Peguei-lhe e vi do que se tratava. Era um pedido de contacto e vinha da parte de uma pessoa que não conhecia, mas sabia quem era. Chamava-se João e apresentou-se como agente literário.
Eu tinha o plano perfeito.

E de repente, tudo mudou.


0 comentários