Diário de Bordo Nuno Nepomuceno #2 - A Reunião

A Reunião Sentei-me numa cadeira perante uma secretária cujo tampo estava vazio. Encontrava-me nas novas instalações da pessoa que m...


A Reunião

Sentei-me numa cadeira perante uma secretária cujo tampo estava vazio. Encontrava-me nas novas instalações da pessoa que me contactara há um mês com o intuito de saber se eu tinha interesse em colaborar com ele. A primeira reunião realizou-se poucos dias depois, na sequência da qual acabei por entregar-lhe as primeiras cem páginas do meu novo livro. Seguiu-se um longo e excruciante silêncio.
Essas semanas não foram fáceis. O «Plano» continuava, mas o ritmo perdera-se de alguma forma, devido à ansiedade. Alternava momentos em que era capaz de escrever quinze páginas numa tarde, com outros, de bloqueio, em que me afundava em gelados, bolachas e o que demais me trouxesse boas sensações.
Era início de julho. Prometera entregar o livro à minha anterior editora por volta do meio de agosto, estava atrasado, mas não lhes dissera nada. Aliás, não falava com eles desde o fim de maio. Curiosamente, telefonaram-me pela mesma altura em que o agente literário me contactou e mostraram-se estranhamente empolgados com o material preliminar. O novo livro, acerca do qual pouca ou nenhuma fé tinham inicialmente demonstrado, ia ser um sucesso. Remeti-me ao silêncio, trabalhei conforme pude e, farto de esperar, agarrei no telefone e contactei o João. Tentei não me mostrar desesperado. Foi marcada uma reunião.
Ele pediu-me que me sentasse enquanto atendia a chamada de um outro escritor. Levantei os olhos do tampo vazio da secretária e procurei focar-me nos sons que chegavam até mim através das janelas entreabertas. A voz do João misturava-se com a dos transeuntes que passeavam pela cidade. O escritório fica localizado no coração do Chiado.
Ele sentou-se defronte a mim e pediu-me desculpa pelo atraso. Tinha entregado o meu manuscrito a um leitor da sua confiança, que se demorara mais do que o previsto, mas que gostara de o ler. Deixara alguns elogios no relatório à minha forma de escrever, dizendo que eu revelava um grande domínio sobre a linguagem, mas era da opinião de que o livro deveria ser integralmente reescrito. Aquela linha narrativa era errada e eu não devia continuar com ela.
Senti um calor repentino subir-me à cara e quase que aposto que deverei ter ruborizado mais do que uma adolescente que acabara de ouvir o primeiro piropo. Algumas gotas de suor formaram-se na testa e o meu estômago contorceu-se, nervoso. Senti-me derrotado.
Acho que o João, percebendo-o, tentou acalmar-me, fazendo-me algumas perguntas sobre o que planeara com o enredo. Mas eu tive apenas uma resposta para lhe dar.
«Não, não vou reescrever o livro».
E continuei, esforçando-me por mostrar segurança:
«Ele apenas leu 100 páginas, o que corresponde a cerca de um quarto do livro», argumentei, referindo-me ao leitor. «Se ele no fim de o ler todo tiver a mesma opinião, então, eu reescrevo-o as vezes que forem precisas, mas eu acho que este é o caminho certo».
O homem que estava sentado perante mim assentiu e perguntou-me quando é que eu achava que seria capaz de o terminar.
«No fim de agosto», contrapus, imediatamente arrependido. Tinha vontade de morder a língua. Se o meio de agosto, a data que prometera à anterior editora, já era impossível de cumprir, como é que com apenas mais quinze dias eu seria capaz de recuperar do atraso?
O meu novo agente literário entregou-me uma cópia do contrato, prometendo que enviaria uma nova versão por correio eletrónico. Discutimos alguns pormenores, entre os quais a editora na qual o livro seria colocado. Ele disse-me que pensara na Cultura Editora. Estavam a formar um dos melhores catálogos de autores portugueses e via-me entre eles.
Os meus pés percorreram a calçada do Chiado o mais depressa que conseguiram assim que cheguei à rua. Tinha alguns telefonemas urgentes para fazer. O primeiro foi ao meu advogado, a quem já tinha explicado ter recebido uma proposta, na altura por confirmar, e que me aconselhara em relação ao que fazer face a uma hipotética desvinculação. O segundo foi à minha agora ex-editora.
A chamada não correu pelo melhor. Acho que os apanhei de surpresa. Fizeram algumas propostas, as quais recusei. Não havia recuo possível. A relação já azedara há muito e isto era inultrapassável. Desligámos de forma cordial, tendo eu prometido que iria honrar com todos os meus compromissos face aos livros já publicados.
Recebi um novo telefonema da parte deles passados uns minutos. Teceram alguns comentários, os quais prefiro não relatar, mas que versaram sobre a minha gratidão.
Desliguei o telefone após uma longa conversa onde fui sempre educado. Apenas uma coisa era importante. Eu tinha um livro para acabar de escrever.

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E estava determinado a que fosse brilhante.


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