Another Shitty Day, por Helena Ales Pereira

DR Another shitty day Está frio quando acordo. Mais frio do que nos dias anteriores. “Mais um dia de merda”, penso. Olho pela janel...

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Another shitty day

Está frio quando acordo. Mais frio do que nos dias anteriores. “Mais um dia de merda”, penso. Olho pela janela, não vejo um caralho. O nevoeiro abraça as árvores, os prédios, os carros lá em baixo na rua. O eixo norte-sul, que vejo da janela da sala, enquanto bebo o café, sempre a abarrotar de trânsito a esta hora da manhã, não me surge à distância. A neblina transformou tudo numa página em branco.
Ouço a correria dos miúdos do andar de baixo. Como se não me chegasse a vaca do andar de cima que insiste em passear pela casa de saltos altos, mesmo de madrugada, quando chega. “Mas eu venho do trabalho”, respondeu-me incrédula, numa noite que me pareceu pior do que as outras. “Mas isso não lhe dá o direito de perturbar o sono dos outros, não é verdade?”, respondi-lhe calmamente quando a única coisa que me apetecia era esmurrá-la, partir-lhe o nariz, pegar nos sapatos de saltos alto e esburacar-lhe a cara com eles, espetá-los no nariz, na boca, arrancar-lhe os olhos, furar-lhe as mamas e enfiá-los nos ouvidos, por onde me entra aquele maldito som durante a noite.

No emprego, arrasto os bons dias à medida que arrasto os pés em direção ao meu cubículo, onde mal cabe uma secretária e uma cadeira, mas onde cabem todas as queixas do mundo, cuspidas naquele auricular que enfio no ouvido assim que me sento. No corredor fica a minha paciência a torcer para que eu me mantenha calmo e não mande a velha que agora se queixa foder-se. E eu ponho a máscara da normalidade e do cinismo, os dois de mãos dadas dentro do bolso das calças, onde enfio a mão para não me esquecer de ser o que todos esperam, de responder o que é normal, ainda que algumas das minhas colegas achem que passo a vida a esfregar o sexo, quando olho para elas, mas preciso de o fazer para aguentar as descrições absurdas da vida dos subúrbios, o marido que mija a sanita toda, que insiste em puxar as orelhas à cama, apesar de ela dizer que os lençóis devem ser sacudidos e bem esticados. E eu esfrego, esfrego a normalidade e o cinismo dentro do bolso das calças, enquanto elas olham de lado para mim, com nojo, um ligeiro esgar nos lábios e vejo o que pensam nos olhos, “este gajo parece doido”.

Ao almoço, as conversas cruzadas fazem doer-me a pele: a da esquerda que conversa com a direita em frente na diagonal, a da direita que fala para outra mesa, a boca em frente a mim que me dirige palavras que não ouço, mas com as quais vou concordando, a cabeça a abanar que sim, os ouvidos a estourar, as artérias a entupirem-se com este ruído infernal que me dá vontade de vomitar-lhes em cima.

O regresso à casa fria, vazia, mas mais quente e cheia do que eu. O frigorífico para onde fico a olhar longos minutos, que não me responde à pergunta “o que vou comer?”. O frio que se espalha pela cozinha, a luz amarela que me hipnotiza, o motor que começa a roncar à medida que a temperatura lá dentro vai subindo. Estendo-me no sofá e deixo-me guiar pelas cores da televisão que me prometem um mundo cheio de gargalhadas, acção, aventura, drama, tudo revelado em canais que vou mudando meio adormecido sem perder mais tempo do que aquele que preciso para perceber que não vou gastar um minuto a ver aquilo. Acabo por adormecer embrulhado numa manta velha, esquecida o ano todo no sofá, porque até no verão sinto frio. Acordo e dou-me conta daquela solidão incontornável: a de acordar a meio da noite e mudar-me para uma cama vazia, fria. Foi só mais um dia de merda.



Helena Ales Pereira

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