[Crónica Paulo André Cecílio] Shellac

Eles agora moram cá Hoje em dia poderá não parecer – porque há um NOS Primavera Sound todos os anos – mas tempos houve em que os Shel...



Eles agora moram cá

Hoje em dia poderá não parecer – porque há um NOS Primavera Sound todos os anos – mas tempos houve em que os Shellac, pura e simplesmente, não metiam cá os pés. Eram tempos mais tristes, em que tínhamos de nos contentar com os .mp3 de 1000 Hurts, sacados a um Rapidshare desta vida (caramba, lembram-se do Rapidshare?), com os versos de “The End Of Radio” na ponta da língua, com as merdas que íamos lendo em blogues e websites diversos sobre os concertos dos Shellac – poderosos, agressivos, e uma experiência enriquecedora de comunhão.

Quis o destino que os Shellac pisassem solo tuga em 2010, para uma daquelas noites rock que quem sabe relembra para sempre: não foram só eles a apresentar-se ao vivo no aquário da Zé Dos Bois, mas também os Mission Of Burma, lendária banda saída do punk (numa perspectiva mais arty) e que não se esqueceu, naturalmente, de tocar o hino “That's When I Reach For My Revolver”.

A noite seria, no entanto, de Steve Albini, Bob Weston e Todd Trainer, o rock reduzido à sua expressão mais simples: uma guitarra, um baixo, uma bateria, ruído q.b. e riffs que parecem ter sido arrancados a um osso calcificado pela electricidade, se é que tal coisa existe ou existiu. Pelo meio, os poemas-diatribes de Albini, que aprendemos a tratar como um Deus, pura revolta adolescente de óculos na cara e livros de Céline na estante. 

E, claro, o momento em que a banda pára e deixa o público perguntar o que quer que seja. Da minha parte só me recordo de alguém perguntar aos Shellac se gostavam do Obama (quem não, naquela altura?) e a resposta ser afirmativa – com Albini a dizer “vocês não têm noção: podíamos estar tão pior”. Gostava de saber o que ele responderia se o concerto fosse hoje.

Paulo André Cecílio

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