[Crónica Paulo André Cecílio] O xx marca o local

Quando eu era um jovem imberbe, achava que James Blake iria obter, com o seu álbum de estreia, o mesmo tipo de sucesso indie que os Th...



Quando eu era um jovem imberbe, achava que James Blake iria obter, com o seu álbum de estreia, o mesmo tipo de sucesso indie que os The xx haviam obtido apenas um ano antes. O tempo acabou por validar as minhas conjecturas; tanto um como os outros enchem hoje salas de espectáculos e editam discos que, não sendo feitos para as massas, chegam até uma franja da população melómana que quer algo mais da sua pop que não as melodias e batidas do costume.

E achava que James Blake = The xx porque ambos vinham do mesmo sítio, da canção R&B tornada minimal e absurdamente branca, menos sensual e mais introspectiva, menos in your face e bastante mais subtil. Não que Blake ou os xx não saibam ser sensuais. Isso mesmo comprovei eu, várias vezes, sobretudo ao vivo. Aliás, dos The xx em Portugal perdi apenas dois concertos: o da primeira edição do NOS Primavera Sound (porque, estupidamente, não fui) e o da Casa da Música, na sua estreia, em 2010.

Mas este último é perfeitamente desculpável porque, afinal de contas, os vi na Aula Magna no dia anterior, quando os britânicos eram “só” uma banda a beneficiar do hype da Pitchfork e das palavras de meia dúzia de cabecilhas indie. Bem, as canções ajudaram ao hype – aquela melancolia que entra no coração e que por vezes se dança, aquela “Intro” (que é ainda melhor quando misturada com Notorious B.I.G), aquela “VCR” que foi revenge of the 90's antes de isso ser sequer um conceito, aquela “Crystalised”, aquela “Shelter” a alimentar dores de corno e a ir buscar uma das grandes malhas eurodance desta vida, aquela “Infinity” a relembrar a “Wicked Game” do Chris Isaak...

E, por detrás disso, o negro – um negro minimal, o negro do pano com um “X” que os cobriu na Aula Magna durante as primeiras canções, um negro absoluto que não deixava passar qualquer tipo de luz. Nos anos subsequentes, os The xx descobriram-na, e moldaram a sua sonoridade em algo mais próximo do clubbing, resultando isto num péssimo segundo álbum e num aceitável terceiro. Mas, bom, não há amor como o primeiro.

Paulo André Cecílio

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