Opinião: Boneca de Trapos, de Daniel Cole

Boneca de Trapos Daniel Cole Editora: Suma de Letras Sinopse: William Fawkes, um controverso detective conhecido por”Wolf”, aca...


Boneca de Trapos
Daniel Cole

Editora: Suma de Letras

Sinopse: William Fawkes, um controverso detective conhecido por”Wolf”, acabou de ser reintegrado no seu posto após ter sido suspenso por agressão a um suspeito. Ainda sob avaliação psicológica, Fawkes regressa ao activo, ansioso por um caso importante. Quando se encontra com a sua antiga colega e amiga, a inspectora Emily Baxter, num local de crime, tem a certeza de que é aquele o grande caso: o corpo que encontram é formado pelos membros de seis vítimas, suturados de modo a formar uma marioneta, que ficou conhecida como “Boneca de Trapos”. Fawkes é incumbido de identificar as seis vítimas, mas tudo se complica quando a sua ex-mulher, que é repórter, recebe uma carta anónima com fotografias do local do crime, acompanhada de uma lista na qual constam os nomes de seis pessoas e as datas em que o homicida tenciona assassiná-las, O último nome da lista é o de Fawkes. A sentença de morte com data marcada desperta as memórias mais sombrias de Wolf. O detective teme que os assassinatos tenham mais a ver com ele - e com o seu passado - do que qualquer um possa imaginar.


OPINIÃO: Aqui está um livro ao qual nos agarramos facilmente e nos vemos viciados na sua leitura. Chegado o fim, a sensação é de uma corrida contra o tempo e de alguma expectativa não cumprida, pois o fim é uma espécie de premissa para o volume seguinte. Boneca de Trapos é então o primeiro volume de uma série dedicada ao inspector William Fawkes. Este personagem é uma espécie de anti-herói, no sentido em que não me foi fácil sentir a empatia típica entre leitor e protagonista. A trama mostra uma maior consistência muito graças a todos os envolvidos no contexto do crime e, claro, graças a toda uma imagética cinematográfica que caracteriza a escrita de Daniel Cole. 

O início é, desde logo, enigmático. Se por um lado demos a descrição de um "Wolf" perturbado, por outro é descoberto um "corpo", composto por partes de seis pessoas diferentes, cujo um dos dedos de uma das mãos aponta por uma janela exactamente na direcção do apartamento do protagonista. No enredo, inicialmente, apenas este tem noção disso, o que leva logo o leitor a sentir o sangue acelerado, pois existe esta promessa subentendida que o autor do crime dificilmente ficará por ali no que implica William Fawks. Tal acaba por se verificar quando a ex-mulher de Fawkes recebe material sobre o crime e uma lista de nomes, com respectivas datas de morte anunciada. O último nome? Claro, o do nosso inspector. 

Toda a trama se desenvolve a um ritmo bastante rápido, sob várias perspectivas, e talvez daí a falta de contacto mais intimista com "Wolf". E enquanto as mortes acontecem sem que qualquer um dos investigadores e operacionais consigam fazer nada em relação a isso, parece existir uma espécie de linha paralela com um dos investigadores, Edmunds. Este talvez seja o personagem mais desenquadrado, mas também o mais astuto. Tendo vindo de outro departamento e não estando rotinado na investigação criminal, é ele quem vai fazer as mais assertivas especulações sobre o caso. A sua obsessão vai tendo o seu preço pessoal a pagar, mas a sua determinação é admirável. A sua chefe, Emily Baxter, não lhe facilita a vida e é também daquelas personagens por quem ganhamos uma forte afeição ou, talvez mais correcto, uma forte curiosidade no que toca à sua relação passada com "Wolf". Acaba por estabelecer uma espécie de aliança inusitada com a ex-mulher do inspector e nem por isso os acontecimentos tomam contornos desejáveis.

Boneca de Trapos é uma narrativa que explora uma série de distúrbios psicológicos e vários caminhos de violência que uma pessoa é capaz de traçar só por desejo, vingança ou despeito. É perturbadora a capacidade do ser humano de infligir sofrimento a outros. A impotência de quem acaba por tomar conhecimento ou assistir a esse mesmo sofrimento acaba por ser paradoxal pois é também a força motriz que promove o combater e fazer alguma coisa que mude esse paradigma. Com uma escrita forte, por vezes violenta e descritiva ao pormenor, Daniel Cole tem a capacidade de prender o leitor e de o colocar em velocidade cruzeiro na leitura. Sem dúvida que o género policial/thriller chegou a Portugal para ficar e durar e Boneca de Trapos encaixa-se na categoria dos que proporciona uma boa leitura. 

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