A Beleza das Cinco Tragédias de Tio Rex

Não é fácil voltar a um tempo em que o universo de Tio Rex não esteja presente. Desde que conheci o trabalho de Miguel Reis que houve pe...


Não é fácil voltar a um tempo em que o universo de Tio Rex não esteja presente. Desde que conheci o trabalho de Miguel Reis que houve pelo menos dois aspectos que ficaram retidos na minha memória: um primeiro sensorial, em que ouvir Tio Rex se transforma numa espécie de viagem entre a luz e a sombra que habita o nosso interior; e um outro emocional, em que nessa viagem visitamos alegrias e tristezas, monstros, tragédias, mas também amor e partilha.

Em Março, Tio Rex voltou às canções em inglês com mais um EP - "5 Tragedies". O formato não nos é totalmente desconhecido já que em Outubro de 2014 lançou outro EP - "5 Monstros". A beleza destes pequenos discos remete precisamente para a simplicidade com que o músico português aborda os escombros que muitas vezes nos habitam. 

Em "5 Tragedies" existe todo um imaginário que acaba por ter uma poderosa imagética. É como se em cada tema fossemos transportados para um pequeno conto do qual somos protagonistas. Cada um destes contos consiste numa narrativa que nos confronta com pequenas tragédias, desde sermos capazes de vender a nossa alma por troca do vazio, à imagem que possam ter de nós (incluindo nós mesmos), passando pelo risco dos vícios e pela morte dos deuses (da música), terminando com uma colaboração belíssima com João Mota (de Um Corpo Estranho) em que o contraste grave de Miguel Reis com o tom mais suave de João Mota, entrelaçando também a língua inglesa com a língua portuguesa, nos remete para um cais marítimo, de pernas pendentes, pensamentos soltos, tudo ao ritmo das palavras de ambos. 

Entre composições sonoras mais fortes e pujantes e outras mais singelas e ressonantes, o percurso por este EP acontece rápido de mais. Foi preciso ouvi-lo várias vezes, deixá-lo em loop no carro, regressar a ele em casa, deixar as suas letras, as suas melodias, ecoarem primeiro nos meus ouvidos, depois no meu peito e por fim minhas emoções para conseguir açambarcar as suas paisagens por inteiro. É lindo e vale mais do que a pena ser ouvido. 

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