Entrevista a Nuno Camarneiro: «Até sermos verificados pela vida, somos bons e maus»

Fotografia Edite Queiroz O pretexto para a conversa com Nuno Camarneiro foi o seu mais recente livro, O Fogo Será a Tua Casa. Uma oport...

Fotografia Edite Queiroz
O pretexto para a conversa com Nuno Camarneiro foi o seu mais recente livro, O Fogo Será a Tua Casa. Uma oportunidade para debater alguns temas contemporâneos e o olhar do autor sobre o seu próprio livro.
Por João Morales 

Neste livro há um conjunto de pessoas, capturadas por terroristas e mantidas em cativeiro. Para combaterem o tempo, decidem contar histórias entre si. Este mecanismo, contar histórias para, de alguma forma, escapar à morte, fez-me recordar Xerazade, a figura de As Mil e Uma Noites, que cria narrativas para adiar a morte.
Sim, tal como nem As Mil e uma Noites no meu livro também estamos a lutar contra o tempo, a combater o tédio através das histórias, Há essa ideia, muito antiga, quase inerente à Humanidade, de usar a ficção para combater a morte, para combater o esquecimento, para lutar contra a nossa mera condição de humanos.
A literatura é um pouco isso, uma forma de morremos um bocadinho menos. 

Em Se Eu Fosse Chão as coisas passam-se num hotel habitado pelos hóspedes e pelos funcionários; em Debaixo de Algum Céu, no interior de um prédio, protagonizado pelos diferentes inquilinos. Agora, tudo se passa neste reduzido cativeiro. Nos teus livros há essa dimensão quase teatral, em que tudo se passa num só cenário…
Sim, e isso terá que ver com a minha própria experiência no teatro, tanto enquanto actor, como enquanto dramaturgo. Eu já escrevi duas peças, e uso os meus livros como um pequeno teatro onde vai acontecer uma história. Agrada-me essa ideia de separar o mundo exterior, o mundo do ruído, o mundo que muitas vezes não entendemos, e criar um espaço narrativo de relações, de pulsões, de medos… uma série de coisas que se vão desenrolar ao longo do livro.

No Debaixo de Algum Céu escreveste: “um dia havemos de inventar quem possa arder por nós e amar, e viver os nossos dias, até nos tornarmos deuses secretos de nós mesmos”. Por um lado, esta alusão ao fogo, que volta a surgir no título do novo livro, por outro, esta questão de termos “deuses que tomem o nosso lugar” ou nós nos tornarmos deuses…
Nós vivemos um bocadinho nesta tensão entre sermos mortais, animais, na verdade, mas animais com ambição de serem deuses. E vamos sempre lutando para o sermos um bocadinho mais. Através da Ciência, da Arte, da Cultura, vamos aumentando as nossas possibilidades e, por vezes, quase nos iludindo de que não somos mortais, de que, na verdade, estamos sujeitos a tanta coisa. Essa dupla condição torna difícil ser humano, mas também o torna interessante. Não queremos morrer, queremos controlar o meio em que estamos… temos os nosso escravos, sobretudo no Ocidente. É bom que não nos esqueçamos, para termos o que temos há muita gente que não tem o mais básico, para poder produzir e nos poder dar isto. Queremos o melhor de dois mundos, ter tudo e não morrer. A ficção também é uma forma de o fazer, criar personagens é um pouco ser deus. 

Quando falas de querermos ascender a Deus, não deixa de ser irónico que um dos episódios mais importantes da Mitologia clássica seja o de Prometeu, quando este rouba o fogo aos deuses.
Há sempre uma certa ideia de castigo, a húbris, de nos arrogarmos a mais do que podemos, de querermos roubar o lugar aos deuses. É um dos motivos mais antigos que nós vamos sempre reciclando, isso vê-se nas narrativas políticas, até no desporto! Uma ambição máxima e o medo que seja castigada.

A dada altura, Agnes, uma religiosa que também foi capturada pelos terroristas, diz-nos: “deixei a Igreja anglicana porque era demasiado abstracta e racional, mais dos homens do que de Deus, e encontrei a fé ortodoxa junto da comunidade grega. Precisava de um Deus concreto e antigo, e foi ali que o encontrei”. Não deixa de ser curioso e irónico que se encontre agora subjugada por extremistas islâmicos. Não poderia haver Deus mais concreto e antigo que o islâmico…
Sim, na verdade, nós assistimos hoje a duas formas de ver a religião. Uma mais secularizada, se assim lhe quisermos chamar, em que o Deus se tornou mais filosófico, abstracto, que não é grande impedimento para que as pessoas deixem de fazer o que quer que seja. Falo principalmente da sociedade ocidental, onde Deus é já uma coisa esfumada… comemos o que queremos, estamos com quem queremos há uma leve sugestão de pecado, de bem e mal. 
Este não é o paradigma em boa parte do mundo islâmico e, mesmo no cristianismo ortodoxo, onde Deus impõe regras sobre como viver. Esta forma de ver a religião – que é antiga mas está ainda hoje connosco – quando mal interpretada pode levar aos actos mais terríveis, como foram feitos por nós, cristãos. Inquisição, Cruzadas, guerras entre Protestantes e Católicos – como vemos hoje entre Xiitas e Sumitas – é tudo muito parecido, só os tempos e os métodos diferem. 

Fotografia Edite Queiroz

É curioso falares nessa questão do mal. A dada altura lemos: “as ideias não crescem fora dos homens, não há uma ideia de genocídio à espera de um genocida, nem há ideias de tortura à espera de verdugos. Por muito que nos custe, os homens são as suas ideias”. Ao ler isto lembrei-me do pensamento do Rosseau e de todas as suas teorias sobre como o homem nasce puro e a sociedade é que o corrompe. Afinal, há gente naturalmente boa e gente má?
Não acredito nessa ideia de que nascemos todos bons, mas também não acredito que nascemos maus. Ou seja, nós nascemos com o potencial para tudo dentro de nós, com as partes boas e as partes más e o potencial para as desenvolver de um ou outro modo. 
Depois, é preciso muita coisa para sermos bons, ou para sermos menos maus. É preciso termos o que necessitamos para viver – onde comer, dormir, segurança… é mais fácil ser bom quando se tem essas coisas todas. Infelizmente, em muitas zonas do globo não há muita gente com isto tudo. E é fácil instrumentalizar as pessoas, esquecermo-nos do que deveríamos ser, procurar o poder, subjugar os outros. Agora, nós não somos maus ou bons por natureza, nós somos potencialmente tudo. É por isso que a Cultura é importante, para puxar o melhor de nós e tentar minimizar o mal que temos.

Estava a ouvir-te quando dizias que nascemos com potencial para o bem e para o mal e, sendo tu um homem de Ciência, da Física, quase me arriscaria a dizer que somos uma espécie de gato de Schrödinger…
Sim, é verdade. O gato estava morto e vivo. Nós, até sermos verificados pela vida, somos bons e maus. É a experiência, as circunstâncias com que lidamos, que vão revelar o que somos, na prática.

Tu usaste o Nuno Camarneiro como personagem desta história. No teu primeiro livro, No meu Peito Não Cabem Pássaros, surgiam um Jorge, um Fernando, um Karl, que se revelaram pessoas que existiram, o Jorge Luis Borges, o Fernando Pessoa, o karl seria Kafka. Quais são as diferenças quando se trabalha sobre figuras que existem, mas que não somos nós, e quando nós estamos a utilizar a nós? Quais os limites, as tentações, os receios?
No jogo literário há sempre uma mistura do que são as personagens, essas entidades que nós vamos buscar muitas vezes ao nosso mundo, à nossa história, com partes realmente nossas. E todas as personagens de um autor têm alguma parte do autor. Umas vezes, partes melhores, outras, partes piores. O desafio é quando, ao fazermos de nós próprios personagens, isso parece mais evidente. Mas é sempre um jogo de sombras, claro que o Nuno do livro não sou eu, é um Nuno ficcionado que tem partes minhas e outras que eu imagino nesta circunstância. Não sou eu, mas o Nuno que me serviu para contar esta história.

Fiquei com uma certa percepção que, dos vários personagens desta história, todos eles tinham coisas por resolver na sua vida, coisas de que se arrependiam, para algumas até procurariam uma certa redenção… o Nuno Camarneiro deste livro pareceu-me o que mais estaria em paz consigo mesmo, com menos contradições e conflitos interiores.
Não será verdade, mas na personagem talvez sim… talvez seja um pouco por protecção, um instinto natural. Além disso, eu ali faço mais de pivot, ou seja, sou o ponto de contacto entre aquelas personagens, sou o narrador. Sou quase mais o confessor que outra coisa. Não quis que a minha personagem fosse demasiado interessante, para que as outras pudessem ter todo o palco.

Creio que a melhor forma terminarmos esta conversa é com uma pergunta que tu próprio fazes no livro: “O que fazer com a violência de que somos vítimas? Resistir-lhe ou aprender com ela? Tornar-me-ia um homem melhor, mais sensato ou mais sensível?”
Essa é uma questão muitíssimo pertinente, o que fazer com a violência a que estamos sujeitos. As pessoas não sabem o que fazer com a violência. No meu caso, descobri a ficção como forma de transformar essas experiências negativas em algo de profícuo, algo que dá vida. E esse é o desafio, em vez de devolvermos a violência como violência – o pior que podemos fazer, não só aos outros mas a nós próprios, porque é um alimentar do ódio que não leva a qualquer tipo de apaziguamento – transformar essas pulsões em literatura, em arte, em algo que nos seja gratificante e que possamos partilhar com os outros. Talvez seja a melhor de forma de lidar com a violência que nos aflige.

Texto O Fogo das Palavras, sobre O Fogo Será a tua Casahttp://www.branmorrighan.com/2018/06/leituras-joao-morales-o-fogo-sera-tua.html

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