Jazz em Agosto 2018: A volta à cabeça em 60 minutos

Mary Halvorson Quartet © Petra Cvelbar Se na véspera ocorreu o maior eclipse lunar deste século, também o astro branco já se mostrava r...

Mary Halvorson Quartet © Petra Cvelbar

Se na véspera ocorreu o maior eclipse lunar deste século, também o astro branco já se mostrava recuperado e marcou no céu o seu lugar para não perder pitada. O quarteto de Mary Halvorson e os Masada, de John Zorn, proporcionaram-nos uma magnífica noite de música. 

Por João Morales

Na lógica adoptada para assinalar os 35 anos do Jazz em Agosto, o mais importante festival do género em Portugal (quer pela grandiosidade dos nomes que já nos trouxe, quer pela capacidade de iluminar o horizonte de quem gosta de saber o que se passa) o concerto de Sábado, 28 de Julho, estava dividido em dois. Um formato talvez discutível, porque, embora a música tenha sido irrepreensível, isso significou meia hora para cada uma das formações… 

Toda a programação de 2018 tem como epicentro John Zorn, não só com grupos onde o mestre americano do saxofone marque presença, mas várias formações geradas em torno da sua música, das suas composições, da sua postura, da já incontornável marca que deixou na música contemporânea (cruzando Jazz, Rock, minimalismo, tradição e experimentalismos). O quarteto de Mary Halvorson é um desses casos. 

Mary Halvorson Quartet © Petra Cvelbar

Mary Halvorson e Miles Okazaki (em guitarra elétrica), Drew Gress (contrabaixo) e Tomas Fujiwara (bateria) começaram com uma espécie de pós-bop com algumas influências latinas, mas rapidamente se percebeu como qualquer sonoridade que se adivinhasse ficaria marcada pela construção imposta pelo quarteto. A troca de notas entre os dois guitarristas é um dos alicerces desta proposta, passando por alguma variações, mas com um esqueleto assumidamente consistente. Se Mary Halvorson já não é uma desconhecida entre nós – depois de presenças várias neste mesmo festival – convém atentar em Miles Okazaki músico que se estreou na gravação em 2007, com Mirror, mas que já tocou (além do próprio Zorn) com Kenny Barron, Steve Coleman, Adam Rudolph, os Aka Moon, Vijav Lyer ou Craig Taborn.

As lições de Philip Catherine ou Joe Pass foram devidamente apreendidas e surgem discretamente neste contexto, transformadas por uma estética que pode parecer simples, mas seria um equívoco. Várias foram as passagens em que se podia notar a influência da composição de Zorn no resultado final. Afinal, Halvorson gravou em 2017 o álbum Paimon, com uma dezena de composições integradas na extensa epopeia que é Book of Angels, um conjunto de discos entregues a diferentes músicos, para tocarem a sua música. Por aqui, escutámos uma linha sonora pautada por uma contenção cerebral onde os solos são curtos mas concisos. Todo o ambiente envolvendo uma aridez quase indefinível, uma constante sensação de “road movie” que, irracionalmente, só poderia remeter para os EUA.

Masada © Petra Cvelbar

A segunda parte da noite estava reservada para os Masada, um dos projectos mais divulgados e consolidados deste maestro dos nossos dias que nasceu em Nova Iorque há 65 anos para garantir que o Jazz nunca ficará órfão. Igualmente quatro (com o saxofone de John Zorn a alinhar com Dave Douglas, em trompete, Greg Cohen, em contrabaixo, e Joey Baron, na bateria), tomaram de assalto o palco e as emoções de um público que ocupava, na totalidade, o anfiteatro da Fundação Calouste Gulbenkian. Zorn começa por elogiar amplamente o certame, que já conhece de outras aventuras, apresenta rapidamente os companheiros de caminhada e começa a nossa marcha.

A toada remete para uma caravana, divertida e versátil, transportando toda a essência da música judaica, metamorfoseada pela genica e pela técnica de alguns dos mais indomáveis músicos do designado “Downtown New York”. A cumplicidade entre os quatro é mais que evidente, tal como a naturalidade na direcção que Zorn imprime à curta demonstração (repita-se, cada um dos concertos durou mesmo os previstos 30 minutos). Ao revés do cerimonial que habitualmente espera de um líder, ao inventor dos Naked City basta-lhe um rápido gesto da mão direita, um contorcer do pulso, um discreto girar do braço, para que Joey Baron comece um tema (“Go!”, gritava-lhe a dada altura) ou interponha um rufo mais assertivo a pontuar uma mudança. Baron confirma-se um prodígio da percussão, que ainda usou as mãos na tarola e nos tambores para acompanhar o discreto Greg Coehn. 

Dave Douglas e John Zorn © Petra Cvelbar

Douglas vai fortalecendo a parede mestra que ergue com o saxofone de Zorn, a cada refrão, a cada disputa sabiamente introduzida por entre as melodias denunciadoras da tradição musical aqui homenageada, ou não fosse Zorn (e a sua editora, Tzadik) o cerne da “Radical Jewish Culture”. Os dois sopros entrecruzam-se, alinham em confluência, alternam passagens melodiosas com notas metodicamente espremidas. O requinte nos arranjos, a música conotada com um antigo cinema de animação, o deserto que serviu de passagem a diversas diásporas… tudo alimenta a paisagem. É toda uma cidade que se ergue em frente aos nossos olhos, com ameias fortes e antigas, torres orientadas em distintas direcções e uma experimentada rede de comunicações que permite mudar de registo num ápice. Com toda a elegância.

Por vezes, há quem se questione sobre as opções deste festival, indagando se alguns dos agrupamentos que se apresentam atestam o futuro ou – pelo menos – o presente do Jazz. Sempre que escutem essa pergunta podem responder com a gravação dos dois concertos deste Sábado. O jazz irá para onde quiser, como qualquer ser vivo que está de perfeita saúde.

0 comentários