Recensão: O Escuro que te Ilumina, de José Riço Direitinho

O Escuro que te Ilumina José Riço Direitinho Quetzal 143 págs 15,50 euros Por João Morales Há um homem, professor universit...


O Escuro que te Ilumina
José Riço Direitinho
Quetzal
143 págs
15,50 euros

Por João Morales

Há um homem, professor universitário, que opta por romper com a sua modorra sexual. O primeiro passo é um telescópio, o espreitar constante da vida íntima dos vizinhos, o erguer dos véus sociais que acondicionam os seus prazeres secretos. “O espaço doméstico, esse ringue de silêncios pactuados e de lutas mudas, pode ser o território mais difícil de habitar: mas é talvez dos poucos a que sabemos poder sempre voltar, e é isso que, de uma forma ou de outra, nos conforta e sobretudo nos protege.” Se é pela idade, pelo tédio, pela carência, ou outras condicionantes, iremos percebendo à medida que vamos lendo o seu diário. O diário é escrito, não apenas como um desaguar de reflexões, lamentos ou auto-inquirições, mas elaborado como uma impossível aproximação a uma mulher. Uma mulher em concreto. Já lá iremos.

O Escuro que te Ilumina conta com diversas citações (Al Berto, Herberto Helder, Jorge de Sena, Petrarca, Almeida Faria, Karl Ove Knausgard, entre outros) ingrediente adequado numa narrativa construída em torno de um Professor de Literatura. Depois, o que salta à vista, naturalmente, é a profusão de cenas de sexo. Da mesma forma que as citações não lhe concedem erudição automática, as descrições explícitas não fazem dele um livro pornográfico (embora algumas passagens possam trazer à memória obras canónicas, não estamos perante Opus Pistorum, de Henry Miller, ou As Onze Mil Vergas, de Apollinaire).

A dualidade entre o desejo físico e um sex appeal que se possa valer de uma certa intelectualização erógena é alvo de duras e cruas críticas: “quando falava nestas histórias às minhas amigas, elas mentiam sempre com o piedoso propósito de não me magoarem e acrescentavam que, mais do que o aspecto físico, interessava o carácter e a inteligência – a conversa do costume – sem que se apercebessem que, com essa inconsciente nuance de linguagem, me estavam a dar razão”. Percebemos pela leitura das entradas, que o nosso narrador terá feito algo pela sua forma física, para contrariar esta estigmatização, passando das apreciações intelectuais à atracção física. Sexo, em suma.

O académico descrito por José Riço Direitinho vai entrando num mundo de libertinagem. Dogging (encontros entre desconhecidos ao ar livre), bares de contorno SMBD ou em noite de Glory Holes, uma arrojada colega de Filosofia Medieval, um pacato casal de vizinhos, uma aluna que se oferece: “Foda-me o cu, professor! E vá declamando um soneto de Bocage. Dá-me ainda mais tusa”. Esqueçamos a verosimilhança (mesmo tendo em conta as referidas melhorias físicas do nosso protagonista), ou a mais ou menos sub-reptícia paródia. Atentemos em leituras um pouco mais simbólicas: “Sabemos que Ítaca nos espera, mas estamos cansados sabes? E quanto a aventuras: vai-te foder, Kavafis. Já nos perdemos vezes sem conta em labirintos de Minotauros pejados de fios que não levam a nenhuma Ariadne”.

O nosso professor chega ao contacto com a tal mulher. Várias entradas do diário começam com “escrevo como se me lesses”. Passarão, mais tarde, a “escrevo como se ainda me lesses”. Não desvendemos o desenlace. Contudo, não deixa de ser sintomático, o contraponto entre o amor quase angelical perante essa senhora dos seus sonhos e a procura urgente, desenfreada, obstinada e amoral do sexo como panaceia para uma tal solidão, um tal vazio, que não será estranho a nenhum ser humano em algumas passagens da vida: “em alguns dias, para mantermos a cabeça fora de água, precisamos de nos sentir desejados, e talvez não apenas por uma pessoa, mas por várias, sermos objecto de desejo”.

Na entrada de 5 de Abril lemos: “As mulheres muito novas tinham deixado de me dar ponta, podiam ser quase perfeitas, podiam até dar-me vontade de as levar uma vez para a cama, mas seria sempre uma foda higiénica, uma coisa meio sem graça – que devia ser o primeiro sinal do envelhecimento, cheguei a pensar quando isto me aconteceu”. Já na de 13 de Junho, a dúvida alterou-se, ou transformou-se: “talvez seja este agora o verdeiro sinal do envelhecimento: voltar a olhar para alunas que pouco saberão ainda da difícil arte das fodas – ainda não tiveram tempo para serem ousadas: toda a arte é um acto de ousadia”. A utilização peculiar dos dois pontos é uma constante no livro e dá-lhe um ritmo próprio.

Este é um livro consciente da sua capacidade de ironia. Veja-se, por exemplo, as referências a Jaime Ramos, personagem ficcional criado por Francisco José Viegas, editor da Quetzal, chancela deste livro, director da LER, onde saiu o texto que estará na génese do próprio livro. Todavia, sem podermos adivinhar a intenção inicial do autor, não deixa de estar presente um certo lastro existencial que encontra no sexo, como é compreensível, o mais fértil terreno para expor a solidão, a mortalidade, o envelhecimento, a relação com (pre)conceitos morais, o vazio que todos ansiamos preencher e cada um descobre como. Pelo meio de tantas citações, acrescentaria uma, de Rainer Maria Rilke, resgatada pelo já referido Al Berto para a sua antologia de poesia: “Fiz alguma coisa contra o medo. Fiquei toda a noite sentado a escrever”.

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