Já sabes o que vais ler neste Verão? Sugestões de João Morales

Já sabes o que vais ler neste Verão? Uma vez que no Verão a publicação de novidades abranda de forma radical, enquanto o tempo livre para...

Já sabes o que vais ler neste Verão?

Uma vez que no Verão a publicação de novidades abranda de forma radical, enquanto o tempo livre para pôr leitura em dia pode conhecer algum aumento, nada melhor que olhar atentamente para as prateleiras e pegar naquilo que não se chegou a ler, ou ir às livrarias e descobrir que os livros de há uns anos, desde que estejam disponíveis, podem ter preços bastante simpáticos.
Foi a pensar desta forma que surgiram estas sugestões. João Morales foi ao baú das memórias literárias e deixa-vos aqui uma dezena de sugestões (certamente as deste dia, em outro dia as memórias abriram outras páginas). Uma novidade literária pode ter um, dois, ou trinta anos… pelo menos para cada leitor diferente que a descubra.
Podem ler as sugestão da Sofia Teixeira neste link.


Bestiário
Julio Cortázar
Cavalo de Ferro
128 págs
14, 39euros

Com uma obra em que o elemento Fantástico tantas vezes se revelou, Julio Cortázar (1914-1984) foi um excelente contista e este volume reúne alguns dos melhores exemplos da sua mestria. Logo o primeiro conto, “Casa ocupada”, metáfora de um sistema ditatorial ou de uma sufocante dimensão existencialista, é um dos seus contos mais famosos. Dois irmãos vão fechando as divisões de uma casa, acossados não se sabe por quem ou o quê. Mas há mais, como “Carta a uma rapariga em Paris”, com um personagem que vomita pequenos coelhos, “Cefaleia”, onde Cortázar inventa as mancúspias ou “Bestiário” sobre uma família que habita com um tigre.
Publicado originalmente 1951, conheceu uma nova edição em 2015, pela editora quem vindo a republicar toda a obra do escritor argentino, filhos de diplomatas, nascido precisamente na Embaixada argentina em Bruxelas.


A Ofensa
Ricardo Menéndez Salmón
Porto Editora
128 págs
5 euros

Engajado pelo eclodir da Segunda Guerra Kurt Crüwell vê-se nas fileiras alemãs, no dia em que completava 24 anos e “um compatriota seu chamado Hitler mandava o seu exército penetrar no corredor de Danzig”. A narrativa, impregnada de simbolismo, é a resposta a uma questão quase filosófica: “como reage o corpo de um homem face à presença do horror?”.
O jovem alfaiate vai ser lançado à mais dura prova, integrar o devir histórico num dos seus momentosd mqais horrendos e descobrir que “até a filosofia mais trivial ensina que a vida se parece mais com um quadro de Bosch do que com um bucólico almoço na relva”.
Foi com este volume que Ricardo Menéndez Salmón inaugurou a sua Trilogia do Mal, prosseguida com O Revisor e Derrocada., igualmente publicados entre nós. Um livro pleno de mestria e sensibilidade.


O Arranca-Corações
Boris Vian
Relógio D’Água
192 págs
15 euros

Jaimemorto é um psiquiatra ajuda Clémentine no parto dos seus três gémeos, Noël, Joël e Citroën, a quem a mãe designa carinhosamente como “os três javardos”. A Glóira é uma figura monstruosa que tem por sina comprar a vergonha dos habitantes da aldeia. Tudo se passa num universo alucinante e simbólico, gerado pela imaginação crítica e irreverente de um dos grandes escritores franceses, muito mais citado que lido.
A Religião e a redentora psicanálise surgem aqui no centro das atenções, explorando a dimensão da consciência humana e os limites da verosimilhança com humor e capacidade de análise social.
Boris Vian foi uma figura única, tornando-se num dos grandes terrores dos tradutores, graças aos neologismos que criava em cada narrativa, como é o caso dos dias deste diário, onde encontramos 27 de Junhulho ou 135 de Abrilosto.


Deixem Passar o Homem Invisível
Rui Cardoso Martins
Dom Quixote
240 págs.
15,90 euros

Numa enxurrada em Lisboa, António e uma criança, João, são arrastados para um esgoto. Na superfície, os bombeiros, a mulher de António (Helena) e o seu grande amigo, o ilusionista Serip, esperam e encetam as buscas possíveis, enquanto os dois prosseguem pelo esgoto, em busca da luz. Literalmente.
António é cego. Mas “ver não é um verbo proibitivo entre os cegos”. Ao longo da narrativa, António vai recordando e refletindo. E nós, leitores, com ele. Ambos percorrem a cidade, usando uma cartografia muito peculiar, gizada nos seus túneis subterrâneos.
Com este romance, Rui Cardoso Martins ganhou o Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 2009, e confirmou-se como um romancista de eleição. Uma odisseia moderna, com alusões a figuras como Ulisses e Penélope, mas também na inversão do mito de Orfeu, aqui sonhado resgatar por uma Eurídice não menos dedicada.


Um Postal de Detroit
João Ricardo Pedro
Dom Quixote
224 págs
14,90 euros

A 11 de Setembro (aziaga data) de 1985 dois comboios chocaram de frente, perto de Alcafache. A mochila de Marta é encontrada. Estará viva? Estava no comboio? Um irmão recupera (ou reinventa) o passado da rapariga a partir de alguns desenhos seus. A partir de um acidente real, João Ricardo Pedro (Prémio Leya 2011, com O Teu Rosto Será o Último) criou um romance magnífico, pleno de criatividade e ginástica narrativa, onde os limites do inverosímil são testado sem conjunto pelo autor e por nós, leitores.
As sequências do garoto a brincar com soldadinhos são inesquecíveis, tal como uma espantosa galeria de figuras que vai surgindo em torno da ideia inicial. A mãe do narrador lê na praia. E o que lê ela? A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy. Adequado aos malabarismos do autor porque («só uma grande história leva um almirante a ter uma tartaruga na casa-de-banho».


A Instalação do Medo
Rui Zink
Teodolito
177 págs
€ 14,00

Dois homens batem-lhe à porta. «Bom dia minha senhora, viemos para instalar o medo. E vai ver que é uma categoria». Epidemias, serial killers, raptos, doenças, guerras e outras hecatombes são os aguamentos da sua oferta.
O tom é quase teatral, diálogos numa postura que remete para outras duplas – Vladimir e Estragon; Dupont & Dupont ou até Mister Deluxe e Austin.
O livro mais conseguido de Rui Zink na sua fase de distopias, entre um desencanto algo cínico e uma ironia que horroriza pela identificação (““ao contrário das pessoas os mercados são sensíveis, emocionais”).
Um registo teatral que, aliás, foi levado ao palco, com encenação de Jorge Listopad. Se o humor é uma forma de combatem, este é um livro que não dá tréguas às afrontas que vivemos e, infelizmente, tantas vezes, alimentamos.


Gramática da Fantasia – Introdução à Arte de Contar Histórias
Gianni Rodari
Faktoria de Livros
260 págs
14,50 euros

“«Todos os usos da palavra para todos» parece-me um bom lema, com uma sonoridade bem democrática. Não para que todos os homens se tornem artistas, mas para ninguém seja escravo”, descreve o autor, pedagogo e investigador, especializado na linguagem e na literatura crianças.
Através da análise laboratorial da forma como se expressam perante o mundo dos adultos e acolhem as narrativas que metaforiam o seu próprio futuro, Rodari faz-nos viajar pela mente e pela sensibilidade que povoam a infância. Mas faz mais que isso, ajuda-nos a entender a utilidade do desenvolvimento cognitivo e emocional que acompanham todos estes processos (“o ursinho de peluche tem qualquer coisa de totem”), recorrendo a pistas transversais, como, por exemplo, o uso do pretérito imperfeito durante as brincadeiras infantis e o seu significado.


Poesia
Mário Cesariny (org., prefácio e notas de Perfecto E. Cuadrado)
Assírio & Alvim
776 págs.
44 euros

A quase totalidade do trabalho poético de um dos grandes nomes da literatura portuguesa do século XX, permite igualmente entrar pela porta maior naquilo que foi o surrealismo português. Se a liberdade livre que Breton sonhara desempenhou a ignição seminal, o país fechado que éramos e a ânsia de viver sem as grilhetas de uma ditadura que marcou profundamente fizeram o resto.
Uma viagem iniciática na companhia de uma escrita desafiante e redentora, capaz de conjugar a mística e o desafio social, a reinvenção gramatical e uma jovial abordagem lúdica da existência, a desconstrução da dimensão sociológica que a psicologia trouxe para a literatura no contexto de uma experiência de vida que é, ela mesmo, a sua maior obra. Como nos avisava Mário CEsariny de Vasconcelos em “Pastelaria”, poema central do seu trabalho, «afinal o que importa não é ser novo e galante / – ele há tanta maneira de compor uma estante», avisava em “Pastelaria”


Eu, assassino
Antonio Altarriba (texto) e Keko (desenho)
Arte de Autor
136 págs.
€ 19,95

«Matar não é um crime. Matar é uma arte». Apresento-vos Enrique Rodriguez Ramirez, académico, basco, o homem que dirige a revista Trémula, «dedicada à representação da dor na pintura ocidental». Mas não se trata apenas de um teórico. Enrique mata. Sem motivo. Como a mais ousada, ancestral e necessária performance da Humanidade.
A acção desenrola-se no meio adacémico, tendo como pano de fundo o terrorismo da ETA. Em paralelo, Ramirez justifica-se: «guerras, genocídios, purgas constituem formas de morte em série (…) desde logo eu não… eu não assassino em série… os meus assassínios são exclusivos»
Do ponto de vista gráfico, realce para os pequenos apontamentos a vermelho, num livro a preto e branco. Um livro extraordinário, com múltiplas formas de leitura, consoante a profundidade com que o queiramos encarar.


Do Inferno
Alan Moore (argumento) e Eddie Campbell (desenhos)
Devir
576 págs
39,99 euros

Não é um livro de BD, é uma experiência inolvidável, obsessivo e francamente imersiva. O genial Alan Moore parte de Jack “The Rippper” para elaborar uma teia que abraça o esoterismo, simbologia, Maçonaria, Arquitectura, o receio do desconhecido, as nunca completamente reveladas relações familiares, as grandes conspirações que alteraram a História. Há um carácter de inevitabilidade que faz convergir na figura do mais famoso assassino inglês um Mal ancestral e deambulante, inerente à Humanidade.
Como habitualmente, Moore é megalómano, estamos perante um livro de BD com quase 600 páginas e uma quantidade assinalável de texto – leia-se, informação – em cada página. “Uma grande obra deve ter muitos lados dos quais a poderemos apreciar. Pense nas lendas clássicas com as suas camadas de significação”, diz Gull, um personagem. Mas poderia bem ser o próprio Alan Moore.


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