Jazz em Agosto 2018: Nova Quartet + Asmodeus = John Zorn

Nova Quartet © Petra Cvelbar Novamente em dose dupla, a noite de Segunda-feira, 30 de Julho, confirmou esta edição do Jazz em Agosto c...

Nova Quartet © Petra Cvelbar

Novamente em dose dupla, a noite de Segunda-feira, 30 de Julho, confirmou esta edição do Jazz em Agosto como algo de especial. Nova Quartet e Asmodeus interpretaram a música de John Zorn e não deixaram os créditos por mãos alheias.
Por João Morales

Começaram com um ritmo rápido, mantendo a suavidade e a perfeita articulação do som criado em conjunto que iria caracterizar toda a actuação. Quatro músicos, três deles com instrumentos da família da percussão – incluindo o piano de John Medeski, cuja fama nasceu do trio que criou com Billy Martin e Chris Wood, e é hoje mais um dos arregimentados na crescente “família” de músicos em torno de John Zorn. Aliás, as peças interpretadas por este agrupamento integram o vasto rol de composições que o nova-iorquino criou e foi distribuindo por diferentes formações. A edição deste ano do Jazz em Agosto, na Fundação Calouste Gulbenkian, com a habitual curadoria de Rui Neves, é uma mostra alargada da criação do profícuo compositor.

A completar esta primeira conjugação da noite, três mestres. A saber: o vibrafonista (também baterista, mas desta vez não) Kenny Wollesen, conhecido comparsa de Zorn, com extensa colaboração em projectos como os Mob ou New Klezmer Trio e músicos como David Byrne, Tom Waits, Briggan Krauss, Myra Melford, Ben Golberg ou Steve Beresford. O baixista Trevon Dunn (habitualmente em versão eléctrica, desta feita, em contrabaixo), oriundo de projectos com Melvins, Mr. Bungle e presente em variados álbuns de Zorn. E o fantástico Joey Baron, revelado ao mundo pelos Naked City e Masada, que ainda no passado Sábado pudemos ver neste mesmo palco.

Nova Quartet © Petra Cvelbar
Se em algumas passagens a sonoridade destes Nova Quartet poderia remeter para uma herança actualizada de uma certa tendência lounge, o rigor da execução e as cascatas de som que cruzam as intervenções dos quatro, logo desmentem essa ilusão. Há uma arquitecura intrincada entre os quatro pilares, sustentada por uma cumplicidade de anos e palcos em conjunto, mas que se deve, acima de tudo, à mestria dos executantes.

A dada altura (ao quarto tema, dos cinco tocados) a sonoridade inicial remete para Dave Pike, vibrafonista tantas vezes esquecido, que desempenhou um pepel importante na década de 60, fazendo a ponte entre um jazz dançável e uma vontade de experimentar que alastrava pelo jazz europeu (apesar de americano, muito influenciou no Velho Continente, nomeadamente, com as suas gravações na MPS). Um fundo com discretas influências de blues, sustentadas por John Medeski, ampara um impetuoso Kenny Wollesen, dando origem aos momentos mais intensos da actuação.

A fechar, uma entrada em força com reminiscências no Rok Progressivo e adopção de um ritmo minimalista, permitindo depois a Wollesen, novamente, esvoaçar por cima da malha sonora até que Joey Baron mostra mais uma vez porque é um baterista fenomenal.

Asmodeus © Petra Cvelbar

A passagem entre os dois conjuntos de músicos é feita com a subida ao palco do anfitrião. John Zorn agradece à organização, explica a lógica das Bagatelles, as tais 300 composições entregues a diferentes formações, e passa a apresentar Asmodeus. Trevor Dunn assume agora o baixo eléctrico, o baterista é Kenny Grohowski, um jovem ecléctico que já colaborou diversas vezes com Zorn, e o guitarrista, um velho conhecido nosso, Marc Ribot (Cubanos Postizos, Ceramic Dog, The Young Philadelphians). Mas, ao invés de sair, Zorn puxa uma cadeira e senta-se.

Ao longo do concerto, funcionará como um maestro experimentalista, com o método que é tão seu, assente em gestos com as mãos previamente conhecidos, dando as entradas e saídas de cada músico, instruções para acentuar, manter ou diminuir uma cadência. O trio foi, na verdade, um quarteto.

O som deste novo projecto de Ribot é poderoso, com influências de King Crimson ou Jimi Hendrix, mas valendo-se da destreza do guitarrista que faz deslizar as mãos pela guitarra com a certeza de quem conhece de cor o resultado que pode ser produzido a cada instante. Trevor Dunn revela-se mais que competente e o jovem Grohowski um furacão.

Asmodeus © Petra Cvelbar

Há passagens nascidas das raízes do mais profundo Hard Rock (ou mesmo algum Metal), notas e soluções que, por instantes, remetem para Robert Fripp (quer pela sonoridade da guitarra, quer por alguns riffs e passagens conjuntas, evocando discos como Earthbound ou Red, de King Crimson), mudanças súbitas que evocam a influência de um outro Mestre, Frank Zappa (na fase Zoot Allures, se fosse possível especificar). Aliás, a postura de John Zorn tem qualquer coisa de Zappa, na forma como dirige os seus músicos, no rigor que coloca na transposição das pautas para o palco, na centralidade que, naturalmente, gerou em torno de si e da sua obra. Até na dimensão alargada do espólio que ambos criaram se assemelham.

No final do concerto, com o público a aplaudir de pé, John Zorn estava feliz. E nós também.

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