Recensão: A Noite do Professor Andersen, de Dag Solstad

A Noite do Professor Andersen Dag Solstad (tradução de João Reis) Cavalo de Ferro 160 págs 15,49 euros Por João Morales Pål...


A Noite do Professor Andersen
Dag Solstad (tradução de João Reis)
Cavalo de Ferro
160 págs
15,49 euros

Por João Morales

Pål Andersen, eminente docente universitário de Literatura. Vive sozinho e assim tenciona passar a Consoada, a madrugada redentora da Humanidade. “A noite de paz. Que se inicia á meia-noite. Não antes da meia-noite, como muitas pessoas na Noruega acreditam, porque essa é uma noite anterior à noite de paz.”

Entre solitários conhaques e outros acepipes, ao espreitar pela janela, Andersen presencia uma cena digna de filme. Um homem estrangula uma mulher. O que fazer? Intervir? Avisar alguém? Denunciar o caso? Ignorar tudo? “O homicídio acontecera. O problema era esse, ele testemunhara um acontecimento irreversível. Não podia avisá-los de algo irreversível”.

Os dias seguintes servem de cenário para o académico tentar perceber o porquê da sua hesitação em denunciar o caso à polícia, entre uma estranha apatia quase filosófica e uma enraizada forma de vida assente em rotinas e algum misantropismo. Dag Solstad (pela primeira vez publicado entre nós com esta edição da Cavalo de Ferro), utiliza este curto, mas decisivo, episódio para nos confrontar com outros temas. Andersen vai a um jantar, com seu grupo de antigos amigos. Durante o repasto, é-nos servida uma nova oposição, entre uma juventude que questionou algo e a comodidade burguesa e bem instalada em que se movem todos os intervenientes. Dois tempos de várias vidas: “Já não tinham a vida à sua frente, já não se encontravam na fase em que podiam juntar a palavra «eu» e a palavra «futuro» na mesma frase, mas podiam olhar para trás e afirmar que eram pessoas bem-sucedidas enquanto médicos, psicólogos, actores principais, professores universitários e funcionários públicos na área da cultura”.

Solstad utiliza esta narrativa para confrontar a veleidade dos nossos dias de espuma com a força perene dos escritos clássicos, opondo a vitalidade, por exemplo, de um texto de Ibsen, enquanto captor de uma ancestral e imutável condição humana, aos reality shows – no centro da conversa durante o jantar, apesar da condição dos presentes. “Nos últimos tempos tenho pensado tanto em literatura e em como o tempo a desgasta, talvez não sejam pensamentos novos, mas, de qualquer maneira, são intensos”, resume o nosso Professor.

Dag Solstad, autor norueguês, nascido em 1941, põe a correr em paralelo (ou talvez mesmo em simultâneo) neste livro originalmente publicado em 1996, duas linhas narrativas.

Por um lado, explorando o declínio da Literatura (“No entanto, não representamos o trabalho de Ibsen, mas a reputação de Ibsen. Somos mais ou menos indiferentes à obra, sim, é verdade, somente cem anos após ter sido escrita (…) O meu estômago contorce-se em protesto ao pensar que não existe uma reputação tão grande que não sobreviva à passagem de cem anos. Desejamos ter obras imortais, mas será que existem, para nós?”.

Por outro, a estranheza de Andersen sobre tudo o que se passou na noite de Natal, o suposto criminoso que ele acaba por conhecer, com quem se cruza num restaurante, que o acompanha a casa e até convida para uma corrida de cavalos. “Estou a sofrer juntamente com o homicida e desejo continuar a sofrer assim? Então e a vítima? Está morta. Vítima de um crime capital, mas morta. O assassino está vivo e assim deve continuar (…) Que raio é isto? Porque é que eu não quero que ele desapareça da minha vida? Porque receio eu que ele desapareça da minha vida?”

A dimensão narrativa ao longo de todo o livro é lenta, regrada, centrada no fluxo de raciocínio do protagonista, ou melhor, nas suas reflexões. Mais que chegar a conclusões, ele coloca a si mesmo interrogações, momentos de hesitação cognitiva, pequenos soluços cerebrais que não desembocam em respostas.

Há um discreto choque entre a grandiosidade de palavras intemporais, fixadas na memória colectiva, e pequenos incidentes condenados a desparecer rapidamente. Para as primeiras, estará reservado um pedestal natural, conquistado pela sua própria capacidade, independentemente da sua aceitação ou compreensão em diferentes gerações e contextos socio-cultuais. Para os segundos, pouco resta, além do degredo do olvido colectivo. Reflexos da nossa real amplitude? Um Andersen algo pessimista sintetiza que “em 2500 anos fora necessário, verdade seja dita, manter esta ilusão de que o ser humano era uma criatura que se deixava estimular e comover por certos retratos da condição humana”.

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