Opinião: Ao Sol de Tânger, de Christine Mangan

Ao Sol de Tânger Christine Mangan Editora: Editorial Presença Sinopse: A última pessoa que Alice espera ver quando chegou a Tân...


Ao Sol de Tânger
Christine Mangan

Editora: Editorial Presença

Sinopse: A última pessoa que Alice espera ver quando chegou a Tânger, com o seu novo marido, é Lucy Mason. Depois de um acidente em Bennington, as duas jovens - outrora colegas de quarto inseparáveis - não se viam há mais de um ano. Mas ali está Lucy, a tentar reparar as coisas e recuperar a cumplicidade de antigamente. Alice talvez devesse sentir algum alívio por ter ali uma amiga, ela ainda não conseguiu adaptar-se à sua vida em Marrocos; tem medo de se aventurar na confusão das medinas e o calor opressivo apavora-a. Lucy, independente e destemida como sempre, ajuda Alice a sair do apartamento e a explorar o país. Porém, Alice depressa dá por si dominada por um sentimento que já conhece: o controlo constante de Lucy. Para agravar a situação, John, o marido de Alice, desaparece e ela começa a questionar tudo à sua volta: a relação com a sua enigmática amiga, a decisão de se mudar para Tânger e até a sua própria sanidade mental. Uma história afiada como um punhal, numa estreia literária cheia de peripécias, exotismo e charme, escrita com tal mestria, que deixará o leitor arrebatado. 


OPINIÃO: Quando na capa de um livro vem uma citação de um grande romancista a dizer que estamos perante um romance é que como se Donna Tartt, Gillian Flynn e Patricia Highsmith  (outras três grandes escritoras) se juntassem, torna-se quase imperativo lê-lo. No entanto, é também necessário não criar expectativas demasiado elevadas. Juntando estes dois ingredientes, Ao Sol de Tânger mostrou-se uma leitura bastante voraz ao início, estimulante durante praticamente toda a trama, mas merecia uns capítulos finais mais vertiginosos. 

O início é, desde logo, promissor. O Prólogo remete-nos para um hospício em que temos alguém que claramente está com distúrbios psicológicos e que teima em lembrar-se de um determinado nome. Ficamos logo com a sensação de que algo de muito grave se passou e questionamo-nos de imediato sobre o que teria acontecido para se chegar a tal estado. Quando os capítulos do romance realmente começam, durante algum tempo vamos tentando perceber qual das duas óbvias protagonistas seria a do hospício. 

Foi também durante estes capítulos iniciais que, na minha opinião, a Christine Mangan mostrou o seu verdadeiro potencial. Conseguiu criar uma narrativa em que rapidamente se instalou uma intriga psicológica que urgia ser desvendada. Alice e Lucy foram colegas de quarto em Nova Iorque, mas enquanto uma parece ansiosa e feliz por reencontrar a outra, tal sentimento não é recíproco. Pelo menos não de imediato. Tânger é o palco para esse encontro e também para o desvendar de memórias que envolvem amores perdidos, outros por declarar, mas acima de tudo é palco da manifestação das várias facetas do ser humano quando encaram a realidade de forma a ignorarem o que lhes causa dor. A obsessão consegue asfixiar e ser asfixiante, mas também libertadora para o alvo. A mente humana consegue ser assim instável. 

As atmosferas criadas e os ambientes descritos colocam-nos facilmente nas paisagens de Tânger. Por vezes parecia que o calor realmente nos invadia e se colava à pele, tendo sido também os cheiros e a humidade quase perceptíveis fisicamente. Com esta capacidade cinematográfica, a escritora mostrou que sabe como construir uma envolvente realista. No entanto, a meu ver, existe uma altura em que o progresso da história se torna maçador. Como se a autora tivesse desistido de arriscar em algo mais ousado, optando pela previsibilidade. Ainda assim, é um romance interessante e que se lê com facilidade.

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