[10 Anos Blog BranMorrighan] Parábola Geométrica, de Manuela Gonzaga

Como prenda de aniversário ao BranMorrighan, a querida escritora Manuela Gonzaga - uma mulher que admiro profundamente - disponibilizou...


Como prenda de aniversário ao BranMorrighan, a querida escritora Manuela Gonzaga - uma mulher que admiro profundamente - disponibilizou um pequeno conto seu. Tudo faz sentido aqui. Espero que o encontrem também. A Manuela Gonzaga tem sido uma das pessoas que mais me tem inspirado e cujos contributos, humanos e literários, têm sido fundamentais para o meu crescimento. Procurem-na, encontrem-na, leiam-na. Vale tudo a pena. Fiquem então com o seu conto Parábola Geométrica.

Era uma vez um ponto que começou a espreguiçar-se, e, ao espreguiçar-se, descobriu que se podia transformar em linha. Era tão divertido, que o ponto começou a correr e a linha em que se transformou teve a epifania das formas, cobrindo distâncias e espaços para todos os lados. Para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Nessa divertida exploração, o ponto, agora linha, encontrou muitos outros pontos também em linha, os quais lhe ensinaram o passo seguinte. E a linha, exultante, dobrou-se, entrelaçou-se, circulou em seu redor, e, da clave de sol ao círculo, do círculo à espiral, da espiral aos ângulos de todos graus, foi acedendo ao infinito mar da reformulação do traço. 

Com outras linhas, o pequeno ponto na sua linearidade crescente, aprendeu a brincar às corridas do sem-fim. Fez amizades paralelas. Fez amizades novelos. Estabeleceu ligações cruzadas, angulosas, ogivais, perdeu-se no meio de muitos fios, encontrou o seu caminho novamente e… descobriu a forma que preside às letras de todos os alfabetos inventados e por inventar e a forma de todos os números que sustentam os pilares de todas as formas conhecidas e por conhecer, no infinito universo das duas dimensões.

O pequeno ponto, agora linha, agora forma, sentiu a exultação da vertigem e da desmesura. O seu caminho apresentava-se-lhe tão vasto, tão rico, tão cheio de desafios e obstáculos, que a linha julgou ter atingido o auge dos seus conhecimentos. Extasiada preparou-se para um breve repouso. Precisava de calcular todas as probabilidades para avançar para o terreno perigoso e fascinante das formas impossíveis. Mas foi então que, num ato de muita imprudência, contra o qual outras linhas a avisaram em vão, se ergueu numa direção inexplorada, e, como tal, inexistente. O facto é que o ponto, agora linha, esticou-se, filiforme, para um impossível acima, saindo da linearidade do seu próprio mundo. 

E, em choque e maravilha, mergulhou na terceira dimensão. 

Foi tudo tão estranho e perturbador que a linha, agoniada e quase partida, caiu de chofre na sua primitiva realidade onde, por desenhos esdrúxulos, tentou partilhar a novidade da sua descoberta, descrevendo a novíssima geometria no espaço aos novelo de linhas que a seguiam por todo o lado. Esses mesmos novelos que, segurando o ponto a que se reduzira quando passara para a terceira dimensão, em boa hora a tinham impedido de se perder no seu delírio. 

— Há mais formas, do que as formas que conhecemos. Há mais dimensões e espaços, do que poderíamos alguma vez sonhar e, muito menos, alcançar —explicou-lhes, desdobrando-se em letras que a maior parte das linhas nem sequer era capaz de descodificar. 

―Esta linha ―comentaram então entre si, enoveladas de perplexidade —, já não tem qualquer préstimo. É uma linha desalinhada, cheia de irregularidades e de singularidades. É um perigo para todas nós. 

Algumas, porém, acreditavam nela, e queriam saber mais sobre a geometria no espaço inexistente, de que ela lhes dava testemunho. Um espaço escandalosamente tridimensional, que, sabia-se, não existia porque não podia existir, provado que estava que, para além da linearidade absoluta e puríssima da segunda dimensão, nada mais havia. E a linha continuou assim, durante mais alguns desenhos e formas que não faziam qualquer sentido, a viver entre os dois mundos. Mas os novelos que a seguiam, para a apoiar ou para a combater, tornaram-lhe a vida tão difícil que a linha, a certa altura, tomou a decisão de partir de vez à descoberta do vastíssimo mundo dos sólidos geométricos. Não disse nada a nenhum dos novelos, nem a nenhum dos pontinhos isolados que a seguiam, ou às linhas que a tentavam enlear. 

Dando mostras de grande docilidade, preparou-se para a viagem definitiva, como se tivesse voltado simplesmente aos velhos rumos da espiral e do círculo, das corridas paralelas, e da ondulação das claves de sol, nos caminhos do para a frente, e do para trás, e do para os lados. Até ao momento em que se estendeu, sem aviso, na linha que ascendeu à nova realidade, deixando apenas, atrás de si, o ponto da sua origem a que parecia ter-se reduzido. Um pontinho silente e inerte, em redor do qual pontos, linhas e novelos se colocaram comentando:

―Vêem o que acontece quando uma linha, que pode ir para todo o lado, nega a sua natureza e perde o rumo? Aí está. Volta a ser um pontinho de nada, sem memória de claves de sol, rumos paralelos, círculos e espirais, e números, sim, números; e letras, sim, letras. Tinha tudo. Perdeu tudo.

Depois, quase todas se afastaram. Algumas linhas, porém, rodearam o pontinho de nada, criando à sua volta um círculo de proteção para que nenhum novelo malévolo se lembrasse de o absorver. 

E ficaram à espera. 

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