RECENSÃO: O ADVERSÁRIO, DE EMMANUEL CARRÉRE, por João Morales

O Adversário Emmanuel Carrère Tinta-da-China 172 págs 16,90 euros Um homem que viveu décadas numa bolha de mentira, quando e...



O Adversário
Emmanuel Carrère
Tinta-da-China
172 págs
16,90 euros

Um homem que viveu décadas numa bolha de mentira, quando esta rebentou resolveu o assunto matando todos à sua volta – mulher, pais e filhos. A história é real e deu origem, ao livro O Adversário, relançado este ano em Portugal, coincidindo com a libertação do assassino.

Por João Morales

É impossível não ter curiosidade por um livro que começa desta forma: «Na manhã de Sábado 9 de Janeiro de 1993, enquanto Jean-Claude Romand matava a mulher e os filhos, estava eu com a minha família na escola de Gabriel, o nosso filho mais velho. Ele tinha cinco anos, a idade de Antoine Romand. A seguir fomos almoçar com os meus pais, e Romand com os dele, os quais assassinou depois da refeição».

O livro em questão chama-se O Adversário, foi novamente publicado em Portugal pela Tinta-da-China em 2019 (inicialmente lançado entre nós pela Gótica, em 2000) coincidindo a com a libertação de Romand, em Junho deste ano, depois de 26 anos de prisão cumpridos. É o título mais famoso de Emmanuel Carrère, publicado originalmente em 2000, e relata um caso real que encheu páginas de jornais há quase um quarto de século. É uma apaixonante reflexão sobre as consequências imprevisíveis da mentira e das vidas que nela se apoiam, escrito num registo vigoroso e dinâmico, com alguma herança de Truman Capote e de um jornalismo literário, transforma a prosa numa narrativa que abre ao leitor portas interpretativas para além da informação factual.

A espantosa história de Jean-Claude Romand (n. 1954) começa quando falta a um exame do segundo ano da Faculdade, em 1974, mas resolve negar a sua falha. Perante todos, assume a prova como superada, vai mentindo a familiares e amigos, prossegue um curso inventado e uma suposta carreira médica que culmina com um alto cargo na Organização Mundial de Saúde (OMS). Mostrava fotografias da janela do seu local de trabalho, tinha pela casa, no carro e sempre à mão, folhetos e outros materiais da instituição e do ramo. Frequentava a biblioteca pública da OMS, estudava afincadamente livros e documentos, mantinha-se informado sobre inovações e avanços da Medicina. Afinal, era um investigador reputado na área da arteriosclerose. Custa a crer, mas é rigorosamente verdade. Em 1980 casou, mais tarde foi pai de duas crianças. Ausentava-se em viagens de trabalho de onde regressava com brinquedos e outros presentes. Na verdade, passava essas noites em estações de serviço…

Uma vida completamente artificial, cuja génese foi a mentira mais infantil e banal, passível de integrar o percurso de qualquer jovem. Dando corpo à famosa Teoria do Caos, segundo a qual o bater de asas de uma inocente borboleta pode originar o mais temível furacão a uma distância incomensurável, a tropelia infantil foi um primeiro passo, num percurso de mentiras encadeadas com frieza, até à carnificina final. «Não ir a exame e fingir que não se foi aprovado não é uma fraude audaciosa com probabilidade de êxito, um tudo ou nada do jogador: vai-se ser rapidamente apanhado e expulso da Faculdade exposto ao escárnio e à vergonha, as coisas que mais o deviam assustar no mundo. Como podia ele adivinhar que, pior que ser rapidamente desmascarado, era não o ser, e que esta mentira pueril o faria, dezoito anos depois, massacrar os pais, Florence e os filhos que ainda não tinha?».

Conseguiu convencer várias pessoas a entregarem-lhe as poupanças. Afinal, graças à sua condição profissional de funcionário das Nações Unidas privilegiada poderia colocar essas avultadas somas em contas na Suíça em condições especiais. Assim viveu despreocupadamente ao longo dos anos. O problema foi quando por contingências várias começaram a reclamar o seu dinheiro. Matar aqueles que enganara foi a solução encontrada. Solução que se estendeu aos sogros, à mulher, aos pais, aos filhos.

Emmanuel Carrère interessou-se pelo caso do assassino mentiroso, contactou-o, trocou correspondência com ele, pensou desistir, teve dúvidas e pausas… mas o livro acabou por ganhar vida como um documento extraordinário. Imediatamente antes de mergulhar neste caso, Carrère terminara outro livro, igualmente centrado numa personalidade dificilmente catalogável. I Am Alive and You Are Dead; The Story – A Journey Into the Mind of Philip K. Dick aborda o universo criativo e mental, as vivências e vicissitudes, as reações e contradições que moldaram para a História o mais importante autor de Ficção Científica, influenciado por drogas, religiões, crises familiares e outras contingências. Philip K. Dick explorou em alguns dos seus livros o mito do doppelgänger. Não deixa de ser uma apelativa coincidência, pensar que Jean-Claude Romand, também teve, em certa medida, um duplo.

O título do livro surge explicado numa passagem com alusões espirituais, acentuando a brutalidade dos acontecimentos e apontando no sobrenatural alguma explicação para uma crueldade urdida durante décadas, que desembocou no assassinato a sangue-frio de toda a família: «Para os crentes o momento da morte é quando se vê Deus, já não obscuramente num espelho, mas face-a-face. Mesmo os não-crentes acreditam em algo do género quando passam para o outro lado, os moribundos vêem desenrolar-se no meio de um clarão o filme da sua vida, finalmente inteligível. E essa visão, que deveria ter revelado aos velhos Romand a plenitude das vidas realizadas, trouxe-lhes o triunfo da mentira e do mal. Deviam ter visto a Deus e, em seu lugar, viram, assumindo os traços do seu bem-amado filho, aquele a que a Bíblia chama Satanás, isto é, o Adversário».

Após consumar os últimos crimes, Jean-Claude Romand ingeriu comprimidos e deitou fogo à casa. Mesmo assim, há quem encontre nesta decisão uma opção maquiavélica, e não um desespero final de quem cruzou todas as fronteiras da perfídia e encontre no suicídio a saída lógica e definitiva para o turbilhão centrípeto que nasceu discreto mas ganhou a dimensão de um monstro invencível. Os comprimidos fora de prazo, a noção do tempo que os bombeiros deveriam levar a chegar ao local, a escolha do ponto da casa onde começar o incêndio… tudo serviu para alimentar as dúvidas de alguns bombeiros e polícias, espelhando-se ainda mais na incredulidade que este caso nos oferece a cada passo.

Em Junho de 1974 o futuro homicida conquistou um confortável 16 no seu Exame de Filosofia. Dos três temas propostos para o trabalho analisado, escolheu «A Verdade Existe?». Podemos apontar a coincidência ou questionar-nos se haveria já alguma obsessão sobre o tema, ainda que inconsciente. Podemos responder à pregunta com uma outra, alegadamente formulada há mais de dois mil anos por Pilatos a Jesus Cristo – o que é a verdade?.

Romad foi libertado em Junho deste ano, depois de a sua pena de Prisão Perpétua ter sido reduzida, ao encontro de pedidos do condenado. A justiça concedeu-lhe agora liberdade condicional, com a rigorosa proibição de fazer de fazer qualquer comunicação mediática sobre o caso que levou à sua condenação. Segundo as esparsas informações divulgadas, irá instalar-se na abadia de Fontgombault, onde vivem 60 monges beneditinos e que acolhe pessoas que desejem fazer um retiro espiritual.

Talvez muitas das respostas que a leitura deste livro possa suscitar, muitas das reflexões que um caso tão sui generis tem – forçosamente – de provocar, apenas possam ser encontradas no interior mais profundo e obscuro do ser que lhes deu origem, o pretenso médico Jean-Claude Romand, o comprovado monstro Jean-Claude Romand.

Emamnuel Carrère fala sobre o caso na TV 5 
Jean-Claude Romand, o bárbaro assassino

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