[Diário de Bordo] A rotina matinal da sobrevivência
03:14Queridos leitores, como estão? Esta semana não fui muito bem sucedida a manter o blogue actualizado, mas para não perder o co...
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Queridos leitores, como estão?
Esta semana não fui muito bem sucedida a manter o blogue actualizado, mas para não perder o comboio na totalidade decidi escrever este post rápido antes de me ir deitar.
No Facebook alguns leitores mostraram curiosidade sobre como é a minha vida aqui em Bloomington, quais são as minhas rotinas e como é que é aqui o dia-a-dia em tempo de coronavirus. Como a semana foi longa e ainda tive de trabalhar no fim-de-semana, vou falar brevemente sobre estas coisas e, espero eu, mais tarde dou-vos mais detalhes e conto-vos alguns episódios engraçados.
A minha vida em Bloomington é calma em todos os aspectos menos em termos de trabalho. Com isto quero dizer que vivo num prédio de três pisos, num sítio relativamente calmo (fica na fronteira entre uma zona com maior afluência de sem-abrigos e o centro da cidade) que fica a menos de dez minutos a pé do supermercado e a cerca de vinte minutos a pé do campus. Tenho um parque a quinze minutos e tenho a B-Line, uma espécie (deixem-me dizer-vos que o facto de não escrever em português com frequência, ou sequer falar português com frequência, faz com o meu cérebro já comece a ficar meio preguiçoso em termos de encontrar as expressões certas em português!) de trilho (era esta a palavra que queria!) de alguns quilómetros em que também posso caminhar, correr e até jogar basquetebol dado que há um campo e meio do trilho. Ainda não aconteceu, mas já comprei uma bola de basquetebol de rua! Uma das coisas que tinha idealizado ao vir para cá era viver numa casinha térrea, com terraço e quintal, mas para já o apartamento é o possível e dado que aqui tudo é longe de tudo até que estou bastante bem localizada.
Em tempo de coronavirus as ruas andam praticamente desertas e os estabelecimentos fechados. A não ser que faça sol. Bloomington é a cidade mais esquizofrénica a nível de temperaturas e de estado do tempo que já vi. Num dia faz sol e está quente, no dia seguinte descem vinte graus e batemos o dente. Num dia o tempo está ameno e quase sem vento, no dia seguinte recebemos um aviso de perigo de tornado. Sim, é verdade, já me aconteceu e só rezava para que a estrutura do prédio aguentasse com a chuva e os ventos fortíssimos. Não sei se têm noção, mas aqui as construções não são como na maior parte da Europa. Aqui não se usa tijolo e cimento, mas sim essencialmente madeira. Costumo dizer que vivo entre paredes de papel. Outra coisa que damos por garantido em Portugal e aqui não existe são as persianas que tapam completamente a luz. Nem nos quartos! Há uma coisa que chamam light filtering que é uma espécie de persiana mais fraquinha. Mas tudo bem, uma pessoa adapta-se e segue com o que tem, tranquilamente.
O meu apartamento é porreirinho. Tem teto alto (ao contrário de muitos por aqui), imensa luz e tem espaço suficiente para eu viver de forma confortável. No meu quarto não só tenho a cama de casal como tenho ainda espaço para o meu cantinho de yoga. A sala é ligada com a cozinha, mas como a divisão é bastante rectangular acaba por haver uma divisão natural entre as duas, com uma consola encostada à parede a sinalizar a transição. Ahah!
Em termos de rotina, dado que saí completamente fora do meu habitat natural, as manhãs são o mais importante. O período entre acordar e começar a trabalhar é aquele em que mais preciso de familiaridade e conforto. Acordo cedo, levanto-me e começo a rotina que já fazia em Portugal: lavo a cara e os dentes, bebo um copo de água, faço o meu yoga matinal (entre 10 a 15-20 minutos dependendo do estado de espírito e do estado da minha coluna) e depois cozinho o pequeno-almoço. Tenho a mania de fazer panquecas de banana e mirtilo frescas todas as manhãs. A receita é bem simples 1-2 ovos com 1-2 bananas partida(s) aos bocadinhos, sementes de girassol e canela. Mexo tudo bem com um garfo (não faço com varinha mágica porque gosto de ter bocadinhos de banana inteiros) e depois de bater tudo até a mistura ganhar uma forma minimamente consistente misturo os mirtilos (estes não quer que estejam minimamente esmagados). Coloco um pouco de óleo de côco numa frigideira e voilá! é deixar estar uns minutos, virar e temos pequeno almoço delicioso. Por norma junto umas tostas de manteiga de amendoim com doce (eu sei, super americana!) e café que chegue para a manhã inteira. Depois deste ritual todo lá me sinto finalmente pronta para enfrentar o dia com coragem e mente aberta para aprender e executar o máximo possível.
Para quem, como eu, tem passado todo este tempo da pandemia sozinho, penso que ter estes pequeno rituais de conforto ajuda imenso. Outra coisa que me tem ajudado é aceitar pequenos desafios. Esta semana que passou, por exemplo, terminei o desafio 30 Days of Yoga, da Yoga with Adriene. Ontem comecei o desafio 10 Minutes Morning Yoga Challenge, da Yoga with Kassandra, etc. Dado que o tempo aqui é completamente incerto e que de qualquer maneira não convém andar demasiado em sítios com outras pessoas, encontrar estes pequenos desafios caseiros que nos obrigam a ser disciplinados e a cuidar de nós mesmos de forma gentil são muito importantes. Dito isto, porque os meus olhitos já ardem de cansaço, por hoje fico por aqui. Se quiserem mais informações sobre estes desafios ou outros rituais que nos fazem sentir menos sozinhos, contactem-me à vontade.
Dei conta que não falei da imagem que ilustra este post. Numa nota rápida antes de acabar conto-vos que a Two Sticks Bakery fica no piso 0 do meu prédio e tem doces e salgados deliciosos, feitos de ingredientes sustentáveis e, dentro do possível, locais. Têm para todos os gostos e feitios, incluindo opções vegan e sem gluten. Agora imaginem o que é só ter de encomendar online e descer as escadas para ter aquele mimos... Não digam a ninguém, mas acho que quando voltar a Portugal volto a rebolar! Eheheh. A outra ilustração contém precisamente a fórmula do que faço para limpar o meu tapete de yoga. Talvez faça um post mais dedicado a este tema, o que acham? Obrigada por estarem desse lado, até já! :)
Opinião: Lá Onde o Vento Chora, de Delia Owens
01:54Lá Onde o Vento Chora Delia Owens Editora: Porto Editora Sinopse: Kya tem apenas seis anos de idade quando vê a mãe sair de cas...
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Lá Onde o Vento Chora
Delia Owens
Editora: Porto Editora
Sinopse: Kya tem apenas seis anos de idade quando vê a mãe sair de casa, com uma maleta azul e sapatos de pele de crocodilo, e percorrer o caminho de areia para nunca mais voltar. E à medida que todas as outras pessoas importantes na sua vida a vão igualmente abandonando, Kya aprende a ser autossuficiente: sensível e inteligente, sobrevive completamente sozinha no pantanal a que chama a sua casa, faz amizade com as gaivotas e observa a natureza que a rodeia com a atenção que lhe permite aprender muitas lições de vida.
O isolamento em que vive durante tantos anos influencia o seu comportamento: solitária e fugidia, Kya é alvo dos mais cruéis comentários por parte dos moradores da pacata cidade de Barkley Cove.
E quando o popular e charmoso Chase Andrews aparece morto, todos os dedos apontam na direção de Kya, a miúda do pantanal. E o impensável acontece.
É engraçado como algumas histórias chegam até nós. A verdade é que foi preciso mudar-me para o outro lado do oceano para ler este livro. E nem sequer o li em inglês. Esta foi uma das minhas escolhas impulsivas quando me deparei com a decisão de ter de escolher apenas três livros. Ainda assim, demorei a pegar nele. Parecia que quanto mais elogios sobre ele lia, quanto mais a Amazon mo recomendava, mais eu ganhava resistência em lê-lo. Já vos aconteceu algo parecido? Verem um livro a ser tão falado que ao contrário do esperado a curiosidade baixa em vez de aumentar? É um fenómeno um pouco estranho, admito, porém também defendo que são os livros que escolhem quando devem ser lidos. Há coisa de um mês, Lá Onde o Vento Chora pegou-me pela entranhas.
Lembram-se do meu último post sobre a vontade e a resistência de voltar a escrever? As emoções evocadas por esse processo? A leitura deste livro foi muito semelhante. Provocou-me uma espécie de desconforto, incitando-me ao mesmo tempo a continuar e a "não fechar os olhos" à história. Quando li que este era o primeiro romance de Delia Owens, não quis acreditar. No entanto, dada a sua biografia, a maturidade gritante e o nível de consciência primeva passou a fazer mais de sentido. Entrar nesta leitura tem o perigo de nos sentirmos a mergulhar num universo tão visceral que é fácil perdermo-nos em emoções arrebatadoras. Quantos de nós nunca se sentiram completamente fora do seu habitat natural, desenquadrados num mundo cujas regras nem sempre são compreensíveis e que avança sem nos pedir autorização, evoluindo independentemente do nosso querer e da nossa limitada percepção ou compreensão?
O caminho que fazemos com Kya é este. Uma miúda que cresce longe do que é considerado "a vida normal", numa pequena casa num pântano, com uma família disfuncional (o pai bate na mãe e nos irmãos e só não lhe bate a ela porque ainda não calhou) que vai desaparecendo aos poucos. Cada um, começando pela mãe e depois pelos irmãos, saem pela porta fora sem nunca mais voltarem. Kya espera todos os dias no alpendre da casa pelo regresso da mãe, mas todos sabemos como é que esta parte da história acaba, certo? Não, não tanto assim, mas deixo isso para vocês descobrirem quando lerem o livro. Não obstante, Kya tem de aprender a sobreviver, a subsistir, a crescer num isolamento que só peca por os seres humanos não serem tão bons companheiros como a mãe natureza e os seus animais. A interação de Kya com outras pessoas vai ensinando-a que não há lugar para ela em quase lado nenhum senão no pântano. Ainda assim quem é que aguenta uma vida inteira de solidão humana depois de já ter sentido um pouco do poder de gostar de alguém?
Do desaparecimento da sua família à sua vida adulta passam vários capítulos. Durante esses capítulos somos quase levados a crer que o livro é sobre a morte misteriosa que aconteceu na povoação, porém todos sentimos a verdade a pulsar nas nossas veias. Tem muito mais a ver com o íntimo do ser humano do que com um mero mistério. E Delia Owens foi por demais inteligente a montar a narrativa. A escritora envolve-nos nas suas descrições da natureza, força-nos a olhar e a sentir tudo de forma genuína e sem filtros, com calma e paciência. Obriga-nos a compreender a íntima relação perdida dos ser humano com o universo e a sua natureza selvagem. E quando nos esquecemos e não respeitamos, as consequências conseguem ser brutais. A incompreensão e a intolerância são os dois ingredientes que fazem deste livro o sucesso que ele tem.
Dito isto, Lá Onde o Vento Chora foi uma bela surpresa. Não sinto que foi um dos melhores livros da minha vida, mas sem dúvida foi uma leitura que me tocou em sítios muito familiares. Comoveu-me, enfureceu-me, fez-me rir e quase chorar, mas mais importante ainda surpreendeu-me com o nível de profundidade a que ainda conseguimos ir às origens. Ao mundo em que aprendizagem, comércio, relações pessoais e sobrevivência têm como base o instinto e a confiança inocente da partilha. E tal como já tinha sido descrito num dos textos mais antigos de sempre, a bíblia, o acordar para a traição pode ter consequências tremendas e fatais. Gostei bastante e recomendo.



