Recensão: De Volta (Aos Contos), de Filomena Marona Beja

RECENSÃO : DE VOLTA (AOS CONTOS) , DE FILOMENA MARONA BEJA, por João Morales De Volta (Aos Contos) Filomena Marona Beja Parsifa...



RECENSÃO: DE VOLTA (AOS CONTOS), DE FILOMENA MARONA BEJA, por João Morales

De Volta (Aos Contos)
Filomena Marona Beja
Parsifal
152 págs
14,50 euros

Concisão. Talvez seja esta a palavra que melhor descreve a técnica narrativa de Filomena Marona Beja, evidente e constante nestes quinze contos, construídos como um painel protagonizado por diferentes figuras, mas com uma certa continuidade na paisagem social, ideológica, quase sensorial, que lhes serve de pano de fundo.

As frases, além de curtas, são mantidas numa certa suspensão, muitas vezes acolhidas por umas reticências que ajudam o leitor a encontrar na compreensão, no seu próprio raciocínio, as palavras e as conclusões que não são simplesmente expressas – exigem um trabalho de dialéctica sobre aquilo que lemos, um exercício de imaginação para além das cenas descritas. É nessas entrelinhas que construímos o restante destas curtas histórias, todas elas escritas nesta década (à excepção de uma, “Eram todos homens com jeito”, de 2010).

Algumas destas narrativas são marcadas por uma final trágico. A autora não é adepta do final incondicionalmente feliz, antes segue o seu instinto algo naturalista, uma experiência de senso comum que, amargamente, nos habituou a reconhecer em certas condicionantes uma maior probabilidade de que nem tudo se passe no melhor dos mundos possíveis. Mesmo tratando-se de ficção literária. 

Sem querer ceder ao desvendar do desenlace – e são vários os contos que se “resolvem” mesmo no final – podemos, contudo, deixar algumas pistas que ajudam a mapear este território. Há, por exemplo, muitas referências à idade escolar, não apenas enquanto um período de formação intelectual e da personalidade. Ao descrever como cada personagem se insere nessa etapa, Filomena Marona Beja (n. 1994, cujo primeira obra de ficção, o romance As Cidadãs, data de 1998) está já a seduzir-nos com discretas insinuações sobre o tecido social que acolhe este seu bordado literário, mostrando os matizes sem ter de lhes dar nome completo, lançando evidências de realidades atávicas ou persistentes, questionando um mundo concreto e real através das suas figuras de ficção. Tudo funções de uma literatura sagaz e, acima de tudo, ágil.

«Afinal, não descendia dos filhos de Vasco Sodré. Quando muito, de um dos seus servos», lemos em “Caminho da vila”, uma história de perfil insular, rodeada de muita solidão forçada. Novamente uma história colmatada por uma decisão radical. Os elementos e a geografia tomam toda a sua dimensão telúrica, simbolicamente antropomórfica: 
«Os sinos da Matriz a bater as oito. 
Os da Misericórdia a responder que sim. Que já eram oito horas».

A disposição das frases na página, a pontuação que embala a leitura, a escolha dos vocábulos. Muitos são os elementos na oficina de escrita de Filomena Marona Beja a criarem um ambiente de convivência entre a prosa e a cadência poética. De forma subtil, mas intencional.  

“Ela moça, ele moleiro” aborda a herança do sangue, a descendência, o medo da diferença. Tudo começa com Ana e Joaquim, nados em localidades próximas, «terras voltadas para o pinhal. De um lado o mar, do outro a serra». Filomena, qual discreto coro grego, vai-nos oferecendo augúrios, porque «nunca se sabe no que podem dar as inclinações tardias».

“Perigo!” é um outro conto, igualmente sintomático das preocupações éticas que esta escrita transporta. As letras garrafais dos apelos ao consumo, ao crédito, ao endividamento, à ruína consequente, não podem ser atribuídas a um qualquer neo-realismo datado, depois dos anos mais recentes que assolaram Portugal. Histórias de encantar e desencantar bem contemporâneas, portanto.

Uma mãe e uma filha, ligação meramente factual, desirmanadas por uma distância muito mais que física, dão mote para «O tronco do plátano». É novamente por meias frases (embora, simultaneamente, não pudessem estar mais preenchidas) que a autora nos dá a dimensão da frieza: 
« – O que é que o teu marido disse da miúda? 
– Que… que herdou a cor e a carapinha do pai. Julgava que ela não era tão afro». 

Camilo e Cassilda, chamemos-lhes assim, protagonizam “Fim de tarde”, um ocaso de vida contado com alguns simbolismos – a vida passada na fábrica de confecções, ou a caixa trazida de Espanha com caramelos, ajudam a estilizar as personagens. E lemos:
«Não. Não era Outono.
Mas talvez já se estivesse chegado ao Inverno»

E apetece abanar, contrapor, agitar, inflamar (talvez por isso o último conto…), recorrendo ao poema de José Carlos Ary dos Santos, justamente feito para a Sonata de Outono: «Morro de pé, mas morro devagar/ A vida é afinal o meu lugar/ E só acaba quando eu quiser// Não me deixo ficar... não pode ser/ Peço meças ao sol, ao céu, ao mar/ Pois viver é também acontecer».

0 comentários