Opinião: Se esta rua falasse, de James Baldwin

Se esta rua falasse James Baldwin Editora: Alfaguara Sinopse: Se esta rua falasse, esta seria a história que contaria: Tish, 1...


Se esta rua falasse
James Baldwin

Editora: Alfaguara

Sinopse: Se esta rua falasse, esta seria a história que contaria: Tish, 19 anos, apaixona-se por Fonny, que conhece desde criança. Fazem juras de amor e conjuram sonhos para a vida a dois. Mas Fonny é atirado para a prisão, falsamente acusado de um crime horrível. Quando Tish descobre que está grávida de Fonny, as duas famílias lutam por encontrar provas que ilibem o rapaz do crime que não cometeu. Separados por uma fria parede de vidro, Tish e Fonny esperam e desesperam, transportados dia após dia após dia por um amor que procura transcender a desesperança, a injustiça, o racismo, o ódio. Entre o pulsante bairro de Harlem, onde Fonny sonha tornar-se escultor, e a ilha de Porto Rico, onde talvez se encontre a prova da sua inocência, desenrola-se uma corrida contra o tempo, pautada pelo crescimento da barriga de Tish. Sensual, violento e profundamente comovente, este romance é uma bela canção de blues, de toada doce-amarga, com notas de raiva e ainda assim cheia de esperança. Publicado pela primeira vez em 1974, Se esta rua falasse é o quinto romance de James Baldwin, um dos nomes maiores da literatura americana do século XX e uma das vozes mais influentes do activismo pelos direitos civis. Um romance-manifesto contra a injustiça da justiça e uma história de amor intemporal, é hoje tão pertinente e tão comovente quanto no dia da sua publicação.


OPINIÃO: A literatura sempre foi uma arma poderosa. Sempre teve o poder de nos transportar para as suas narrativas, fazendo-nos vestir a pele dos seus protagonistas e viver todas as suas experiências e emoções em primeira mão. No que toca ao género romance, este existe para todos os gostos, mas por norma tenho sempre preferência por dois tipos: o indefinido, em que tanto a estrutura como a história fogem ao parâmetro tradicional, e aqueles elevam a fasquia, mostrando-me realidades que de outra maneira me seriam desconhecidas. O que para mim também é fundamental é que estes dois ramos do romance partilhem uma intensidade que vai para além da história de amor tradicional, arrebatando-nos brutalmente. 

Se esta rua falasse, de James Baldwin, pertence ao segundo ramo de que falei e proporcionou-me uma experiência tão enriquecedora quanto sofrida. Publicado pela primeira vez em 1974, este romance ilustra-nos uma situação peculiar. Um rapaz, Fonny, negro que é falsamente acusado de violação. A narrar-nos a história temos a sua namorada, Tish, também ela negra, que descobre que está grávida enquanto Fonny está na prisão. Entre o presente e o passado, vamos conhecendo melhor a história deste casal, mas acima de tudo vamos tendo uma clara imagem das diferenças de condições e de tratamentos para aqueles que os chamados brancos e para a aqueles que são negros. 

Não que o romance seja um confronto entre ambas as facções. Na minha opinião estamos perante um romance abismal sobre o amor, não deixando de parte a violência e a repressão inerente à situação.O belo de Se esta rua falasse, incide precisamente nessa força avassaladora que é o amor, descrevendo-o na inocência e simplicidade na relação entre Tish e Fonny, mas também descrevendo-o na força motriz necessária para se lutar por aqueles que amamos. Até onde estamos dispostos a ir para provar a inocência de alguém que nos é querido quando sabemos que a probabilidade de também se ficar em perigo é grande? 

Todo este romance é grandioso. Existe uma sensação de vertigem enquanto vivemos o amor, o medo, o sofrimento e o êxtase - tudo isto cabe neste pequeno grande romance - de cada um dos personagens. A sensação de injustiça e a incredulidade de ser relembrada que estas situações ainda hoje em dia são recorrentes só são aplacadas pela mestria de Baldwin ao atirar-nos à cara um romance extremamente humano, brutal e enternecedor. 

Tendo menos de duas centenas de páginas, sinto que poderia falar aqui sobre muito do que li eternamente. Desde a cena no mercado em que tudo realmente começou entre Fonny e o polícia que o prendeu, à primeira visita na prisão, a irmã de Tish, o pai de Fonny, a união da família de Tish em contraste com a divisão na família de Fonny devido a uma cegueira religiosa, as descrições nas águas furtadas entre Fonny e Tish (quase poéticas), a coragem da mãe de Tish, o advogado que só para o final subiu na consideração... E depois aquele final. Ensurdecedor e mortalmente silencioso ao mesmo tempo. Ficará, sem dúvida, marcado como um dos romances do ano publicados em Portugal. 

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