Recensão: Luzes de Niterói,de Marcello Quintanilha (Argumento e desenhos)

Luzes de Niterói Marcello Quintanilha (Argumento e desenhos) Polvo 232 págs 20 euros Por João Morales A primeira reacção ...


Luzes de Niterói
Marcello Quintanilha (Argumento e desenhos)
Polvo
232 págs
20 euros

Por João Morales

A primeira reacção que um leitor habitual do trabalho de Marcello Quintanilha (sem dúvida, um dos mais importantes autores de BD do momento) pode ter ao entrar em contacto com o seu mais recente trabalho, Luzes de Niterói – que tive o prazer de apresentar em estreia internacional, durante a edição de 2018 do Amadora BD–Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora – é uma percepção de como a sua arte cria ligações cada vez mais estreitas com o Cinema. Isto, no ano em que conhecemos Tungsténio, adaptação para a Sétima Arte do seu livro homónimo.

São várias sequências em que o autor (desenhador e argumentista) recorre a diversas vinhetas num mesmo movimento de personagens, acentuando a faceta de movimento, aproximando o registo desenhado e a concepção que temos de um movimento em tempo real.  Depois, há outras facetas, como a utilização da perspectiva com a segurança de uma máquina de filmar. Tome-se como mero exemplo a página 70, com o paralelismo entre a ascenção de Hélcio à superfície e o olhar para pai, de baixo para cima, num ângulo picado.

Este livro é a história de uma amizade, entre Hélcio e Noel (carinhosamente designado como Calunga). O primeiro é a recriação do pai do autor, igualmente futebolista, carreira nascida no seio dos clubes operários. O segundo surge marcado por uma evidente e acentuada deformação física que, no enanto, não o impede de acompanhar o companheiro nas aventuras do quotidiano. O cenário temporal é a década de cinquenta, num Brasil lançado na confusão pelo suicídio do Presidente, Getúlio Vargas. A época e o seu significado pessoal já tinham sidos abordados no primeiro livro de Marcello, Fealdade de Fabiano Gorila, inicialmente publicado no Brasil, em 1999, com o pseudónimo de Marcello Gaú, hoje igualmente publicado em Portugal.

A narrativa assenta na estrutura de um épico, evocando modelos clássicos intemporais. Os dois amigos partem para o mar (o pretexto é um avantajado cardume de peixe), deparando-se com diversos perigos e obstáculos. Em terra, aguarda-os um dos encontros mais importantes da vida de Hélcio, a contratação para um clube maior. 

Logo no início, Hélcio persegue um peixe, debaixo de água, testando e desafiando os seus limites. E aí começamos a entender melhor a arquitetura do livro. Se o confronto entre o atleta e o peixe nos remete para um dos grandes textos de Ernest Hemingway, O velho e o Mar, a persistência de Hélcio no encalce da sua presa é esclarecedora. No campo, em ambiente de Futebol, a sua posição é de defesa, algo designado no Brasil como beque. A sua função seria parar o adversário e passar a bola aos avançados para que eles concretizassem o golo. Mas ele não faz nada disso, avança campo fora, com a bola nos pés, tentando ser ele a concretizar. Como já se disse, testando e desafiando os seus limites. O padrão reflecte um traço essencial de personalidade e uma postura de vida. Hélcio não está disposto a reduzir-se à condição que a vida preparou para si. Quer mais e melhor. Sem medir os riscos.

Esse mergulho profundo atrás do peixe é o momento em que Hélcio reflecte sobre o seu passado, o seu percurso, as suas circunstâncias. Marcello Quintanilha aproveita o sossego do fundo do mar para nos introduzir no universo do seu personagem.

O texto, ambientado na sua época, é um repositório constante de calão de época. Expressões como “puxar o crocodilo”, “deixando a zaga na mão”, termos como “curriola” ou “xipófagos” ou um personagem como Manuel Isopor (termo para esferovite) fixam terminologias e modos de falar que são reflexo de uma época e de uma região. Também nessa dimensão antropológica o livro de mostra pertinente.

Hélcio e Noel formam uma dupla que se complementa, e também aqui cabe recordar algumas figuras icónicas. D. Quixote e Sancho Pança, Bouvard e Pécuchet ou Vladimir e Estragon são apenas alguns exemplos deste modelo. Hélcio e Noel funcionam quase com um espelho; os pontos fortes de um reflecetem-se nas fraquezas do outro. Numa análise quase psicanalítica seriam como um alter-ego simbólico, um do outro. Contudo, é importante recordar que ambos existiram, Noel foi, efectivamente, um dos grandes amigos de Hélcio Carneiro Quintanilha, pai do autor de BD. 

Marcello apresenta diversas opções gráficas que justificam o seu talento. As cenas passadas debaixo de água têm, naturalmente, uma gama cromática bem definida e distinta da realidade à superfície. Quando vemos Hélcio nadando na linha de água, a relação entre as duas realidades, sublinha as palavras que mentalmente debita ao mergulhar: “não era a sensação de entrar na água, quer dizer… era entrar na água… mas ao mesmo tempo não era isso o que o Hélcio sentia… que ele estava entrando na água… mas que ele estava saindo do mundo”. As onomatopeias são reproduzidas graficamente, autêntica banda sonora da narrativa. Da mesma forma, a utilização das filacteras com um delineamento diferenciado, consoante o volume da voz – do diálogo cordato aos gritos mais lancinantes, como durante a tempestade – cria um código visual que permite imediatamente ao leitor estabelecer uma afinidade com a situação e as suas implicações.

O regresso à costa, depois das agruras ultrapassadas, remete para o mito de Ulisses, o herói que retorna a casa e é recebido com o apreço dos vitoriosos e a alegria da sobrevivência. Hélcio assume o seu lugar no mundo do Futebol, mas a viagem deixou marcas profundas, quer nele, quer no seu amigo de sempre. O primeiro momento de glória pública do desportista coincidirá com um paroxismo privado de Noel, acentuando novamente o efeito de relação entre os dois. Passados ligados e futuros ligados. 

Um livro que assenta no domínio pleno da técnica narrativa da BD, influenciado por alguns momentos clássicos da literatura ocidental. Uma história que poderia ter por epígrafe os versos iniciais de um poema de Alexandre O’Neill: «Mal nos conhecemos/ inaugurámos a palavra “amigo».





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