A Divisão Do Poder - Entrevista a Sérgio Godinho por João Morales

A DIVISÃO DO PODER Chama-se Estocolmo, o novo romance de Sérgio Godinho e é protagonizado por uma dupla de personagens, Diana e Vicente. C...


A DIVISÃO DO PODER

Chama-se Estocolmo, o novo romance de Sérgio Godinho e é protagonizado por uma dupla de personagens, Diana e Vicente. Com uma divisão da casa por cenário quase exclusivo, uma relação de poder, embora nem sempre a mais evidente.
Por João Morales

No início deste livro, o Vicente procura um quarto para alugar, que encontra em casa de Diana. O início é bem dos nossos dias…
Sim, é um início banal… entre quartos de estudantes, airbnb e alojamento local… é dos nossos dias, sim. Aliás, todo o início e o envolvimento deles é, propositadamente, banal.

Fui buscar isto porque quando se tratava de debater os teus primeiros discos, salientavas sempre que não eram panfletários, o que não invalida uma abordagem a questões sociais ou ideológicas. Podemos esperar o mesmo nos teus livros?
Não tenho esse propósito, à partida, aquilo que tenho escrito não entra muito no campo da política… quando eu falava nessa questão em relação às canções, é porque sempre tive géneros misturados, uma paleta vasta de estilos.

Essa questão está arrumada, então. Nesta narrativa, muito rapidamente nos damos conta duma atracção entre Diana e Vicente. Ela prende-o num quarto e pretende fazer dele uma espécie de amante privativo, mas privado do resto do mundo.
Não é bem nas primeiras páginas, antes disso eles envolvem-se… ela conta-lhe uma história que teria corrido mal, com um antigo namorado… até porque há todo um tempo de felicidade efémera que ele julga de grande liberdade…

E ela evoca até a homónima Deusa da Caça, Diana. Na mesma página encontramos referência Vénus e a Adónis… porquê este sublinhar das figuras clássicas naquele momento?
Essa figura da Deusa da Caça vai servir mais tarde de atractivo real… a Mitologia ensina-nos muita coisa… é impressionante o que há ali…

Há uma passagem, precisamente quando Diana lhe conta a tal história que referias, “estava a ficar realmente ciumenta. Um pouco a louca da casa. É isso que faz a imaginação, é perigosa, enlouquece-nos”. Há aqui uma forte piscadela de olho à Rosa Montero.
Exactamente, é um livro muito conhecido da Rosa Montero, A Louca da Casa, um livro riquíssimo que eu adoro. No livro ela refere que a Santa Teresa D’Ávila é “a louca da casa”, uma referência directa.

Por outro lado esta parte, a imaginação ser perigosa recordou-me o Goya, e a sua frase “o sono da razão produz monstros”…
Pode ser as duas coisas, a imaginação leva-nos muitas vezes a excessos terríveis se não sabemos jogar com ela. Não é por acaso que as drogas psicadélicas, com a alteração da consciência, nos podem levar para sítios perigosos. E isto não é uma crítica, é uma constatação.
No caso da Diana, ela é extremamente compulsiva e, a par com a imaginação, tem um lago possessivo que ela própria firma que não consegue controlar. Antes o fechar, de o raptar, ela diz “vai ter que ser”. Ela sabe que não está bem, mas tem de ser…

Parece a fábula do escorpião…
Sim, isso mesmo, é da sua natureza!

Diana é uma figura pública, uma estrela da informação televisiva. Mas ela própria protagoniza toda uma vida ocultada. A sua personagem também é simbólica nesses aspecto, uma mulher que divulga segredos e oculta tantos?
Eu achei piada jogar com uma figura pública, porque quando vemos uma pessoa credível, passa-nos uma certa seriedade, mas não sabemos exactamente o que está por trás daquela pessoa. Dá-nos uma impressão – que pode ser falsa – de que aquela pessoa é confiável. Por exemplo, as redes sociais: uma das razões invocadas por quem as usa, é dar uma outra faceta das figuras públicas. Vai de férias, envia fotos das férias, “é o meu verdadeiro eu…”. Não, é aquilo que tu escolhes mostrar e só aquilo que tu escolhes mostrar. Muitas vezes há arrependimentos, mas não se consegue apagar… é uma caixa de Pandora.
Ao Vicente, além do sexo, que com Diana vive de uma forma que nunca tinha vivido, mais intensa, fascina-o também estar na intimidade daquela mulher, que já conhecia enquanto figura pública. Muitas vezes quando estou na rua, há pessoas que me dizem, “eu conheço-o, vejo-o muitas vezes na televisão, o senhor é que não me conhece a mim”. E eu penso: “também não me conheces!”.

Fotografia Tiago Figueiredo

Nessa fase de cativeiro, com um regresso em dias sucessivos, com a promessa de uma libertação adiada, surge uma frase dita por ele, “tomorrow, darling, tomorrow”. Quase nos faz pensar em Sherazade, de forma distorcida. O controlo sobre o final da história começa a passar para o recluso?
Muito efemeramente, porque ele precisa de mais ajuda para se libertar… ele está nas mãos dela. O tema deste livro acaba por ser a dependência, o título evoca o Síndrome de Estocolmo… ele pergunta-se porque não se consegue libertar dela. Muitas vezes, ele sabe que ela não fechou a porta à chave, mas não consegue sair. Estes laços invisíveis, de que eu também falo, e que surgem tantas vezes nas relações, são grades, ou laços, ou cordas, que não se vêem, mas que existem e, muitas vezes, prolongam situações que são até conotáveis com a violência doméstica.

A dada altura ela diz: “Agora beija-me. Não sou eu que te beijo, atenção, és tu que me beijas”. Diana só concebe o amor numa equação de poder, mesmo que não seja ela a comandar?
Porque é ela que está a dar esse poder ao outro.


Logo nas primeiras páginas, lemos: “e ele nem pensava em desconfiar”. Já no romance anterior, Coração mais que perfeito, encontrávamos “mal elas sabiam”; “mal ela sabia” ou “nem eles sabiam”. Porque sublinhas a omnisciência do narrador?
É precisamente isso. Apesar de tudo, o narrador (e o leitor) sabem um bocadinho mais da história do que, pelo menos, uma das personagens. Acho interessante dar algumas pistas. Nas primeiras páginas, há três ou quatro sinais, uns dados pelo narrador, outros pela própria personagem. De certa forma, a Diana também tem necessidade, de uma maneira bastante perversa, que ele perceba o que lhe vai acontecer. Assim como tem necessidade, mais tarde, de contar para o exterior o que se está a passar. É o mesmo processo quer fez com ele, quando lhe contou a história, de forma diferida. E é por isso que ela se disfarça de outra pessoa…

Essa questão do teatro, uma postura teatral mesmo que assumida. Diana dizendo-se Scarlett Johansson, ou semelhante… já no romance anterior havia o delírio do palco, o Artur, um actor que perde a noção dos limites da representação… o que te interessa nesta relação quase doentia com o acto de representar para lá dos limites?
Não foi por acaso que escolhi então um actor. Sim… há uma espécie de over acting… no actor há uma espécie de encarnar pessoas que são diferentes de ti. É uma coisa que, se não for controlada, pode descambar. No Coração mais que Perfeito, o romance anterior, o Artur, uma das personagens principais, está a fazer uma peça a começa a transpô-la para sua pessoa. Inspirei-me um bocadinho no Quem tem Medo de Virginia Woolf?, que é paradigmático.
No fundo, remetendo à fonte, é um bocado a essência da ficção narrativa, daí eu também me pôr na pele de personagens que criei. Trata-se disso, criar pessoas que são diferentes de ti e, a certa altura, funcionares com elas como se fosse pessoas reais. Perseguir as personagens, ver como elas se estão a comportar e o que elas nos perguntam. Pode parecer um cliché literário, mas é real.

Tu começaste a escrever este livro, interrompeste para gravar o disco Nação Valente e regressaste a ele. O que encontraste na mesma e o que tinha mudado?
Enxuguei um bocado a narrativa e achei que havia uma certa confusão, no que respeita às palavras explícitas que as personagens podem dizer, mas que a narrativa não pode dizer. Era um bocadinho óbvio de mais, a questão dos palavrões e de coisas mais explícitas. Por outro lado, a personagem da mãe, que é a terceira personagem e é muito importante… achei que ela estava demasiado conivente com a filha. Ela começa por estar conivente… é uma personagem arriscada, uma mulher de 60 anos, um rapaz de 20…
A Diana foi educada com uma grande cumplicidade com a mãe e achei isso mais interessante. Ela diz bem da mãe, tal como dizia bem do pai… há uma cumplicidade interessante que dá ainda mais ambiguidade à situação.

Não deixa de ser curioso: se, para a filha, o sexo era a marca da prisão, para a mãe acaba por se identificar com a liberdade.
Sim, um outro tema do livro acaba por ser a Liberdade e os conceitos em torno da liberdade. A mãe da Diana acaba por sentir que tem de dar a liberdade… mas depois há ali uma volta…

Como se diz hoje: nada de spoilers! Também neste livro, à semelhança do anterior, arriscas algumas cenas de sexo. É difícil escrever sobre sexo?
É sempre um terreno minado e convém não pisar uma mina. E as minas, temos de as farejar. Ou as trufas, como os porcos. Não tenho de escrever sobre isso em todos os textos, mas em alguns surge… faz parte da vida. O que penso que é que há passagens que só fazem sentido em discurso directo, têm que ver com uma noção de intimidade. A questão do bom gosto ou mau gosto, isso já é mais subjectivo, depende também das pessoas que lêem.

O livro começa com uma frase que surge repetida na pág. 89, com a diferença que da primeira vez é uma frase declarativa e da segunda, uma interrogativa: “basta querer, e há sempre muita história para contar”. De onde surge o ponto de interrogação da segunda versão?
Porque esta segunda versão da frase inicia um naco de prosa com uma descrição do quotidiano dele, aparentemente banal. Esta descrição é um bocado entrarmos na segunda parte em que ele se vai dado conta que, se não fosse a clausura, quase podia passar por um quotidiano banal… só que há esse twist…

Há pouco referias-te ao Vicente referindo “quando ele se torna cativo”. Também já concordámos que ela estaria, de alguma forma, cativa, não diria dos seus vícios, mas das suas opções. Será que o Vicente poderia referir-se a esta senhora, citando Camões, como “aquela cativa que me tem cativo”?
Eu cheguei a ter essa frase nas primeiras versões do livro, mas depois achei que era demasiado, até porque eu canto essa canção muitas vezes, “Endechas a Bárbara Escrava” o poema do Camões com a música do Zeca Afonso. Mas, sim, esse duplo cativeiro também é um dos temas do livro.

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