[Diário de Bordo] Pisa, Florença, Lucca e o Complexity72h!

Foram nove dias em Itália em que deu para fazer de tudo um pouco: passear, relaxar e trabalhar como se não houvesse amanhã. Sexta e Sába...


Foram nove dias em Itália em que deu para fazer de tudo um pouco: passear, relaxar e trabalhar como se não houvesse amanhã. Sexta e Sábado foram passados entre Pisa e Florença. Começando por Pisa. Bem, a verdade é que este belo local da Tuscânia percorre-se a pé em poucas horas. A grande atração é realmente a torre de Pisa, em que centenas e centenas de turistas fazem malabarismos para conseguirem a fotografia mais original com a torre. Seja a puxá-la, a empurrá-la, a esmagá-la, o que for. Confesso, não me dei a esse trabalho, mas deixo-vos mais uma das infinitas fotografias, esta tirada por mim, da torre. A melhor parte de estar em Pisa foi mesmo rever amigos que já não via há uma série de tempo e que são de lá. Numa das noites, inclusive, acabei a ir a um espaço muito agradável à beira rio em que houve um concerto de blues. A noitada foi curta já que havia planos para o dia seguinte: Florença.

Florença não foi o que esperava. A culpa não é da cidade, coitada. Florença é muito bonita, cheia de arte e de vida própria. Os monumentos, as esculturas, os museus, as pontes e os montes panorâmicos fazem a delícia de qualquer um. O problema é que Florença está a sofrer o mesmo mal de muitas outras cidades, um inferno de turismo. É impossível usufruir tranquilamente do que quer que seja no meio de tanta gente. Eu bem tinha planeado ir às galerias Uffizi e a outros locais, mas as filas, os empurrões e a asfixia foram demasiado para mim. Acabei a percorrer o máximo da cidade a pé, subindo ao monte Miguel Ângelo e sentando-me num pequeno quiosque/gelataria a ler o meu livrinho. Regressada a Pisa foi altura de jantar naquele que se tornou um dos meus locais preferidos à beira rio com comida vegana. Foi aí que acabei de ler A mulher que correu atrás do vento, de João Tordo. Mas sobre o livro, mais tarde.

Domingo foi dia de rumar a Lucca, local do propósito da minha ida a Itália, o Complexity72h. Este workshop consiste numa espécie de maratona de 72h em que, dado um projecto e um tutor, o objectivo é submeter uma versão preliminar de um artigo no arXiv no final desse tempo. O ritmo começa de forma agradável. Domingo é dia de visita guiada por Lucca e pela sua riquíssima história, Segunda-feira é dia de palestras e apresentações dos participantes e dos tutores, mas a partir de Terça-feira a coisa começa a aquecer. Antes de irmos almoçar, na Terça-feira, os projectos são então atribuídos a cada um dos participantes. A partir desse momento começam as 72h. Na hora de almoço de Sexta-feira os artigos têm que estar todos submetidos.

Até nisto tive sorte. Fiquei num dos projectos mais interessantes e com grande potencial de impacto no futuro. E agora vou usar estrangeirismos para falar sobre o projecto porque as traduções literais em português são um pouco mais brutas do que o pretendido. Ora então, o artigo que teve origem no projecto tem como título "Evaluating the impact of PrEP on HIV and gonorrhea on a networked population of female sex workers" e tem como objectivo estudar a relação da propagação e prevalência de HIV e gonorreia aquando da administração de PrEP em sex workers. PrEP significa profilaxia pré-exposição e é uma combinação de dois medicamentos (tenofovir e entricitabina) num único comprimido, que impede que o HIV se estabeleça e se espalhe pelo corpo. A PrEP não previne outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) e, portanto, deve ser combinada com outras formas de prevenção, como por exemplo o preservativo.

Tendo em conta estes factores, a administração de PrEP e uso de preservativo, e pegando em dados reais provenientes do Brasil, descobrimos que, quando o HIV é a única doença circulante, a PrEP é eficaz na redução da prevalência do HIV, mesmo com uma compensação de alto risco no uso do preservativo. Não obstante, a complexa interação entre as HIV e gonorreia (a gonorreia aumenta a probabilidade de transmissão de HIV em dez vezes) mostra que diferentes níveis de compensação de risco no uso do preservativo requerem diferentes estratégias de intervenção. Descobrimos também que fornecer a PrEP somente às sex workers mais activas é menos eficaz do que a adoção uniforme da PrEP. O nosso trabalho mostra que os efeitos que emergem das interações complexas entre as duas doenças e as medidas profiláticas disponíveis precisam de ser levadas em conta, a fim de elaborar estratégias eficazes de intervenção.

O artigo está disponível aqui: https://arxiv.org/abs/1906.09085

Como poderão constatar pelas fotos, o processo foi tudo menos fácil, mas a equipa com que trabalhei é mais do que excelente, é mesmo brutal. Na artigo poderão encontrar a lista de autores e, acreditem, sem esta equipa tão particular o que conseguimos teria sido impossível. Houve muita luta, e poucas horas de sono, mas estamos todos bastante orgulhosos do resultado final. 

Em relação às próximas novidades, existem bastantes. A defesa da minha tese de doutoramento está quase aí! Logo a seguir, ou pouco depois, vôo para Amsterdão para a conferência IC2S2 onde vou apresentar um trabalho sobre fairness em sociedades, através de uma abordagem com teoria de jogos, e outro sobre a emergência de equilíbrio social com base na influência por pares. Quando os artigos saírem explico-vos um pouco mais sobre isto! 

Obrigada por se manterem desse lado e até já! 















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