Jazz Im Goethe-Garten 2019 – Synesthetic 4: Esqui ao final da tarde

Quatro contributos para um universo onírico, eléctrico, divagador, mas rígido e contido nas suas premissas. Os Synesthetic 4 trouxeram-n...


Quatro contributos para um universo onírico, eléctrico, divagador, mas rígido e contido nas suas premissas. Os Synesthetic 4 trouxeram-nos da Áustria um jazz cerebral e devedor de algum Rock Progressivo.

Texto: João Morales
Fotos: Hugo Alexandre Cruz

Synesthetic 4. O nome do quarteto austríaco, nacionalidade escolhida para ocupar a terceira sessão da 15ª edição do Jazz Im Goethe-Garten, remete para a união de diferentes planos sensoriais, ou então para uma confusão entre eles. Adequada definição, para um projecto musical que assenta numa aparente simplicidade, mas que retira da contenção toda a extensão sonora que consegue produzir, agregando numa gama reduzida de sons uma viagem mental recompensadora.

A sonoridade que aterrou na Sexta-feira no magnífico jardim do Goethe Institut durante mais de uma hora pautou-se por uma ambiência algo espacial, onde os pedais da guitarra e do baixo, mas também o eco associado ao clarinete de Vincent Pongracz desempenham um papel diferenciador. Sem grandes malabarismos, a articulação entre os quatro assenta no ritmo geralmente desencadeado pela guitarra de Peter Rom, de forma discreta, com poucos acordes e riffs curtos.

Ao longo de todo concerto, Pongracz ostentou um halo, uma espécie de coroa, ornamentada com flores e completada com uma máscara primaveril, o que, associado às invectivas vocais com que iniciou alguns dos temas, dava um certo ar de ritual à sua prestação.

A actuação colectiva decorreu sem sobressaltos nem solos individuais (à excepção de pequenos momentos em que a bateria ou o clarinete arranjaram forma de chamar o foco de atenções sobre si), dando corpo a uma opção musical que assenta na congregação dos quatro, articulando entre si uma música não poucas vezes devedora de algum Rock Progressivo (essencialmente de uma corrente mais suave).

Mesmo quando a prestação de cada um parece pairar, sem que algum dos discursos individuais exerça primazia, antes privilegiando uma ambiência, rapidamente descortinamos que existem passagens previamente acertadas que funcionam como apoios axiais da criação colectiva e permitem reencontros regulares entre os quatro.

Dois dos elementos bisaram a sua presença neste festival. O baterista Andreas Lettner (talvez aquele, dos quatro, que mais arriscou ao longo de o set inscrever-se caminhos distintos, sem que isso pusesse em causa a hegemonia global) integra os Namby Pamby Bopy, que actuaram neste mesmo certame em 2017. Já o guitarrista Peter Rom (que conta no seu percurso com colaborações com Max Nagl ou Elliot Sharp) apresentou-se logo numa das primeiras edições. Manu Mayr, o jovem que assegurou o baixo eléctrico terá sido a figura mais comedida do concerto, apesar de contar no seu percurso artístico com diversos concertos em solo absoluto (em especial com o contrabaixo).

O desporto mais popular na Áustria é o esqui, uma descida elegante e artística pelos fiordes gelados que compõem a geografia branca local. Assim foi, de algum modo, com os Synesthetic 4. Desenharam os seus sulcos, assinalaram uma paisagem pacata e regressaram no dia seguinte ao seu país, logo às oito da manhã, como lamentava em antecipação Vincent Pongracz. No final, fica a confirmação de que o Jazz actual (e, em especial, vários dos nomes escolhidos por Rui Neves, comissário do festival) mantém relações cada vez mais íntimas com o Rock e as suas derivações eléctricas, assegurando, no fundo, uma premissa do próprio Jazz, uma expressão musical que, desde a sua génese, nunca parou de aglutinar, mesclar e envolver todas as manifestações musicais que o Século XX foi gerando.







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