Sugestões de Natal, por João Morales: Manual do Bom Fascista, de Rui Zink

Manual do Bom Fascista Rui Zink Ideias de ler 176 págs 15,50 euros Poder-se-ia dizer que se trata de uma sátira, construída f...


Manual do Bom Fascista
Rui Zink
Ideias de ler
176 págs
15,50 euros

Poder-se-ia dizer que se trata de uma sátira, construída formalmente como um guia de ajuda, tendo em conta o humor e a compreensão como ferramentas para a canalização de um texto suficientemente acessível. Mas seria redutor.

Rui Zink aproveita para denunciar o irrazoável que habita em cada um de nós, tantas vezes acantonado nas mais profundas certezas, das quais não abdicamos, pelas mais nobres razões, é bom de ver.

O alinhamento do discurso deixa-nos a ponderar como, apesar da bondade das intenções de cada um (e já sabemos que, quando mundo se divide em justos e injustos, são os primeiros a fazer a divisão) existem pequenas intransigências que, quando exacerbadas, levam à discriminação, a um sentimento de plena posse da razão, a uma incapacidade de lidar com a diferença – de ideias, posturas, hábitos, crenças, gostos…

Há exercícios propostos, pequenos testes que convidam à reflexão, relatos apoiados no mais evidente e ingenuamente real quotidiano, até mesmo algumas alfinetadas em torno da polémica questão do Acordo Orográfico. Ou ainda da bem contemporânea questão de Género: «no fundo, as mulheres sempre tiveram imenso poder; não era preciso o voto para nada».

Ao convidar-nos a questionar algumas das perguntas ou exclamações mais típicas dos nossos dias, Rui Zink estende o pano de fundo que serve de cenário para a sua encenação, demonstrando como, no limite, não há categorias puras de seres impolutos e libertos de qualquer forma de fascismo – isto, encarando o termo no seu sentido mais amplo, muito para além da suas da sua definição histórica académica, e que é, justamente, um dos argumentos para isentar derivações dessa mesma prepotência endémica.

Há que ter cautela com livros desta natureza e não permitir que sejam lidos para além do seu carácter meramente lúdico, caso contrário, ainda poderiam desencadear algum tipo de raciocínio mais flexível e liberto de espartilhos prévios face à catalogação dos movimentos s tendências ideológicas. No Ensino, por exemplo. «E todos sabemos que a escola não é para meter ideias. A escola é para ensinar», como escreve o autor, ele mesmo professor durante toda a sua vida profissional.

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