Jazz 2020: encerramento em dose dupla, por João Morales

© Fundação Calouste Gulbenkian – Vera Marmelo O Jazz 2020 encerrou com uma dupla prestação, Lantana, um colectivo assente na improvisação e ...


© Fundação Calouste Gulbenkian – Vera Marmelo

O Jazz 2020 encerrou com uma dupla prestação, Lantana, um colectivo assente na improvisação e João Mortágua – Dentro da Janela, um quinteto alegre e dinâmico.
João Morales

Já, por mais que uma vez, explicaram a origem do nome. Lantana é uma planta, cujas flores podem ter cores bastante diferentes. Uma metáfora para a diversidade que encaram como mote, na vida e na criação musical. Sexteto exclusivamente feminino, abriram a última noite do Jazz 2020, o festival criado para substituir o habitual Jazz em Agosto, no anfiteatro da Fundação Calouste Gulbenkian, recorrendo apenas a músicos portugueses ou residentes em Portugal.

A música destas seis mulheres assenta numa cumplicidade sonora, surgindo por improvisação livre, embora combinada entre os seis instrumentos. Uma formação que conta com três cordofones (dois violoncelos - Joana Guerra e Helena Espvall e um violino – Maria do Mar), um trompete (tocado com surdina e o auxílio de alguns efeitos), uma voz (Maria Radich), um trompete (Anna Piosik) e a electrónica manipulada (por Carla Santana).

O ambiente remete para o que se poderia chamar uma improvisação de câmara, com intervenções curtas de cada interveniente, todas entrelaçadas, o que resulta na malha sonora para a qual todas contribuem de igual modo. O violino funciona como um vértice. Os dois violoncelos alternam entre a construção comum de um pilar rítmico, seguro e possante, destinado a acolher sonoridades laterais e o manuseamento de um dele através do dedilhado, como um pequeno contrabaixo.

O texto dito por Radich funciona como um mantra, não são as palavras em evidência, mas a textura, entre um sussurro fantasmagórico ou onírico e o estraçalhar da escala, evocando influências de Lauren Newton ou Maggie Nicols. Em redor dos três instrumentos de cordas, saltitam o discreto trompete de Piosik, com surdina, levando amiúde a pensar em Jon Hassell. Muitas das vezes, aliado próximo dos efeitos gerados por Santana, como um curioso amplificar de água vertida, fazendo do microfone o instrumento. Cerca de 30 minutos, durou esta (demasiado) curta actuação, preenchidos com um tema único.

Mas a noite era de visita dupla e seguiu-se o quinteto Dentro da janela, liderado por João Mortágua. Essencialmente em alto, mas com uma excelente prestação no soprano, acompanhado por José Pedro Coelho (saxofone tenor), 
Miguel Moreira (guitarra), José Carlos Barbosa (contrabaixo) e José Marrucho (bateria).

Os cinco músicos passearam-se por um pós-bop encorpado e alegre, com alguns momentos de diálogo, mas sem nunca se assistir a um “duelo de saxes”. A guitarra de Miguel Moreira, aparelhada com pedais e efeitos, que, contudo, não escondem uma técnica apurada e aperfeiçoada, funciona como elemento fundamental no grupo, concedendo-lhe uma tonalidade identitária especial. Um léxico que comporta ecos, repetições e o uso cuidados do delay, o efeito de atraso no som que permite repescá-lo e utilizá-lo de novo. Um músico a manter debaixo de olho.

Os dois sopros visitaram espaços musicais habitados pelos fantasmas de Pharoah Sanders ou Henry Threadgill, pela dimensão espiritual experimentada, ou pela evidente componente lúdica, construindo um pequeno jogo de encaixes em que a diversão era evidente. Um ou outro momento, denunciando leves toques de Funk ou Bossa, completavam o ramalhete.

O tema em que Mortágua pegou no soprano levou-nos para outras paragens, até mesmo para um certo ambiente de Jazz-rock que poderia ser herdeiro dos Embryo (de Charlie Mariano) ou The Whole World (com Lol Coxhill), com uma melodia em crescendo que acabou por se espraiar. Uma última nota para a presença de José Marrucho, que já escutáramos no concerto de abertura do festival, com o colectivo Coreto, mas que, neste contexto, se revelou muito mais interventivo e dinâmico.

Este segundo concerto durou perto de hora e meia. Foi o encerramento desta iniciativa, preenchida pelas escolhas musicais de Rui Neves, concebida para assegurar que o Jazz, em Agosto, marca presença na Fundação Calouste Gulbenkian, mesmo quando a audiência é totalmente composta por mascarados, forçosamente afastado entre si por (dois) lugares vazios. Todos queremos voltar a ver aquele auditório a abarrotar…

© Fundação Calouste Gulbenkian – Vera Marmelo

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