Entrevista a Bruno Vieira Amaral, Escritor Português

Entrevistar autores portugueses, nos seus mais variados estilos e géneros de escrita, tem sido uma experiência fantástica. Ultimamente, par...

Entrevistar autores portugueses, nos seus mais variados estilos e géneros de escrita, tem sido uma experiência fantástica. Ultimamente, parece que o aparecimento de novos autores portugueses escasseia (ou assim me parece a mim), mas depois, e quase sem aviso prévio, surge um que ao primeiro romance já deixa a sensação de que de inexperiente tem muito pouco ou mesmo nada. Bruno Vieira Amaral estreou-se nos romances com As Primeiras Coisas, mas serão poucos os que, ao ler esta história passada no Bairro Amélia através de uma escrita ousada e sem precedentes, ficarão com a sensação de que Bruno é novato nestas andanças. Curiosos? Saibam mais sobre o autor e respectivo romance na entrevista que se segue. Obrigada, Bruno, pela disponibilidade e simpatia.


Fala-nos um pouco sobre ti:
O meu nome é Bruno Vieira. Tenho 35 anos. Sou casado. Tenho dois filhos. Trabalho como assessor de imprensa no Grupo Bertrand Círculo. Escrevo na revista Ler. Faço traduções. Tenho um blog (Circo da Lama) ao qual não tenho dado muita atenção ultimamente. Escrevi um Guia Para 50 Personagens da Ficção Portuguesa (Guerra e Paz) e, agora, um romance (As Primeiras Coisas, Quetzal). Sou benfiquista, agnóstico e ex-fumador. Admiro profundamente Albert Camus, François Truffaut, Charles Aznavour, Martin Scorsese, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Como não tenho religião, são estes os meus santinhos. Como não acredito na felicidade como um estado permanente posso pedir emprestadas as palavras de alguém que disse: “Je ne suis pas heureux, mais je me sens bien.”

Como caracterizas o teu estilo e ritmo de escrita?
Neste livro, o estilo é a combinação de vários estilos e de vários registos. Não o consigo classificar de modo mais exacto. Procurei adequá-lo às características de cada personagem para que os dois – estilo e personagem –funcionassem como uma unidade.

Quais as tuas maiores influências?
Tudo o que tenha palavras escritas: de jornais desportivos à Divina Comédia. Também sou influenciado pelas pessoas que viajam nos transportes e pelo clima.


As Primeiras Coisas é o teu primeiro romance. O que é que te motivou a escrevê-lo? Tens alguma parte que te tenha dado mais gosto escrever?
Resgatar pessoas do esquecimento. O prólogo, o epílogo e tudo o que está entre um e o outro. Mas se tiver mesmo de escolher, escolho o capítulo Sons – Um Inventário.

A sua estrutura, diferente do romance convencional, deve provocar diferentes reações nos leitores. Que feedback tens recebido em relação a esse aspecto?
Uns acham que o prólogo é demasiado longo, outros acham que há uma quebra quando se passa do prólogo para o “dicionário incompleto”, há quem ache o epílogo a melhor parte do livro, outros consideram-no uma desilusão. Todas as opiniões são legítimas e fico agradecido por elas e por ver os leitores a pensarem e a discutirem os aspectos formais da literatura, a questionarem não só se a Maria devia ficar com o Manel, mas também os processos da construção narrativa, da leitura e o seu papel enquanto leitores.


Essencialmente quando escreves, sentes que escreves para quem?
Escrevo para os meus avós que já morreram. Escrevo para os meus filhos que um dia hão-de ler o que escrevi. Escrevo contra um gajo que me bateu quando eu era miúdo. Resumindo: escrevo para um grupo de pessoas que já não me pode ler, para outro que ainda não me pode ler e para um tipo que muito provavelmente não sabe ler.

De que maneira é que a tua profissão enquanto editor e crítico literário, influenciou a tua escrita?
Na verdade, eu não sou editor. Trabalho como assessor de imprensa do Grupo Bertrand Círculo (que inclui a editora Quetzal). Claro que gosto de acompanhar o trabalho dos editores porque isso é útil para as minhas funções e porque gosto de perceber o funcionamento da máquina editorial. Quanto à escrita, espero que não seja contaminada pela diplomacia e educação que tenho de usar no meu trabalho diário. O trabalho de crítico literário, mais do que influenciar aquilo a que imodesta e exageradamente chamarei de meu estilo, serviu para ler muitos livros que, noutras condições, não teria lido. Livros que me mostraram o que eu queria e o que eu não queria fazer. Obviamente que depois sentei-me a escrever o meu romance e esqueci-me de todas as regras que fui coleccionando na minha actividade de crítico literário.


Qual a tua opinião sobre a receptividade do público português a novos autores portugueses?
A relação do público – português ou sioux – com o que é novo é sempre de desconfiança. Isto quando o público dá pela existência do que é novo, o que na maior parte das vezes nem sequer acontece. Normalmente tenta-se ultrapassar essa resistência natural recorrendo a duas estratégias que irei explicar no fim. Antes disso, vou aproveitar para dissertar um pouco sobre a sociedade de consumo, que funciona desta forma um tanto contraditória: as pessoas querem aquilo que já conhecem e de que gostam; chamemos a este factor o factor de previsibilidade e de confiança. Isto aplica-se a uma pasta de dentes, a um desodorizante, a um detergente para a máquina. Ao mesmo tempo anseiam por coisas novas que as surpreendam positivamente e para as quais não têm nome: uma pasta de dentes assim mais coiso, ou um desodorizante mais não sei o quê ou detergente para a máquina que não deixe os copos baços. Então as empresas que produzem estas coisas oscilam entre dar aos consumidores “mais do mesmo” e “surpreender”os consumidores com uma nova fórmula anti-oxidante ou com ómega 3, que no fundo é mais do mesmo pensado por um tipo do marketing. Os livros cada vez mais são tratados como produtos de consumo e não como expressão artística de um indivíduo, como um bem cultural (também é verdade que a maior parte dos livros não cabe nessa categoria). Isto leva-nos às estratégias adoptadas para se vencer a resistência dos leitores ao que é novo: a primeira é a de vender o novo com roupagens antigas, comparando o novo escritor a pretensos antecessores ilustres (o novo Kafka, o novo Borges, o novo Eusébio) para que o leitor fique descansado e não tenha medo de entrar tão depressa nessa noite escura. A segunda estratégia é a de transformar o novo numa categoria autónoma e altamente positiva, daí que se fale habitualmente na nova geração, nos novíssimos, nos hipermeganovíssimos e dos tão estupendamente novíssimos que ainda antes de escreverem uma letra já estão velhos (o tempo que um escritor pode permanecer nesta categoria varia entre os cinco minutos e os trinta anos). Portanto, tentando resumir a coisa: eu diria que a receptividade do público português a novos autores portugueses não é das melhores e que, para combater essa tendência, os novos autores, em vez de se estrearem com um primeiro romance deviam estrear-se com um terceiro romance. Ou com um desodorizante que não manche a roupa preta. O que eu gostava mesmo é que o público português fosse mais receptivo a escritores de qualidade, aos novos, aos velhos e aos assim-assim, portugueses ou sioux.

Enquanto escritor que projectos tens em mente para o futuro?
Tenho um projecto ambicioso de registar a patente de uma máquina do tempo para depois escrever um livro sobre o assunto e enriquecer com a venda de direitos.

Pergunta da praxe: Já conhecias o blog BranMorrighan? Que opinião tens do mesmo?
Devido às minhas funções na Quetzal já conhecia o blog. De todos os blogs literários que já me entrevistaram posso dizer que é o melhor.


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A minha opinião sobre As Primeiras Coisas pode ser lida aqui

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