[Reportagem] Boogarins no Musicbox — Tropicalismo renascido

Fotografia por Sofia Teixeira Ontem, eu e o Tiago Silva fomos ver Boogarins ao Musicbox. Dado os recados da semana  ainda por tratar,...


Fotografia por Sofia Teixeira

Ontem, eu e o Tiago Silva fomos ver Boogarins ao Musicbox. Dado os recados da semana ainda por tratar, adianto a reportagem na escrita do Tiago Silva que já antes comentou sobre o concerto de Dead Combo no Coliseu e a estreia do filme O Homem Duplicado. Da minha parte, ficam a faltar as fotografias e mais algumas palavras que conto, no máximo, amanhã ter publicadas. Entretanto, fiquem com o texto do Tiago, que faz jus à excelente noite de que fomos testemunhos. 

__

Antes de fazer uma análise propriamente dita de tudo o que se passou ontem no Musicbox, convém referir, primeiro que tudo, que as noites Teach Me Tiger continuam a ser dos eventos mais interessantes e recompensadores da capital, constituindo uma oportunidade incomum para assistir aos primeiros passos de bandas que se irão afirmar facilmente no panorama musical. Neste regresso da curadoria de The Legendary Tigerman, foi possível perceber que o ritmo destas sessões não abrandou e os Boogarins, depois da breve passagem na noite anterior pelo Milhões de Festa em Barcelos, mostraram a quem ficou por Lisboa que toda a atenção que têm recebido por parte da crítica é mais do que justificada.

Os brasileiros vieram apresentar As Plantas Que Curam, aquele que é um dos melhores discos do ano passado pela sinceridade e frescura tão próprias à sua sonoridade. Mas o mais interessante na banda é observar que, apesar de toda a sua aparente espontaneidade e despreocupação, as origens nunca são esquecidas ou postas de parte. Pelo contrário: o psicadelismo estonteante dos Boogarins só é possível a quem passou a adolescência inteira a ouvir Os Mutantes e Caetano Veloso, desejando vir um dia a homenagear tudo aquilo que a Tropicália teve para oferecer. E foi precisamente isso que aconteceu, quase de um dia para o outro (os Boogarins têm uma história que merece ser conhecida) e que ficou confirmado ontem no Cais do Sodré — estamos perante um novo tropicalismo.

Ao vivo, o som dos Boogarins é bem mais denso e alucinante do que no seu único álbum até à data, sendo que grande parte das músicas recebe arranjos inesperados e que são, não raras vezes, produto do acaso. Há mais espaço para o improviso e para o descalabro provocador da distorção das guitarras e isso verifica-se logo que surge a segunda música do alinhamento, Lucifernandis, um dos temas mais cativantes da banda. É agradável notar que o público se entrega facilmente ao tom animado do concerto, entoando em conjunto a história da «menina perdida no céu azul», talvez a mesma de que os Beatles nos falam em Lucy in the Sky With Diamonds. Todo o universo musical dos Boogarins é feito de referências como esta, e tentar descobri-las por entre as letras das suas músicas é uma tarefa curiosa, provando que, apesar da sua tenra idade, os músicos já sabem bem aquilo que fazem.

Logo de seguida, Hoje Aprendi de Verdade e Infinu encabeçam os momentos mais marcantes de todo o concerto, com sequências tão delirantes que se torna impossível não acreditar que os Boogarins ainda não andavam por cá, quando se viveram os melhores anos da música psicadélica. É o caso daqueles longos minutos hipnotizantes em que Fernando Almeida, de enorme sorriso nos lábios, repete «Ser para ser / Ou não ser para ter» enquanto os riffs repetitivos criam um transe que leva a maior parte do público ao headbanging ou de quando este pede o infinito, «não todo, mas todo ele em fracções». Há uma poesia muito simples na música dos brasileiros que permite uma forte empatia com a mesma e esta honestidade, por começar a ser rara nas bandas actuais, merece atenção.

Despreocupar acalma os ânimos durante um tempo, mas a tranquilidade não dura muito. Erre, de fulgor violentíssimo, começa repentinamente e ainda na introdução, torna-se difícil não pensar na Solitude is Bliss de Tame Impala. De facto, alguém atrás de nós grita «Tame Impala brasileiros!» e a banda não esconde uma gargalhada orgulhosa. Os pedidos para que toquem Doce multiplicam-se na plateia e os Boogarins, que voltariam para a tocar em encore, decidem não sair do palco e atacar imediamente o single de uma forma bem mais rápida e caleidoscópica do que seria de esperar — e ainda bem, conferiu ao final uma aura apoteótica. No final, ficou o contacto apaixonado com os fãs: os agradecimentos, os autógrafos e as inúmeras dedicatórias. Os Boogarins vão ser muito grandes. E em muito pouco tempo.

Texto de Tiago Silva

0 comentários