Entrevista a B Fachada, Músico Português [Banda Fusing]

Bernardo Fachada, uma das caras da nova música portuguesa, lançou recentemente o seu décimo terceiro disco, novamente homónimo - B Fachada....

Bernardo Fachada, uma das caras da nova música portuguesa, lançou recentemente o seu décimo terceiro disco, novamente homónimo - B Fachada. Após cinco anos e meio de intensa produção, doze discos, parou ano e meio e se muitos estão convencidos que o B caiu, e que agora é só Fachada, desenganem-se. Ele continua com o B bem presente no seu nome artístico e, a propósito do festival Fusing, aceitou falar comigo sobre a sua carreira e o seu futuro. Uma conversa muito bem disposta em que desvendei não só a questão do B, como descobri que se o Bernardo escrevesse um livro, seria uma novela! Entre um e outro, falou-nos então da sua música e o seu percurso. 

Não pude começar a entrevista, sem interrogar Bernardo Fachada sobre o boato do seu nome artístico original – B Fachada – ter perdido o B e passar a ser só Fachada. Ele esclareceu, foi apenas um mal entendido: «Isso foi um equívoco, não foi uma cena a sério. Eu não posso mudar de nome, é o meu nome – Bernardo Fachada. Eu tinha dito ao pessoal que trabalha comigo que ia começar a usar só Fachada, em algumas circunstâncias, em tom de diminutivo. E eles puseram isso como se fosse uma mudança de nome. E, claro, toda a gente se agarrou ao fait diver. Toda a gente gosta de agarrar aos faits divers e eu agora vou ter de recuar um bocado com isso. »


Mas será que era um desejo do Bernardo, ficar só Fachada? Ele respondeu-nos: «Ninguém me trata por B Fachada. No meu círculo de amigos, tratam-me todos por Fachada, e era nesse sentido, não para mudar o nome artístico.»


Antes de ser músico, B Fachada começou por estudar Física no Instituto Superior Técnico, passou pelo curso de Literatura na Universidade Nova, na FCSH, mas foi a música que falou mais alto. Quis saber mais sobre este caminho atípico: «Eu fui para Literatura para ter aulas com o Alberto Pimenta. Sempre estive muito ligado à literatura, sempre escrevi e isso tudo. Naquela coisa do percurso académico, acabei por ir para as ciências porque achava que ia sempre aprender mais nas ciências do que num curso de literatura. Mas depois, principalmente, essa necessidade de estar com o outro lado com o Alberto Pimenta, que foi um dos autores principais da minha adolescência, acabei por achar que tinha razões suficientes para ir para um curso de Literatura.»


Já o salto para a música, acabou por se dar naturalmente: «O meu pai sempre me habitou com muitos disco e cresci a ouvir muita música. Depois, até aos 18 anos estudei música. Parei uns tempos, mas, mais tarde, na faculdade, conheci o Luís Nunes – o Walter Benjamin. Eu disse-lhe que tocava, ele disse que precisava de alguém que tocasse com ele e mostrou-me as coisas dele. Fui tocar com ele e depois ele emprestou-me um gravador para eu tocar as minhas canções. (risos)»


A carreira do músico B Fachada já começou há alguns anos. Questionei-o quanto ao seu percurso, de que forma é que a sua vida mudou com a entrada na música e que balanço é que faz: «Não tenho razão de queixas. Comecei como amador e acabei como profissional. A minha vida mudou muito, a minha maneira de fazer música mudou muito, aprendi muita coisa. A diferença do primeiro disco para os últimos é muito grande. Até é difícil ver tudo como uma mesma coisa. É uma mesma coisa, mas foi um percurso que nunca esteve estável, esteve sempre a mudar.»


Dado em cinco anos ter produzido doze discos, e baseada nessa constante evolução, perguntei-lhe se o ritmo a que produzia o disco estava relacionado com a procura de uma sonoridade com que realmente se identificasse: «Não, apenas acho que é assim que se deve fazer. Nem tenho meios de fazer de outra maneira. Se calhar é o meu lugar na “classe média musical” (risos). Não tenho dinheiro apra estar dois meses em estúdio para fazer um disco. Portanto, se só posso estar uma semana em estúdio, não faz sentido o disco demorar seis meses a sair. Ao mesmo tempo, não tenho público para fazer um disco apenas de quatro em quatro anos. Tenho que estar sempre a fazer discos porque é essa a minha dimensão. Prefiro assim. Em vez de estar a partir a cabeça a tentar aperfeiçoar sempre tudo até não poder mais, faço o trabalho de outra maneira. Vou fazendo os discos e quando encontro imperfeições, faço outro.»



Já em relação às letras das músicas, a grande característica nos discos de B Fachada é o traço crítico, mordaz muitas das vezes, e incisivo. Exemplo disso é o disco «deus, pátria e famíia». Perguntei-lhe se era propositado ou se havia alguma intenção subjacente: «Acho que o conteúdo da letra acaba por não ser o mais importante, numa canção. Apesar de tudo, o que mais passa para o conteúdo é o meu feitio, o que penso, não vou escrever sobre coisas que não me interessam. Então acaba por ser as duas coisas: por um lado, não é um objectivo, não se trata de expor ideias, pelo contrário, aqui trata-se de expor canções. Por outro lado, o que passa para as canções é o feitio de quem as escreve e as conversas que tem no dia-a-dia. No caso do “deus, pátria e família”, fazia parte do próprio conceito do disco. Era uma música para adultos, e basta mencionar certas palavras para tornar numa música de intervenção. Dá para criar um jogo de expectativas. É uma música que tem, quase na mesma proporção, o lado político e o lado íntimo – o lado erótico. Na altura, achei que era a temática certa para adultos – o eu e o outro, o pessoal e o social.»


A diversidade é ponto assente na sua discografia: «Eu uso o conceito geral dos discos para ter um caminho. Sei que quando me sento ao piano ou à guitarra, não sai nada que não seja eu, que não seja o B Fachada. Então posso experimentar qualquer coisa e colocar qualquer desafio que sei que o que vai sair vai ser coerente. É aquilo que eu faço o dia todo. »


Aquando do lançamento do disco Fim, B Fachada contou-nos que a pausa já estava programada há muito tempo. O porquê deve-se ao facto de ele querer virar o jogo e porque durante cinco anos não teve férias de todo. Esse virar o jogo é justificado com a necessidade de tentar alguma coisa diferente, novos projectos, mas não se concretizou: «Eu quis virar o jogo, mas ele virou-se contra mim! (risos)»


A sua postura descontraída, e até o facto de ter aparecido numa edição da Playboy «Tinha de ser! (risos)», atribuem-lhe uma imagem musical de alguém que não se importa com que os outros pensam, mostrando bastante segurança no seu trabalho. Confrontado com esta minha opinião, ele contrapôs: «Eu percebo que passe essa imagem, mas a verdade é que isso dá mais trabalho do que parece. Ou seja, principalmente em relação à língua, para a língua ser espontânea e natural, dá muito mais trabalho do que não parece. Se eu fizer uma letra espontaneamente, sai a coisa mais forçada do mundo. Só sai espontânea se eu passar horas à volta daquilo. Tudo interessa – a métrica, o ritmo, tudo. Nós não somos tão fluidos nem naturais como pensamos. Se fôssemos todos muito espontâneos éramos todos muito parecidos. No processo de criação, não sou nada natural, é preciso muito trabalho. Muitas vezes espero um dia inteiro e a música não sai. Eu penso sempre que não vou conseguir fazer mais músicas. Há já muitos discos que penso assim. Eu não tenho esta profissão porque tenho um talento, tenho esta profissão porque é o que faço o dia todo. Faço mais canções que os outros todos, porque é o que eu faço o dia inteiro. No dia-a-dia, nunca é uma questão de vocação, mas de dedicação.»

Quase a terminarmos, perguntei-lhe quais as suas principais referências musicais e literárias que tenham marcado o seu crescimento. A resposta levou-nos a conhecer a sua visão sobre o que separa, para si, a música da literatura: «Na música, o Zeca (Zeca Afonso). É incontornável. Na literatura, Pimenta, Aquelino, Camilo. São os grandes escritores do ofício. São os que publicam mais e com mais fases, mais variação. Se algum dia me dedicasse à literatura, seria à literatura erudita. Acho que tem um carácter artístico que a minha música compensa com o lado artesanal. Eu vejo a música como mais uma forma de arte, principalmente porque estudei música erudita. Interessa-me mais fazer uma coisa que dure menos tempo, mas que tenha mais imapcto, do que fazer uma coisa que dure mais tempo, mas que tenha menos impacto. Na literatura funciona completamente ao contrário. Tenho mais carinho com livros que duram mais tempo e que têm um carácer muito mais universal, do que na música. Na música gosto de ouvir o efémero. Gosto de ouvir música que dez anos depois já não existe.»


Para terminar, que livro acham que o B Fachada escreveria? «Uma novela! Nem um conto nem um romance. (risos) Acho que é o que mais falta faz.  Entre 60 a 80 páginas.»


Neste momento, passada a pausa de ano e meio e os concertos do 25 de Abril, já existe um novo disco B Fachada, homónimo, disponível no bandcamp, e cujas músicas poderemos ouvir no Fusing Culture Experience!  

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