[Crónica Filipe Faria] Mais Palavrões

Mais Palavrões Filipe Faria Aviso geral: Sou um preciosista, um logófilo assumido e inveterado. Tenho um documento de 36 páginas divid...

Mais Palavrões
Filipe Faria

Aviso geral: Sou um preciosista, um logófilo assumido e inveterado. Tenho um documento de 36 páginas dividido por categorias como “Armas”, “Fisionomia” e “Sons”, sou adepto da escola de leitura que recomenda andar sempre de caneta em punho quando se lê, e a minha colecção de livros ficou imprópria para empréstimos em resultado disso. Não tenho arrependimentos, mas é por demais evidente que tenho algumas justificações a dar.

No seguimento da minha anterior entrada, venho hoje falar-vos de outro tipo de palavrões, no sentido de “palavras grandes e que se pronunciam dificilmente”, a sesquipedalia verba que Horácio desaconselhava na sua Arte Poética. Um dos apanágios da minha escrita sempre foi a utilização de um vocabulário mais... enfim... elaborado, dirão uns, pretensioso, afirmarão outros. Sempre agradeci a primeira e nunca deixei de compreender a segunda, pois tenho perfeita consciência de que, embora longe de serem densos, os meus livros nem sempre são de leitura fácil, e por “fácil” entenda-se “fluida” ou “ininterrupta”, que isto de obrigar o leitor a reler algo nem sempre é bom, e obrigá-lo a ir consultar o dicionário em detrimento de continuar o processo de leitura tanto menos o é. Mas será mesmo assim...?

A resposta fácil e diplomática seria que sim, que o simples é sempre preferível ao complicado. Já Ernest Hemingway o disse em termos bem claros e no seu estilo caracteristicamente conciso, quando William Faulkner desdenhou a escrita dele por nunca obrigar um leitor a consultar o dicionário: “Pobre Faulkner [...] grandes emoções vêm de palavras grandes? [...] Eu conheço-as, sim. Mas existem palavras mais antigas, mais simples e melhores, e são essas as que eu uso”. Hemingway faz de compincha do leitor, colocando-se do lado dele na contenda pela inteligibilidade da escrita, e só a sua inegavelmente brilhante prosa o salva de uma acusação de optar pela via do menor esforço para ambas as partes, tanto a do escritor como a do leitor. Sim, porque isto de conseguir uma escrita simples sem que ela seja simplista é tudo menos fácil, por isso honra lhe seja feita.

Dito isto, puxando a brasa à minha sardinha e defendendo a minha grandiloquente dama, ainda que as vantagens de uma escrita simples, concisa e directa sejam evidentes, é errado fazer juízos de valor absolutos quando se a compara a uma escrita, digamos, mais rebuscada. Além da diferença de tonalidade entre autores e os tópicos que eles exploram, uma coisa é escrever sobre vinhas, tripas de peixe e pombos assados em Paris, outra é transportar o leitor para um mundo diferente daquele em que vive, para um passado tirante a um medievo fantasiado, do qual o leitor pouca ou nenhuma referência terá. Da mesma forma que optei por nomes como Aewyre em vez de André, escolho dizer que os pingos de uma vela caem na sua arandela, em vez da “parte saliente da boca do castiçal”, ou que um salteador andrajoso empunha, não “uma espada de má qualidade”, mas um chanfalho. Qualquer uma das escolhas (menos a do André, bem entendido) desempenha a sua função, mas fá-lo de uma forma diferente e tem as suas vantagens e desvantagens; cabe então a um escritor pesá-las e decidir se as vantagens favorecem ou não a sua prosa mais do que a alternativa, e quais as desvantagens que pesam menos na mensagem e ambiência que procura transmitir.

Ora, se uma palavra invulgar é bela, apelativa a nível sonoro, tem ritmo adequado ao fluir do texto — e, já agora, significa exactamente aquilo que se quer dizer, sem tirar nem pôr nem ter de fazer uso de uma frase inteira para definir um só vocábulo — porque não usá-la? Porquê evitar certas palavras a todo o custo e vetá-las ao esquecimento, empobrecendo gradualmente a nossa língua (e não me venham com a conversa da evolução das línguas, porque as línguas evoluem por acreção, e não por mudas de pele)? Simples: porque o conforto do leitor se sobrepõe a tudo o mais, uma vez que o contrato entre um escritor e um leitor é a coisa mais desigual que existe. É verdade. O leitor não precisa do escritor, mas o escritor precisa do leitor, se não para escrever, então pelo menos para ser publicado e poder ambicionar a viver da escrita. Quaisquer interesses e objectivos que o escritor possa ter são justamente relegados para segundo plano, e se o leitor não gosta de ver interrompido o seu processo de leitura, como um vocábulo desconhecido tende a fazê-lo, então o escritor só tem é de calar e engolir. É essa uma das mais importantes cláusulas do contrato que assina com cada leitor: o seu livro deve ser legível. Mas esse contrato implica também uma prestação de serviços, e é aí que a coisa adquire algumas nuances passíveis de serem interpretadas como condescendência, pois, embora os livros de ficção sejam actual e justamente relegados a meras fontes de entretenimento — e da mesma forma que, digamos, um cabeleireiro também nos pode dar sugestões para penteados ao cortar o nosso cabelo — também os escritores tentam passar alguns recados enquanto contam as suas histórias. Uns tentam transmitir mensagens sócio-políticas, outros tentam fazer valer os seus pontos de vista acerca de temas da actualidade, e outros ainda apregoam as suas crenças ou modo de vida. Para alguns leitores, esses “serviços extra” podem ser um bónus agradável, uma corroboração daquilo em que acreditam, ou um peso morto que não acresce qualquer valor ao entretenimento que extraíram do livro. Neste caso em concreto, palavras difíceis exigem esforço da parte do leitor — seja porque o obrigam a reler uma frase para tentar decifrá-las através do contexto, ou porque o forçam a pousar o livro e ir consultar o dicionário — e o esforço não vinha incluído no contrato que ele assinou. Razão pela qual convém que o leitor receba alguma coisa em troca.


E assim voltamos ao início, porque agora removo a minha máscara de advogado do diabo e revelo-me novamente como logófilo desprovido de escrúpulos e remorsos. Pois a coisa que o leitor recebe em troca é um vocábulo novo, uma nova ferramenta para o seu arsenal linguístico que, ainda que ele nunca venha a usá-la ou que represente um objecto que já nem existe, nunca deixará de o ajudar a compreender melhor o maravilhosamente complexo mundo em que vivemos e que desde tempos imemoriais procuramos circunscrever, segmentar, e definir através das palavras. A inteligibilidade é essencial na comunicação, certamente, mas nada bate o conhecermos e sabermos definir as coisas pelos seus nomes, reduzi-las à sua essência numenal. O que é uma forma excessivamente elaborada, quiçá sofística, de dizer: deixem as palavras invulgares em paz, que elas também têm lugar nos livros. Nunca deixem de pôr o escritor em sentido, se acharem que ele está a abusar do contrato, e estejam à vontade para o acusarem de pretensiosismo e afectação quando ele não encontra o tão ambicionado equilíbrio entre a expressividade e a clareza, mas procurem manter a mente aberta para com palavras desconhecidas, porque elas vo-la expandirão. A leitura não é um processo passivo, afinal de contas: é um processo mental activo, razão pela qual é tão edificante. Ainda que daí possa resultar alguma perda, nomeadamente a daquele momento em que o leitor se vê estilisticamente encantado pelo escritor e entranhado no mundo em que este o procura imergir, sou da opinião de que essa ocasional perda é preferível à aceitação passiva da representação desse mesmo mundo. O leitor que trabalhe um pouco (de certeza que há alguma referência a isso algures na letra miúda do contrato), e só terá a ganhar, tanto na fruição do livro como a nível pessoal.

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