E agora, o que se segue? [Diário de Bordo L] Não sei mais como dizer adeus. O Luís Miguel Rocha morreu.

Devem haver milhentas formas de dizer adeus, mas eu ando a esgotar as minhas. Todos perdemos pessoas ao longo da vida, claro que sim, ma...


Devem haver milhentas formas de dizer adeus, mas eu ando a esgotar as minhas. Todos perdemos pessoas ao longo da vida, claro que sim, mas o sentido nisso raramente é encontrado. Aqui há exactamente um mês escrevi sobre a perda de um amigo meu de infância. Uma história que quis que ficasse registada. Hoje vejo-me confrontada com nova perda, uma perda da idade adulta, de uma das melhores coisas que o blogue me deu desde que o criei em 2010, uma amizade sem preço, de um valor incomensurável, um carinho genuíno e de coração gigante de ambas as partes.

Olhar para trás e lembrar do dia em que conheci o Luís Miguel na Feira do Livro de Lisboa de há tantos anos quase me dá vontade de sorrir, não fosse a minha incapacidade para tal neste momento. Foi o dia em que uma boa e sólida amizade começou a crescer. Devido à distância que nos separava, não eram muitas as vezes que estávamos juntos pessoalmente, mas isso nunca foi impeditivo de comunicarmos, trocarmos ideias e apoiarmo-nos mutuamente. O Luís é, sim para mim ainda é, uma pessoa cheia de força, lutador até ao infinito e de uma personalidade forte até dizer chega. Teimoso, sim, também, Teimoso no sentido de fazer as coisas evoluírem de uma forma positiva, de não se resignar com pouco ou com as dificuldades.

Acompanhei a sua doença desde o início e fui testemunha da sua incrível força e capacidade de se rir perante as adversidades. O seu humor tão característico nunca falhou, nem nos piores momentos. Eu sei que talvez fosse de esperar que eu falasse aqui das suas qualidades como autor, mas essas vocês poderão constatar vós mesmos ao ler as suas obras. O Luís ultrapassou o estatuto de escritor conhecido para um amigo do coração com o seu lugar exclusivo no meu coração. Nem sempre concordámos em tudo, mas que amigos verdadeiros concordam? Interessa-me antes dizer-vos que o Luís foi dos melhores amigos que alguma vez tive e que por isso nada do que eu aqui diga será alguma vez minimamente justo em relação ao que sinto por ele. 

Confesso a minha fraqueza, existe um cansaço em mim, depois desta notícia, que não tem explicação. Sou uma pessoa prática, mas sempre lidei mal com a perda. Umas vezes paraliso, outras vezes apetece-me partir tudo e no restante tempo não sei o que fazer comigo mesma. E enquanto recebo mensagens de apoio e pedidos de confirmação da tua morte, Luís, não sei como responder. Porque eu só queria ter tido a oportunidade de te abraçar mais uma vez, sem precisar de te dizer nada. Porque chegada esta altura não há nada nem ninguém que possa atenuar a dor da perda. E ainda nos dizem que é suposto sermos fortes e continuarmos. Que o tempo cura tudo. O tempo não cura nada, o tempo anestesia e à medida que o faz, deixa-nos estranhos, dissocia-nos de nós mesmos porque somos obrigados a tornarmo-nos noutra pessoa para conseguirmos viver sem as pessoas que vão desaparecendo da nossa vida. Não é possível continuar-se igual depois de perdermos alguém que tanto significa para nós. Não é que se fique melhor ou pior, mas fica-se sem essa parte e não podemos dizer que tudo passa porque quem parte não volta. 

Enfim, não vou corrigir este texto ou olhar para trás, precisava de tirar estas coisas cá de dentro porque isto de se desejar os sentimentos e as condolências é tudo muito bonito, mas não alivia. Não existe nada que possa atenuar o grito e a revolta que habitam o interior de quem perde alguém.

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