Entrevista a Carla M Soares, Escritora Portuguesa - O Balanço do e-book vs livro, entre outras coisas

A Carla M Soares é uma escritora portuguesa, bem conhecida pelo público feminino, que já publicou três romances de época/históricos. O prim...

A Carla M Soares é uma escritora portuguesa, bem conhecida pelo público feminino, que já publicou três romances de época/históricos. O primeiro foi o Alma Rebelde, pela Porto Editora em 2012, o segundo foi A Chama ao Vento, pela Coolbooks em 2013, e o último, O Cavalheiro Inglês, pela Marcador Editora em 2014. Numa primeira entrevista, ainda não tinha saído o primeiro romance, a Carla falou-nos dos seus hábitos de escrita e um pouco sobre essa estreia literária. Neste nova entrevista, exploramos o balanço que é feito após essas publicações que variaram entre o formato físico e o formato e-book. Relembro também que a Carla M Soares é uma das autoras da colectânea Desassossego da Liberdade que está para ser apresentada brevemente. Fiquem então com a entrevista.


Fotografia por Sofia Teixeira
Carla, faz três anos que deste a primeira entrevista ao Morrighan em que nos falaste um pouco de ti e do teu ambiente de escrita. Tinhas lançado o teu Alma Rebelde. Ainda te lembras da sensação foi lançar aquele teu primeiro romance pela Porto Editora? 
Lembro-me muito bem. Foi uma altura de alegria, muita esperança, algum medo, como costuma acontecer em todos os princípios. Algum orgulho, também, porque conseguir uma primeira oportunidade com uma boa editora não é nada fácil para um anónimo... Olhando para trás, devia ter festejado mais, em vez de conter-me como costumo fazer, porque momentos desses não se repetem. 


Quis o destino que passasses pela experiência de seres uma das primeiras autoras da chancela Coolbooks, da Porto Editora, mas cuja edição é apenas digital, sem replicação no objecto físico livro que tanto nos é familiar. Como foi a experiência de teres A Chama ao Vento apenas nesse lado virtual? 
Tenho sentimentos mistos quanto a isso. Por um lado, como leitora de digital, achei que era uma aposta interessante, e foi, até certo ponto. A editora tem excelentes ideias, trabalha com empenho e tam publicado bons textos, ainda que o formato wook não agrade a todos (embora possa, ao contrário do que algumas pessoas crêem, ser lido offline, num grande número de suportes). Por outro, para um autor, é deliciosa a sensação de ter o objecto entre as mãos, poder assiná-lo, oferecê-lo, e isso não é possível com o ebook. Acredito no Chama, tem sempre recolhido boas opiniões, mas  poucas, porque poucos o têm lido, provavelmente devido ao formato. Isso é desapontante para um autor. 


Dada esta dualidade, primeira obra física, segunda apenas digital, penso que mais do que como leitora, como escritora,  és aquela pessoa ideal a quem perguntar qual a perspectiva que fica entre um mundo e outro. Achas que o público português já aposta em e-books com frequência e sem preconceitos? 
Desta experiência, fico com a percepção de que o digital ainda tem um longo caminho a percorrer por cá. Um dia talvez esteja realmente aceite, mas por ora, o que se ouve em geral é, ou “não, isso não é um livro”, ou “sim, até leio, mas prefiro um livro”. É natural, eu própria partilho perspectiva, leio muito em ebook, mas gosto do papel. Os leitores de digital por cá são geralmente as pessoas que escolhem leituras em inglês na amazon, smashwords, etc, e as descarregam para os seus kindles e kobos. Para autores portugueses, a preferência recai claramente no livro e a ideia é que, se é português e publica em ebook, tem que ser inferior. É verdade? Mentira? Não sei. Os critérios das editoras são complexos e envolvem critérios de mercado que decerto fazem com que muitos dos livros nos escaparates sejam inferiores aos que hão de ficar para sempre nas gavetas... ou ser publicados em ebook. 


Em Dezembro de 2014, há uns meses, tive o prazer de apresentar a tua obra O Cavalheiro Inglês, desta vez por outra casa, a Marcador. A que é que se deveu a mudança? 
Precisamente ao que apontei nas respostas anteriores. Depois de me ter aventurado pelo digital, concluí que ainda não era para mim, senti demasiada falta do objecto físico e do que ele envolve. Achei que tinha que tentar uma nova publicação em papel e, uma vez que os planos da Porto Editora não me incluíam, a não ser através do digital, tentei novas vias. Felizmente, tudo se conjugou para a Marcador me abrir a porta e eu entrei, com muita satisfação. Espero que seja mútua. 


Entrando mais no universo literário das tuas obras e personagens, e com estas três histórias cá fora, há algum momento, na escrita de algum deles, que te tenha sido mais doloroso? Se sim, como é que ultrapassaste essa fase? 
Depois de ter publicado ter romances de época, ou pelo menos com uma vertente histórica, o mais doloroso é a dúvida sobre se começarei a repetir-me. Tenho um grande receio disso, de me sentir a cair dentro de uma fórmula. De resto, a escrita é, em geral, um processo feliz para mim, para o qual preciso de me sentir em paz. Não escrevo a partir do tumulto, nem da tristeza ou da preocupação.  E é um processo de alheamento da realidade, em que me envolvo de tal forma com a história e as personagens que nem estou “cá”, estou “lá”. Há momentos de hesitação, em que parece que a história não vai resultar, em que acho que não funciona, e então tenho que parar durante um tempo, pegar em textos anteriores para rever – em geral, recorro a A Grande Mão quando ando assim, é um texto meu de fantasia que tem sempre o dom de me recuperar – e deixar-me respirar. Costuma resultar em mudanças, às vezes subtis mas importantes, na trama ou nas personagens. Quanto a momentos específicos... desconfio que vou sentir dificuldades no livro que estou a escrever agora e, sim, é de época. Tenho que matar uma personagem central que já começo a estimar e causar bastante sofrimento a outra...


Sei que tens na famosa gaveta de escritor alguns manuscritos, ou parte deles, de literatura fantástica. Como é que dás o salto do romance histórico para esse estilo? São dois universos que em ti se complementam? 
Se dei algum salto, foi ao contrário, da fantasia para o histórico, porque foi por ela que comecei, há uns dez, onze anos. A fantasia é uma escola de escrita extraordinária, porque obriga a construir mundos sólidos, plausíveis, personagens com alguma densidade, e uma intriga com um certo ritmo e sem pontas soltas. Aprende-se muito sobre tom, ritmo, enredo, verosimilhança, etc, a escrevê-la. 
O tal salto para o romance de época aconteceu por acaso, não foi deliberado. Gosto de história, mas nunca me imaginara a escrever nada do género... até escrever alguma coisa do género. Surgiu a ideia – tenho falado disso outras vezes, a partir do conceito de que já ninguém escreve cartas – e gostei tanto, que acho que vou oscilar sempre entre os dois géneros.  Como não escrevo  acontecimentos ou figuras históricas, mas histórias de gente inseridas em épocas que suscitam o meu interesse, o fundamental é o mesmo que na fantasia – a intriga, as personagens, o contexto, com a diferença de que o histórico tem menos liberdade, porque obriga a respeitar a realidade da época e local que escolhemos para a intriga, e portanto a conhecer os acontecimentos históricos em geral e os detalhes que podem torná-la mais “real. A minha preocupação é sempre como integrá-los de forma dinâmica e natural, centrando-me na história e não na História. 
Acaba por não divergir assim tanto da fantasia, porque, se é contemporânea, há uma realidade por trás dela, se é um mundo alternativo, há também uma História...


Tens esperança de vir a editar um, ou mais, desses mundos fantásticos? 
Gostava muito. Pergunto-me se, estando conotada com o romance de época, alguma editora ou até os leitores aceitaria bem essa vertente, que tem, à partida, um publico específico. Também não estou certa de que o publico português que lê fantasia acredite na que é escrita em solo nacional... Mas gostaria muito de um dia ter nas mãos um exemplar de A Grande Mão, de A Dama do Rio, que foi o meu primeiro texto, ou até de O Olhar da Besta! Precisariam de algum trabalho, sobretudo este último, de fantasia urbana passada entre Lisboa e os Catskills, que tem uns quantos aspectos que, neste momento, alteraria de forma radical.


Ser escritor tem aquele lado mais doloroso que é o da espera... Estarão a ler? O que é que estarão a achar? Depois da espera, tem compensado toda a ansiedade? 
Invejo os autores que conseguem isolar-se dessa ansiedade e, depois de publicado, “abandonar” o livro. Eu não. Talvez se um dia tiver a confiança de ganhei de facto um lugar, seja diferente, mas,  por ora, a espera não acaba e essa pergunta, “Estarão a ler?” é constante. Temos acesso apenas a uma pequena percentagem das opiniões dos leitores (espero!), que são as que vão aparecendo online, nos blogues, Facebook e Goodreads e às vezes é impossível não ficar desapontado, quando há leituras paradas ou ninguém está a ler. Mesmo que a maioria das opiniões seja positiva, quando é assim pergunto-me se o livro não será suficientemente interessante, se já “morreu”... Sou a minha pior crítica, sempre fui!


O que é que tens planeado para o futuro próximo, para além da edição do Desassossego da Liberdade em que tão amavelmente aceitaste participar e que desde já agradeço J ?
A Desassossego é um projecto muito interessante. Agradeço-te e ao Morrighan este convite, que é tão especial... e é uma novidade para mim, que não sou escritora de contos. Estou muito curiosa para ler os restantes. Espero que seja  bem sucedida, faça muitos leitores felizes e muitos burrinhos da Burricadas também! Aos leitores, lembro que é para esta associação que revertem os lucros dos convidados e da organizadora.  De resto, estou a rever mais uma vez, aos poucos, o A Grande Mão e a escrever, também aos poucos, um novo de época, a que chamei, para já, O Ano da Dançarina. Passa-se em 1918, no pós-guerra, ano de gripe espanhola  (la dansarina), de greves e do assassinato do Sidónio Pais... Veremos o que lhe sucede, depois de pronto, porque a minha experiência me dita que nada é garantido e tem que ser um livro de cada vez. 


PRIMEIRA ENTREVISTA


OPINIÕES

Alma Rebelde

A Chama ao Vento:

O Cavalheiro Inglês


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