Entrevista a Keep Razors Sharp, Banda Portuguesa

Os Keep Razors Sharp são uma banda que teve a amizade como moto inicial e que muito tem surpreendido os amantes da música rock, mas não só....

Os Keep Razors Sharp são uma banda que teve a amizade como moto inicial e que muito tem surpreendido os amantes da música rock, mas não só. Os elementos - Afonso, Rai, Bráulio e Carlos BB - estão ou já passaram por bandas como Sean Riley & The Slowriders, The Poppers, Capitão Fantasma, Riding Pânico e Pernas de Alicate, sendo assim um conjunto que também já foi apelidado de "super banda". Começaram a tocar muito antes do disco ser lançado e o primeiro concerto, com a formação completa, nem sequer foi em Portugal, mas em Espanha. Sobre isto e umas quantas curiosidades mais podem saber na entrevista que já decorreu há algum tempo, mas que só agora consegui transcrever.


Fotografia por Mike Ghost
A conversa começou na esplanada do cinema São Jorge com o Bráulio a contar-nos a história sobre como se juntaram, sendo que BB entrou na formação mais tarde: «Embora cada um vivesse na sua cidade, nós já convivíamos antes da banda. Há mais ou menos três anos, eu e o Afonso voltámos para Lisboa na mesma altura. Com esse regresso começámos a passar ainda mais tempo juntos com saídas à noite, saídas à tarde também (risos)... e eu na altura não estava com banda nenhuma, não tocava há algum tempo e um dia lembrei-me de desafiá-los a fazermos qualquer coisa. Tínhamos a sala de ensaio e as condições necessárias disponíveis, não tínhamos por que não experimentar. De uma maneira pouco regular começámos então a fazer alguns ensaios e umas jams, e com o tempo algumas pessoas que sabiam que estávamos a fazer alguma coisa começaram a ficar curiosas com o que poderia estar a sair dali. A partir daí fomos impondo metas a nós para termos um trabalho mais consistente.  Entretanto, o baterista que tínhamos, que também é um amigo nosso, não tinha a disponibilidade que passámos a precisar e foi nessa altura que surgiu o BB e que veio dar um ar novo e complementar aquilo que já estávamos a fazer.» 


O nome tem origem na assinatura de um deles, conta-nos o Afonso: «Durante o tempo que não vivi em Lisboa, como o Braúlio disse, eu e o Rai já estávamos a desenvolver uma relação de amizade há algum tempo. Como não nos encontrávamos muitas vezes, trocávamos muitas mensagens e e-mails, com ideias e músicas, etc. A partir de uma certa altura o Rai começou a acabar todas as cartas, e-mails, etc., com Keep Razors Sharp, passou a ser a sua assinatura. E eu achei piada à frase e entendia sempre aquilo como “mantém-te alerta, mantém-te atento, mantém-te rijo”. Quando começámos a pensar num nome para a banda, com o pessoal a mandar sugestões para o ar, eu perguntei ao Rai “Olha, aquilo com que acabas todos os teus textos é teu? Foste buscar a alguma canção, a algum poeta ou escritor?” e ele disse que não “é uma coisa que eu escrevo sempre” e significava exactamente aquilo que eu pensava que significava. Então achei que fazia todo o sentido e passou a ser esse o nome da banda.»


O primeiro concerto já com Carlos BB surge então em Espanha a convite de um promotor que já conhecia algumas das bandas dos elementos de KRS: «Numa fase inicial decidimos marcar um primeiro concerto, que acabou por ser  numa noite nas Cartaxo Sessions, com o único objectivo de nos dedicarmos aos ensaios. Ensaiávamos de forma esporádica e errática e quisemos focarmo-nos e dedicarmo-nos mais às canções. Depois quando o BB começou a tocar connosco recebemos esse convite do festival em Cárceres. (Afonso) 
Esse concerto acabou por surgir porque tanto o Afonso como o Rai já era habitués por lá e ele ficou curioso com o projecto conjunto e convidou-nos. Fomos lá sem ele sequer ouvir nada porque nem sequer tínhamos nada gravado, foi completamente às escuras. (Bráulio)»


O próprio Verão passado foi recheado de concertos e toda esta procura pelos Keep Razors Sharp deu-se ainda sem o disco estar cá fora. Na opinião da banda, as coisas aconteceram consoante os objectivos colocados foram sendo alcançados: «Nós fomos colocando metas para de alguma forma corrermos atrás delas, ou seja, nós sempre definimos primeiro o que queríamos fazer e depois... fizemo-lo (risos), e a questão dos concertos foi um bocadinho essa. Nós ainda não tínhamos data estipulada para a conclusão e lançamento do disco, a única coisa que sabíamos era que sempre que tínhamos um conjunto de canções que achávamos que estavam terminadas, marcávamos estúdios e íamos gravando essas canções. Eventualmente, haveria um momento no tempo em que teríamos canções suficientes para podermos escolher canções para o álbum. E então à medida que fomos fazendo essas sessões de gravação fomos lançado canções, a primeira foi em Dezembro de 2013, I See Your Face, e nessa altura tivemos o nosso primeiro concerto de apresentação aqui em Lisboa, no Musicbox. A recepção a esse single foi boa e foram aparecendo os contactos para os concertos. Com a chegada do Verão lançámos o segundo single, 9th, e continuámos a fazer os concertos. Na prática fomos fazendo canções e gravando canções a par dos concertos que íamos dando e que foram mudando ao longo do tempo.»


Artwork Sara Feio

O disco de estreia homónimo tem sido divulgado sempre com uma alusão à relação predador/presa e, nesse sentido, perguntei-lhes se criar um álbum conceptual era algo que estava pensado desde o início, mas a verdade é que não foi: «No final de termos as canções escritas, olhando para elas de uma forma um bocadinho externa e objectiva, se é que isso é possível para quem está envolvido no processo de criação, pareceu-nos que havia essa temática constante nas canções. Se bem que essa imagem da presa e do predador é uma coisa muito livre, na prática aplica-se a uma série de coisas que acabam por ser muito diferentes. Pode ser uma relação entre duas pessoas, pode ser a tua relação com coisas das quais dependes ou não... Isto obviamente não é algo literal, mas muito vago e geral, mas sim, essa imagem pareceu-nos patente nas canções.»


Existe ainda outra curiosidade que se prende com o facto de em muitos sítios na web os apelidarem de Super Banda. A saída do disco pela NOS Discos veio reforçar essa ideia anterior , mas a verdade é que eles não se sentem como tal: «Nós nunca nos sentimos como uma super banda e nunca foi ideia nossa a banda ser com determinados elementos para se poder criar essa super banda. Como te disse ao início foi simplesmente por uma relação de amizade próxima que coisas surgiram. Não deixa de ser bom para nós que nas críticas saia essa informação de super banda, acaba por ser bom para nós, mas não fomos à procura desse título.»


Não sei se eles estavam também à espera disso ou não, mas a verdade é que ao ouvir o disco deles senti que estávamos perante um trabalho que supera qualquer tipo de etiqueta, passando pelo sensual ao dançável com o rock e o psicadelismo como pano de fundo. Sendo este o meu feedback pessoal em relação ao disco, perguntei-lhes qual é que seria a verdadeira intenção deles com este trabalho e que influências tiveram: «Em primeiro lugar fico contente com a tua análise do disco e com aquilo que sentiste porque isso de facto é bom e é um pouco daquilo que precisamos. Quanto às influências elas devem ser mesmo só isso: coisas que te marcam e que influenciam aquilo que tu fazes. Nunca tentámos de forma alguma soar a ninguém ou que essas coisas que nós gostamos fossem espelhadas de forma muito clara naquilo que fazemos. Eu penso que além da nossa experiência passada pessoal e das nossas influências, o que nós fazemos tem uma identidade própria e soa a uma banda própria, e espero que isso acabe por soar dessa forma para as pessoas. Todos temos influências diferentes, todos fizemos coisas diferentes no passado, claro que temos muito terreno comum, mas aquilo que fazemos agora é de certa forma acidental e é de certa forma o resultado dos quatro, das quatro cabeças a pensarem e a expressarem-se ao mesmo tempo. E, esperamos nós, que de facto, não só como tu referes, seja possível abarcarmos vários territórios, coisas mais dançáveis, mais ruidosas ou mais experimentais, mas no fundo que isso tudo acabe por soar a Keep Razors Sharp e não a uma amálgama das bandas que já tivemos ou uma amálgama dos discos que temos em casa e que adoramos.»


Fotografia por Rui Aguiar
Dizem que Portugal é um país de modas e que por isso muitos dos seus artistas e bandas têm certos momentos de destaque por causa dessas ditas modas. No entanto, dada toda esta transversabilidade sonora, os Keep Razors Sharp certamente não se encaixam em nenhuma categoria específica e a minha curiosidade prendeu-se com a visão que eles têm do projecto para o futuro e que público pretendem alcançar: «Nós até aqui temos feito as coisas todas talvez de uma maneira muito subtil. Não fomos atrás de um género que quiséssemos fazer, não estamos a fazer nada porque é aquilo que as pessoas querem ouvir, portanto na verdade nem sei bem como te responder a essa questão porque nós fazemos as coisas com bastante espontaneidade e seguimos o rumo que as coisas por si próprias tomam. (Bráulio) 
Eu penso que, em primeiro lugar, se queres fazer música ou expressares artisticamente de qualquer forma com o objectivo de viveres disso, as tuas premissas estão erradas. Nunca deves partir para nada à procura de reconhecimento. O que nós fazemos é única e exclusivamente aquilo que queremos fazer e gostamos de fazer. Se isso tiver impacto, se as pessoas se relacionarem com isso – maravilhoso. Se houver muita gente a gostar da nossa música e senti-la como nós sentimos isso é absolutamente incrível. Se isso não acontecer, de qualquer das formas, a partir do momento em que o nosso disco sai o nosso objectivo – conseguir criar estas canções, ficarmos satisfeitos com elas, passarmos um bom momento uns com os outros durante todo este processo de criação e de gravação – está plenamente atingido. A partir daqui acontece aquilo que tiver de acontecer como aconteceu sempre aquilo que tinha de acontecer até este momento. (Afonso)»


Para terminarmos, e voltando ao disco, o trabalho de Keep Razors Sharp está disponível de forma gratuita no site da NOS Discos, mas também já tem distribuição física em algumas lojas: «Qualquer pessoa poder descarregar gratuitamente o disco e ouvi-lo é super positivo, mas mesmo sendo uma tendência recente nós também gostamos de discos e por isso a edição física era também importante para nós. Por essas imposições de estares num tipo de situação em que ofereces o disco digital gratuitamente, a edição física acaba por ter menos destaque, é normal, mas nós desenvolvemos um acordo que nos permite ter também os discos em lojas. E, claro, nos concertos também os podem encontrar que nós fazemos sempre questão de os ter por lá.»



O próximo concerto de Keep Razors Sharp é já no dia 10 de Abril no Lisbon Psych Fest e deixo-vos também com as ligações para o Facebook, NOS Discos e ainda o vídeo do mais recente single.

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