Opinião: Objetos Cortantes, de Gillian Flynn

Objetos Cortantes Gillian Flynn Editora : Bertrand Sinopse : Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, ...

Objetos Cortantes
Gillian Flynn

Editora: Bertrand

Sinopse: Recém-chegada de um internamento breve num hospital psiquiátrico, Camille Preaker tem um trabalho difícil entre mãos. O jornal onde trabalha envia-a para a cidade onde foi criada com o intuito de fazer a cobertura de um caso de homicídio de duas raparigas. Há anos que Camille mal fala com a mãe, uma mulher neurótica e hipocondríaca, e quase nem conhece a meia-irmã, uma bela rapariga de treze anos que exerce um estranho fascínio sobre a cidade. Agora, começa a identificar-se com as vítimas. As suas pistas não conduzem a lado nenhum e Camille vê-se obrigada a desvendar o quebra-cabeças psicológico do seu passado para chegar ao cerne da história. Acossada pelos seus próprios fantasmas, terá de confrontar o que lhe aconteceu há anos se quiser sobreviver a este regresso a casa.


Opinião: Ler Gillian Flynn tem sido uma aventura e tanto no que toca a viajar pela malevolência que cada ser humano consegue transportar consigo. Parecem não haver limites no quão retorcido alguém consegue ser para prejudicar, magoar, até mesmo matar alguém. Com os livros lidos na ordem inversa da sua publicação original, não será descabido dizer que gostava de ver a autora a voltar ao registo deste mesmo livro. Objetos Cortantes foi a sua primeira obra, sempre narrada na primeira pessoa por uma única protagonista, e saiu-se muito bem. Em Lugares Escuros e Em Parte Incerta assistimos a algo mais compassado, sempre alternando entre protagonistas e espaços temporais, mas neste seu romance de estreia a linha de acção é continua, sempre com Camille na liderança da acção, não prejudicando o mistério que se quer fazer sentir num livro destes. 

São crescendos, tanto a curiosidade como o horror que vamos sentido com o evoluir da história. Não é tanto a forma como as raparigas aparecem mortas, asfixiadas e sem dentes, mas antes o que as suas mortes podes implicar na vida de Camille. E à medida que vamos conhecendo os seus medos, o seu passado, somos confrontados com uma relação completamente disfuncional entre mãe e filha que acaba por ter repercussões tenebrosas e irreversíveis. Gillian Flynn é mestre em explorar obsessões doentias em relações passionais e Objetos Cortantes é afiado e acutilante em vários sentidos. Existe um repúdio constante em relação às várias personalidades que vamos conhecendo. Ninguém escapa à morbidez das suas próprias acções, ao ordinário que é ceder às carências, mesmo quando estas envolvem masoquismo extremo. 

No fundo, acompanhamos três gerações de mulheres danificadas. Camille, a sua mãe e ainda a sua meia-irmã, Amma, que aos treze anos já se droga e tem relações sexuais como gente grande. A narrativa evolui sempre com este trio como pano de fundo. A investigação avança, existe um ou outro suspeito, mas sabemos desde o início que algo de muito errado se passa com as Preaker. As pistas vão sendo deixadas por amizades antigas, por comentários vingativos, mas principalmente por um abrir de olhos de Camille. 

O truque desta obra é, sem dúvida, a escrita e a intensidade e a imagética que são passadas ao leitor. Não são raras as passagens em que o estômago se contorce, em que todos os cenários se tornam tão vividos que parece que somos transportados para lá, que nem voyeurs que não têm bem a certeza se querem estar mesmo a assistir ao que estão a testemunhar. O fim não foi uma surpresa, mas também não acho que isso influencie a opinião desta leitura. Todos os livros têm um fim, mas no caso de Objetos Cortantes este apenas acaba por juntar peças que já se namoravam. É uma obra arrepiante, com níveis de dissociação cruéis, mas que também sabemos ser reais em casos não assim tão raros. É disto que gosto na escrita de Flynn, a capacidade de por à prova o leitor espetando-lhe as mais duras e frias realidades. 

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