Entrevista a Pernas de Alicate, Projecto Musical Português

A primeira vez que tomei contacto com o projecto Pernas de Alicate foi aquando do lançamento de uma edição física do seu trabalho, em estil...

A primeira vez que tomei contacto com o projecto Pernas de Alicate foi aquando do lançamento de uma edição física do seu trabalho, em estilo mini-livro (podem ler aqui). Carlos BB e Sara Feio, baterista e ilustradora, são os elementos fixos do projecto, mas muitos outros intervenientes têm dado forma às suas ideias. Não existindo em formato disco, o trabalho de Pernas de Alicate é único e personalizado, tema a tema. Toda a composição é cuidada e elaborada minuciosamente. Enquanto Carlos BB trata da parte musical, Sara Feio cria o seu próprio imaginário para as músicas que vão sendo construídas. Recentemente, lançaram o tema Pássaros (ler aqui) que conta com músicos como Miguel da Bernarda (Brass Wires Orchestra), Ana Miró (Sequin), Cláudia Guerreiro (Linda Martini), Gil Amado (Long Way To Alaska, We Trust) e João 'Shela' Pereira (Riding Pânico). "Que equipa de peso!", hão-de dizer vocês, e eu concordo. Inevitavelmente, fui parar à mesinha da sala de estar de Carlos e Sara para conversarmos sobre este projecto - Pernas de Alicate - que não responde a regras nem a padrões, mas que revoluciona e supera em tudo o que toca. 


Curiosa sobre o que teria juntado o Carlos e a Sara, perguntei-lhes como surgiu o projecto Pernas de Alicate. Ingénua e distraída Sofia Teixeira que não reparou logo à primeira que estava perante um casal! «Juntar, já estávamos juntos, não é? (risos)», diz-me a Sara. (Duh, Sofia!), mas amavelmente ela continua: «Nós temos muito input no trabalho criativo um do outro e temos bastante confiança no gosto um do outro. Na altura, o BB queria fazer um projecto a solo de música, a banda principal que ele tinha estava parada e ele tinha vontade de fazer um projecto que fosse só dele. Sendo um baterista é um bocado difícil fazer um projecto a solo se não souberes tocar outros instrumentos.» 
«E eu por acaso não sei. (risos)» 
«Então começou a pensar numa maneira de ter convidados e ir fazendo músicas em que a produção era ele que fazia. Eu comecei a ajudá-lo, mais em modo incentivo, com a parte da imagem. Nos meses em que andámos a trabalhar nisso, a parte da imagem acabou por ficar bastante grande e acabou por crescer um pouco por aí. Ele convidou-me para fazer parte do projecto e quando saiu o primeiro vídeo já estava assumido que era um projecto dos dois, com música e imagem.»


Sendo um projecto em que ambas as artes se complementam – música e imagem – a apreciação não pode ser completa se apenas se assistir a um sem o outro. BB explicou-me que essa tem sido, em parte, uma das suas lutas: «Infelizmente, a música é sempre muito mais falada do que a imagem e nós também queremos apostar na imagem. E isso tem a ver com a cultura do país – a música continua a ser muito mais falada do que a ilustração, a escultura, a fotografia, entre outros que acabam por ser marginalizados.» Sara complementa: «A música é muito mais popular e muito mais fácil de chegar às massas do que é, por exemplo, a ilustração ou a fotografia. Não tens pessoas a irem a exposições, seja de ilustração ou fotografia, como vão a festivais de música. Nós não temos disco, vão havendo músicas, que funcionam como singles, e depois há a parte da imagem. O BB, no cantinho dele, trata dos convidados, da composição e de tudo relacionado com a música, e eu no meu cantinho, trato da parte do vídeo e de convidar pessoas para fazerem peças em que soltem a sua imaginação em relação a um tema.» Em Pernas de Alicate, som e imagem «existem de forma independente, mas são dependentes uma da outra. As imagens que a Sara faz existem independentemente da música. A imagem já tem uma vida própria, não precisa da música para viver. Mas também as músicas que eu faço não dependem das imagens da Sara. O que os une é a edição do vídeo.», explicou BB.


Ao longo do tempo, muitos ajustes têm sido feitos no próprio projecto. Em relação a Pássaros, este é um tema que mostra essa independência entre som e imagem: «A história da música é completamente diferente da história do vídeo. São ambas à volta do amor e decepções, mas na música é sobre os avós do BB – o avô morreu e logo a seguir a avó morreu como nos passarinhos – e no vídeo tem mais a ver com as máscaras que temos e as mentiras que contamos nas relações. Há um fio condutor, mas nunca são exactamente a mesma coisa. O vídeo nunca é a interpretação do que é a música. Vamos fazendo aquilo que nos apetece.» (Sara) 
«Nós tentamos fazer um projecto que seja um tanto quanto imediato. O disco é uma coisa de banda e isto não é uma banda, vai mais além do que é uma banda normal. Aqui existe música e imagem e queremos que seja mais imediato. Nas bandas gravas um disco e só o lanças passado não sei quanto tempo, a música já não respira da mesma maneira. Nós queremos que tanto a imagem como a música sejam coisas que ainda estejam vivas. Não lançamos por lançar, só lançamos quando as coisas estão mesmo ao nosso critério e isso por vezes pode fazer com que demore mais tempo. Só quando estamos todos confortáveis e contentes com o que temos é que mandamos cá para fora.»



Fotografia por Rui Aguiar
«Não é um projecto para fazer dinheiro.», é a resposta imediata da Sara quando questionei como é que lidavam com a parte comercial do projecto, não havendo, pelo menos, a componente disco para para poderem retirar algo daí. «Não há muitas maneiras de fazer dinheiro nisto. Nós convidamos pessoas, são colaborações, e mesmo que fizéssemos algum dinheiro, que seria mínimo, dividido por toda a gente dava para irmos tomar um café lá a baixo (risos).  Nós também não concordamos em convidar pessoas e sermos nós a receber dinheiro e os outros que se lixem. Não, isto são colaborações no sentido em que há coisas que eu gostava de fazer e não tenho projectos onde explorar essas ideias e convido pessoas que acho que também gostavam de fazer certas coisas que não podem fazer no trabalho em que são pagos.» 
«Comigo é a mesma coisa, tenho outros projectos em que não consigo expandir ao máximo tudo aquilo que quero fazer e neste projecto encontrei esse espaço para poder, como pessoa e como músico, extravasar e derramar todas as ideias. O mesmo se vai passando com os músicos convidados e que gostavam de experimentar coisas novas e diferentes.»  O Blacksheepstudios, do BB, e o facto de a Sara ter algum material de vídeo, ajudam a que os custos sejam menores, mas ainda assim acabam por gastar dinheiro com o projecto. Há uns meses lançaram uma edição física, mas o que reouveram serviu apenas para cobrir os custos. «Falando monetariamente e de uma forma comercial, hoje em dia ninguém faz dinheiro com os discos. Eles são gravados, enviados para as rádios para os promotores ouvirem, mas é na estrada que ganham o dinheiro. »


Levar Pernas de Alicate para actuações ao vivo seria uma solução, mas não é fácil: «É complicado porque é uma coisa que se torna bastante dispendiosa. Tem muitos convidados e nem todos os espaços dão para ter uma componente visual forte. Funciona melhor como um evento, uma espécie de exposição onde os artistas, da parte visual, possam ter os seus trabalhos expostos. Senão estamos a descaracterizar o projecto, estando só a música em destaque. Se hoje em dia é complicado teres salas de concertos, então conseguir um espaço com estas condições que precisamos para a coisa correr como nós queremos...  Nós não queremos desenrascar. Nós ou fazemos, ou não fazemos.» (Carlos)


Em termos de convites, existe uma distância entre as várias pessoas das diversas áreas que é preciso diminuir, quebrar barreiras para que possam surgir novas colaborações facilmente: «Eu sinto que tanto na cena musical como na artística, as pessoas são muito afastadas uma das outras. Com este projecto, a grande ideia é também combater isso. Vivemos num país que é tão pequenino, não se ganha quase dinheiro nenhum com esta porcaria e se as pessoas se afastam e não se juntam para fazer coisas novas... A única hipótese de isto avançar é as pessoas serem mais unidas. Até agora tenho recorrido a pessoas mais próximas, mas nas próximas músicas vou tentar passar para pessoas que não são tanto do meu meio. Só que aqui, ao ter que passar por agentes e tudo mais, há muito que se perde. Eu quero que a vontade do artista prevaleça e isto dos agentes, às vezes, é como vender a alma ao diabo, é mais uma barreira caso o artista queira e o manager não. Pode ser um autêntico braço de ferro.» (Carlos)


Na componente musical a intenção é «tirar as pessoas do conforto e criar algum desconforto. Quero que as pessoas trabalhem e pensem de maneira completamente diferente do que o que fariam nos seus projectos.» (Carlos) A intenção é, claramente, não haver um estilo definido, a única premissa certa é «somos duas pessoas e existem colaborações.»
Já na componente visual a Sara explicou que ao início era ela que fazia tudo, tirar fotografias e ilustrações, mas que entretanto também isso mudou. «É claro que sei carregar num botão, mas achei que era muito mais interessante chamar uma pessoa que fizesse de maneira profissional e que se calhar também desse algum input. Gosto que as pessoas também tragam para a mesa as suas ideias. Claro que eu tenho os meus gostos e vou escolher as pessoas consoante o que gosto nos seus trabalhos, mas sem as castrar. A ideia é, às tantas, estarmos todos num sítio desconfortável cheios de desafios por explorar. Não é fácil, mas é giro (risos).»


Certo é que Pernas de Alicate é um projecto original e genuíno, de pessoas que querem expandir os seus horizontes e ir além dos preceitos. A juntar a isto, temos a curiosidade de o nome do projecto se dever ao facto de ser a alcunha que a mãe  de BB lhe colocou quando era pequenino «BB já é um nome que existe desde que ando ou falo, Pernas de Alicate era o que a minha mãe me chamava muitas vezes. Jogava futebol e tinha as pernas arqueadas (risos). Outra questão tem a ver com a forma como o projecto se rola. Já numa banda a bateria é o que dá o mote e a base rítmica. Aqui, como as músicas começam por ser construídas pela base, por mim e pela bateria, daí também as pernas de alicate, que primeiro vem das pernas e depois o resto. Mas sim, vem muito pelo nickname (risos).»


Depois do tema «Pássaros», segue-se um novo que está praticamente pronto, mas que ainda não nos é revelado muito: «Há uma segunda parte que também tem ilustradores, fotógrafos e escultores. Tenho receio de dizer datas porque nem sempre conseguimos lançar as coisas quando queremos. Dependemos também do tempo livre dos colaboradores, cuja prioridade é, obviamente, o que lhes paga a renda ao final do mês.»


Um financiamento seria a solução perfeita para este projecto. Para além de acelerar bastante o processo de produção, todos os processos ficariam agilizados. O problema é que mesmo quando concorrem a vários concursos de financiamentos, dada a versatilidade do projecto, não aceitam nem do lado da música nem do lado artístico. «Esse é um dos principais problemas, não se enquadra em nenhuma das categorias. Ou é demasiado abrangente ou acham demasiado ambicioso...» (Sara) «Eu e a Sara estamos no meio de um caldeirão em que tentamos fazer tudo e mais alguma coisa do que gostamos. Mas depois tens as duas facetas do mundo artístico – ou te prostituis e fazes uma coisa que não gostas, mas ainda podes estar dentro da tua área, ou então passas um bocadinho de fome e entras por aquele prisma que é “eu adoro fazer isto, mas vejo-me à rasca para pagar as contas”. (risos)» (Carlos)


Com ajudas externas ou não, Pernas de Alicate é um projecto a manter e é já no dia 15 de Novembro que irão realizar uma Matiné no Adamastor Studios (ler aqui). Foi um prazer enorme falar com o Carlos BB e com a Sara Feio. Sem dúvida são duas pessoas muito esclarecidas, de pés assentes na terra e com vontade de marcarem pela diferença. Um projecto que, na minha opinião, merece ser apoiado.

Pernas de Alicate:

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