Entrevista a Afonso Cruz, um passeio pelas obras literárias e muito mais - PARTE I

Aqui há uns tempos sentei-me com o Afonso Cruz para falarmos sobre a panóplia de actividades em que ele participa, sendo que o foco princip...

Aqui há uns tempos sentei-me com o Afonso Cruz para falarmos sobre a panóplia de actividades em que ele participa, sendo que o foco principal foi passar um pouco por cada uma das obras literárias até agora publicadas, passando depois para as restantes áreas - música, ilustração, etc, e ainda um ou outro pormenor mais pessoal. A conversa teve perto de uma hora, foi super interessante (falar com o Afonso tende sempre a ser uma actividade em que se perde a noção do tempo!) e faço-vos chegar agora, finalmente, todo o seu conteúdo. O timing não é despropositado já que está aí a chegar a Feira do Livros de Lisboa e nada melhor do que aproveitar uns belos descontos para comparar os seus livros! Relembro que uma primeira entrevista foi publicada aqui, em Janeiro de 2013. 

Fotografia Vitorino Coragem
Tendo lido quase todas as obras do Afonso (falta-me a enciclopédia editada pela Quetzal), não tardei em tentar saber mais sobre a sua envolvente. Inclusive, não há muito tempo descobri que a história do Pintor Debaixo do Lava-Loiças tinha um paralelismo com a realidade relacionada com o avô do Afonso que escondeu, de facto, Ivan Sors, protagonista desta obra. Será que todas as obras têm um pouco de facto reais?
«Não, nem sempre. Os Livros que Devoraram o Meu Pai não tem praticamente nada, mas O Pintor Debaixo do Lava-Loiças partiu de uma história real, um pouco como A Boneca de Kokoschka também, a metáfora d’ A Boneca de Kokoschka também serve para o livro. Às vezes uso histórias verdadeiras e aplico-as. No caso d’ O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, até foi diferente porque, inicialmente, era para ser um livro ilustrado para crianças com uma série de histórias da minha infância que ouvi dos meus avós edo meu pai. Apresentei à Caminho, estava lá ainda o José Oliveira, o editor, e ele disse “Esta história merecia ser desenvolvida. Ter uma coisa mais…” e então eu pensei “Bom, então vou escrever uma novela” – do género Os Livros que Devoraram o Meu Pai, que é para jovens – mas a meio percebi que aquilo já não era para jovens. Liguei ao José Oliveira “Pá, isto se calhar já não é para jovens” e ele concordou“Não, não, não. Isto é para adultos!” e a partir daí desenvolvi com isso em mente. Foi o único livro que publiquei na Caminho que é para adultos.» 


E agora o processo deste livro magnífico, O Pintor Debaixo do Lava-Loiças: «Cheguei a tentar informar-me e até saber um pouco sobre o pintor – ele não era só pintor, também era ilustrador e escultor – mas não consegui obter grandes informações. Mais tarde, soube que ele tinha também umas aguarelas no museu da Figueira da Foz e sei agora também que há uma pessoa a escrever uma biografia dele acho que em Coimbra. Na altura cheguei ao pé do José Oliveira e disse “Olha, eu não sei nada da vida dele” e ele então disse “Inventa!” e foi isso que eu fiz, inventei. Pesquisei imenso sobre a vida dos judeus daquela altura, como é que era o périplo que eles faziam desde quando fugiam do nazismo e era praticamente sempre o mesmo. Procuravam sempre os países neutros e, portanto, fugiam normalmente da Alemanha para a Áustria, da Áustria para a Suíça – que era neutro – depois para o sul de França que ainda não estava tomado… Espanha – que era relativamente neutra – e Portugal, que apesar de termos uma ditadura, não era uma ditadura xenófoba e os judeus apareciam cá todos. Depois havia umas casas de refugiados, a maior parte deles perdiam os documentos durante esta viagem – que não era nada fácil para eles – e, por vezes, havia o perigo de serem enviados de volta, seria terrível! Neste caso, os meus avós decidiram esconder o Ivan Sors dentro da casa deles. Isso foi uma história que eu sempre ouvi em criança. Eu nem sabia qual era a nacionalidade dele, acho que o meu pai dizia que ele era jugoslavo ou uma coisa qualquer. (risos) Depois fiz algumas pesquisas na Internet, encontrei algumas peças dele à venda em leilões, percebi o ano do nascimento, o ano da morte. Já sabia que acabava bem o livro, porque realmente ele chega aos Estados Unidos e, pronto, fiz a história imaginando qual seria a viagem de um judeu em 1940.»


Os Livros que Devoraram o Meu Pai, apesar de ser para crianças, faz muitas referências a obras literárias de referência mundial. Perguntei-lhe se achava que as crianças que o lêem, por fazer parte do plano nacional de leitura, conseguem realmente entendê-lo: «Eu acho que eles podem fruir a história e conseguir ler como um entretenimento. Não creio que tenham lido esses livros, em especial alguns que são mencionados, como o Crime e Castigo ou o Fahrenheit 451, mas tenho esperança que seja uma espécie de semente que fique lá. Ou seja, não é preciso ter lido aqueles livros para compreender Os Livros que Devoraram o Meu Pai, se os tivesses lido, se calhar ajudavam a dar outra dimensão à história, mas não tendo espero que seja uma semente - são nomes que ficam na tua cabeça, ficas a conhecer mais ou menos do que é que o livro trata e, se calhar, um dia, entras na livraria e “Olha já ouvi falar deste livro e deste autor!", e compras e lês o livro. Aliás, tenho tido alguns feedbacks de leitores que depois de ler Os Livros que Devoraram o Meu Pai decidiram ler alguns daqueles livros que falo lá.»


Apesar de os livros do Afonso estarem distribuídos por várias editoras, algumas especificamente de infanto-juvenil, a verdade é que, por exemplo, O Livro do Ano, que poderá ter uma aparência para essa faixa etária, é na verdade um livro para adultos. Falámos um pouco sobre esta transversabilidade das suas obras e de como os livros são uma espécie de nutrientes: «Inicialmente não penso muito no público-alvo. O que acontece muitas vezes é que os livros ilustrados são pintados para um público mais juvenil e eu tento também que esses livros sejam adequados para crianças, não sendo necessariamente para crianças. O Livro do Ano foi vendido para adultos, sempre. Nunca esteve nas secções de infanto-juvenil, mas inicialmente quando penso no livro imagino de modo a que toque essas franjas todas porque também acho que é importante. Muitas vezes nós temos a sensação que existem realmente livros para crianças e outros para adultos. E existem, realmente, livros só para adultos porque tocam em temas que não são adequados para as crianças ou que o vocabulário é realmente exigente no pensamento, etc., mas o contrário não é verdade, ou seja, os livros para crianças poderão ser sempre lidos e apreciados por adultos. Eu acho que um livro para crianças que não seja bom para um adulto, não é um bom livro. Porque somos nós que os compramos, somos nós que decidimos e se eu quiser oferecer um livro ao meu filho, compro um livro que eu goste. Porque os livros também são uma espécie de nutrição, não exactamente a mesma da comida, mas a verdade é que se eu deixasse essa decisão nas mãos dos meus filhos, por exemplo em relação à comida, e nós não o fazemos, eles só comiam chocolate e com os livros também é um pouco assim. De vez em quando, comem um chocolate, mas também têm de comer outras coisas que sejam pouco mais nutritivas. Portanto, são esses livros que nós escolhemos para as nossas crianças, ou seja, chegamos a uma livraria e optamos por um livro que nos diz alguma coisa e que nós sabemos que é adequado para eles e que eles conseguem ler, gostar, fruir as ilustrações e estas coisas todas. Se, por acaso, eu chegar a uma livraria e achar que o livro é mau para mim, eu não vou comprar porque não faz sentido, eu não vou comprar um livro que diga “este livro é uma porcaria, mas é bom para os meus filhos”, isso não faz sentido nenhum.»


Tem sido um percurso eclético no que toca a histórias e a abordagens, principalmente se pensarmos na primeira obra editada - A Carne de Deus, pela Bertrand Editora - caracterizada com um "Thriller satírico e psicadélico". A obra esgotou, nunca foi reeditada e o Afonso também nunca mais escreveu nada deste género. A curiosidade natural é se se arrependeu de ter editado aquele livro ou se alguma vez ele voltará a ver um reedição: «Não sei. Precisamente porque é muito diferente e também porque ele tem uma história. Ele apareceu porque eu queria publicar a Enciclopédia - foi o primeiro livro que eu escrevi - e, na altura, as sucessivas administrações da Bertrand achavam que o livro não era um bom primeiro livro, que não venderia, etc., e que era um livro muito complicado para primeiro livro. Então, a certa altura, a editora Lúcia Melo disse-me que não queria desistir de me publicar e pediu-me um romance para primeiro livro. Então eu decidi escrever um thriller – apesar de muito irónico. Sentei-me em frente ao computador durante dois meses e escrevi o livro, entreguei o esboço passado esses dois meses e o livro acabou por ser publicado. Realmente, é muito fora das outras coisas que tenho publicado e tenho feito, sai fora desse contexto. Ele esgotou e, mais tarde ou mais cedo, imagino que será novamente publicado, mas eu sinto que devo rever algumas coisas, melhorar algumas coisas e provavelmente sairá uma edição diferente.»


Terá sido o facto de "ter sido obrigado" a escrever este livro que levou a que depois nunca mais escrevesse dentro do género? O Afonso responde: «Não fui obrigado. Na altura, já tinha pensado muito nesta história e era como se já a tivesse na cabeça, não me custou nada a escrever. Por isso é que foi tão rápido escrever esse livro. É realmente uma coisa diferente e até tem um sentido que induz a pensar que poderá haver uma colecção que são as Aventuras de Conrado Fortes e Lola Benites – eles poderiam continuar – e houve até uma altura que escrevi uns primeiros parágrafos de uma continuação. Entretanto, porque me meti noutras coisas e fui escrevendo outro tipo de coisas, acabei por largar isso, mas talvez um dia volte. Também me agrada muito esta coisa mais Pulp… Por exemplo, adoro policiais negros, gosto e leio muito de ficção científica. É um tipo de literatura que me agrada e que se calhar volte lá algum dia.»


O último grande romance publicado foi Para Onde Vão os Guarda-Chuvas e tem uma série de descrições culturais que advêm muito de toda a experiência que o Afonso tem acumulado com as suas viagens. Ainda assim, a origem da obra é outra e também ela real: «Esse livro nasceu a partir de uma história do Gandhi – mais uma vez, uma história verdadeira – em que há um hindu que aparece com o filho morto nos braços junto do Gandhi e diz que foi um muçulmano que fez aquilo e o que é que deve fazer - o Gandhi diz que o que ele devia fazer era adoptar uma criança muçulmana. Eu sempre achei esta história muito bonita e decidi escrever um romance baseado nesta ideia. Isto não é só tolerância, é um caminho em direcção ao outro, é dar um passo muito maior do que aceitar a diferença, é quase amar a diferença, amar o inimigo. Acho isso mesmo muito bonito até porque cada vez mais o mundo, as notícias que ouvimos todos os dias, vai corroborando esta coisa de que precisamos realmente de mudar um pouco este tipo de mentalidade e foi daí que nasceu – mais do que das viagens. Claro que ele se passar entre Ásia Central e o Extremo Oriente, tem a ver apenas com o enredo, com algumas coisas que eram necessárias para a história. Tinha de ficar perto da antiga Pérsia, por causa dos fragmentos persas que eu queria incluir no livro e até trabalho infanti lindustrializado - trabalho infantil há em todo lado, em Portugal também  mas  este tipo trabalho infantil tinha de ser perto da ilha para justificar a história do Gandhi - tinha de ser um país de maioria muçulmana com intervenção americana para isto tudo bater certo. O único país provável ou possível, se calhar, era o Paquistão. Por isso, optei por uma escolha que tinha a ver com o enredo.»


Algo que sempre me cativou na escrita do nosso autor português foi a sua capacidade de criar emoções em crescendo dentro do leitor, uma espécie de acumular que no fim transborda como um todo. Nesta última obra, em particular, o sentimento de perda tem sido partilhado por vários leitores e o arrebatamento também. Como escritor, o Afonso diz não ter muita noção do impacto que o que escreve poderá ter em quem lê: «Eu tenho muito poucas noções do resultado e, na maior parte das vezes, até erro. É um pouco como escrever a pensar em crianças muito pequeninas e afinal até é para crianças com 8 ou 9 anos e não para crianças novas. Eu até brinco porque tenho dois filhos em casa e podia ter feito a experiência, mas nem sequer me lembrei disso. Na realidade, muitas vezes, penso que… Porque nós estamos tão embrenhados dentro da história que aquilo nos parece tudo evidente. Nós já lemos aquela história N de vezes, pensámos, conhecemos todos os meandros, todos os labirintos, todas as coisas... E é um pouco como aquele rato que já conhece o caminho do labirinto. Depois de conheceres o caminho, ele deixa de ser labiríntico, simplesmente fazes aquele caminho e já não te perdes mais. Mas eu esqueço-me muitas vezes que o leitor só lê uma vez e não cem vezes como nós fazemos, por isso a percepção deles da história é muito diferente daquela que tu imaginaste inicialmente. Eu lembro-me que n’A Boneca de Kokoschka, quando saiu, toda a gente dizia “aquilo é labiríntico e é muito complexo” e para mim, na minha cabeça, era muito simples. Tanto que, ao início, quando entreguei o livro na editora nem sequer tinha uma ordem cronológica – saiu com uma ordem cronológica, os acontecimentos seguem mais ou menos uma linha de tempo normal, mas inicialmente eles estavam trocados – e a editora é que me disse “isto é uma maldade enorme que vais fazer com os teus leitores” e eu fiquei espantado porque aquilo para mim era evidente. Com o Para Onde Vão os Guarda-Chuvas aconteceu exactamente a mesma coisa, por exemplo, no final. Porque para mim é um final em aberto – eu não posso dizer qual é, mas pronto, senão estrago o final. O leitor ficaria na dúvida se fica assim ou assado, mas porque o tom é pessimista e eu não me apercebi disso – o tom é muito pessimista no final – as pessoas acreditam todas num final pessimista também.»


Para quem não sabe, há duas versões diferentes desta obra. Algures, nessas versões, existe uma palavra que é diferente e que consegue mudar o sentido que podemos dar à narrativa: «Existe uma palavra em que tu podes perceber que o teu livro é diferente. Tens um diálogo que não existe nos outros livros normais, mas se descobrires essa palavra já sabes que tens um livro especial. Na realidade, isso foi uma maneira de fazer com que as pessoas não descobrissem imediatamente, mas também é um processo muito complicado, esses dois exemplares especiais nunca apareceram. Como o livro vai para a terceira edição, os 5000 da primeira edição terão sido todos vendidos, mas pode estar numa biblioteca, num sítio qualquer, na prateleira de alguém, alguém que não leu, alguém que leu e não reparou… O que fiz com esses dois livros é, na realidade, é muito fácil explicar. O livro como tem o final em aberto, pode acontecer A ou B, ou seja, temos um final pessimista ou optimista. Nesses dois exemplares, num deles há uma confirmação do pessimismo e há um final optimista no outro. É por isso que um é luminoso e o outro nocturno.»

FIM DA PRIMEIRA PARTE



Relembro que em Janeiro de 2013 uma primeira entrevista foi feita e podem lê-la aqui: http://www.branmorrighan.com/2013/01/entrevista-afonso-cruz-escritor.html

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